domingo, 14 de abril de 2013

Grandes Estiagens

 Quando ouço falar e confiro o atual episódio de uma nova estiagem no Nordeste encho-me de lamentos, questões e revoltas. Explico: Quando menino, passando boas temporadas na casa dos meus avós maternos (região agreste do estado), o que mais ouvi falar, durante uma seca, eram das invasões de flagelados saqueando as cidades e povoados na busca de alimentos. Principalmente nos dias de feira que eram sempre momentos de muita expectativa devido à escassez dos produtos alimentares e o risco de saques. Na minha criancice, pelava-me de medo. Meu avô era comerciante e vivia sempre às voltas com essa preocupação. Outra coisa que vi muitas vezes foram as levas de paus-de-arara, carregando a gente faminta, para os grandes centros urbanos, a procura de solução econômica para sobreviver. Em Caruaru, isso era corriqueiro. O Brasil todo conhece bem essa história, sobretudo depois que celebrizada por Luis Inácio da Silva, um ilustre flagelado da seca nordestina.
Homem feito e ensaiando a vida profissional, cai como funcionário, na Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste – SUDENE, entidade do Governo Federal criada justamente para, entre outras coisas, tratar de livrar a Região desse flagelo secular. Criada em 1959, a SUDENE não era bem uma novidade à época. Vinha se juntar ao Departamento Nacional das Obras Contra a Seca – DNOCS, criado no inicio do século 20 e ao Banco do Nordeste do Brasil – BNB, de 1954, igualmente preocupado em financiar projetos que pudessem livrar o nordestino das agruras das grandes estiagens. Todos idealizados em meio a essas crises, bom frisar, e com fortes componentes políticas. Desde o Imperador Pedro II, coitadinho, que chorou diante da desgraça dos seus súditos flagelados, lá pelos anos finais do Império, que os governos dizem... dizem se preocupar com o problema.
Na SUDENE, onde fiz minha carreira profissional, durante anos a fio, o que mais trabalhamos foi na busca de soluções de bem-estar e desenvolvimento sócio-econômico para o Nordeste e os nordestinos. A idéia força foi sempre a de criar condições dignas e adequadas ao meio para fixar o homem no seu habitat, mesmo que em tempos de estiagens. Muito se fez, embora que pudesse ter sido bem mais, não houvesse a variável política a atropelar a execução de muitos engenhosos projetos. Lá forjaram-se inteligentes soluções, com a ajuda de peritos internacionais e experimentados técnicos especialistas na área. É uma história longa e por demais conhecida. Não posso desdobrá-la, devido ao exíguo espaço.
Confiante que o leitor ou leitora sabe bem do que falo, vou apontar minha “metralhadora” para, em minha opinião, os alvos responsáveis pela desgraça que, em pleno século 21, ainda assola o Nordeste. Falo de alvos, embora que, no final das contas, é um só: o Governo Federal. Está aí o grande responsável pela situação. Não foi por falta de boas propostas e bons projetos! Sou suspeito para falar, mas, a SUDENE – minha grande escola – desenvolveu estudos preciosos, mapeando a região, selecionando áreas promissoras para desenvolvimento, implantando infra-estruturas, capacitando o pessoal, preparando as populações das zonas de risco e apontando formas para distribuir a água necessária nos tempos de crise. Paralelamente, devido sua ação universal na área nordestina, desenvolveu e executou projetos transformadores para os grandes e médios centros urbanos regionais, importantes pontos de apoio às famílias numa situação de crise. Lamentavelmente, nem tudo que o papel dos planos diretores suportou, foram dele tirados, devido à falta de responsabilidade e decisão política dos governos que se sucederam ao longo da história. Acabaram com a SUDENE e o problema, é claro, persiste.
Quando vejo o projeto da transposição do São Francisco – polêmico inclusive – se arrastando por anos, me revolta. Não se admite que na segunda década do século 21, este assunto ainda seja atual e longamente debatido.
Recordo-me de certa ocasião em que um técnico estrangeiro, homem sério e de grande experiência no mundo inteiro, a serviço da SUDENE, pelas Nações Unidas, me confidenciou que as crises da seca eram convenientes para o exercício da política clientelista. Grande novidade, pensei. Naturalmente que concordei com ele. O que mais se vê nesses interiores do Nordeste são os políticos irresponsáveis “faturando” votos à base de atendimento aos correligionários com caminhões-pipas e distribuição de comidas. Uma vergonha.
Aliás, vejam como D. Dilma tem visitado o Nordeste seco, nesses últimos meses. Louca para “faturar” também. Mas o buraco é mais em baixo! Sabe do que mais: já falei muito de uma velha e cansada história. Vai a provocação.
NOTA: As fotos foram obtidas no Google Imagens





10 comentários:

Geraldo Pereira disse...

Grande Girley
Você falou em seu avô e eu falo de minha avó paterna, Beatriz de prenome, que contava sempre ao menino que fui, a seca de 1877. A história era a mesma de seu Blog: o saque e a migração. O povo fugindo de seu meio e saqueando por onde passava e o povo migrando à cata de dia melhores.Graciliano conta, também, tudo isso e até a cachorra Baleia foge da secura do tempo.O caso se repete e nem as joias da coroa vieram, porque se tivessem vindo seriam roubadas.
Geraldo Pereira

Baiano disse...

Prezado Girley,
Dizer que concordo inteiramente com seu raciocício é "chover no molhado", embora a chuva esteja faltando aqui no Nordeste. Também está em grande falta gente que traga alternativas viáveis e durarouras. O Prof. Carlos Henrique Mariz (Eletronuclear), em artigo escrito no DP de 29/03, propôs uma idéia bem-sucedida na California que você conhece muito bem.
Segue o texto e o link to artigo dele:
"A Califórnia, nos EUA, uma região tão ou mais seca, é hoje a 6ª economia mundial. Usinas nucleares “bombeiam” água permanentemente para a Califórnia, a ponto da região ter se tornado uma das maiores bacias leiteiras do mundo." (http://www.interjornal.com.br/noticia.kmf?canal=7&cod=20069508)
Amigo, essa matriz energética limpa composta apenas de geração hidrelétrica, eólica e solar é, como diz o Prof. Mariz, é uma miragem. Precisamos de energia de base, contínua e ininterrupta como a nuclear e a térmica.
Que outras soluções sejam apresentadas. Que os carros-pipa sejam usados como forma paliativa. Mas que os projetos estruturadores como as unsinas nucleares ou as térmicas modernas, sejam usadas e incorporadas de vez à nossa matriz energética.
Acho que o FORIND-NE poderia ser o iníciio desse discurso que não pode esperar pelos políticos.
Abraços Baianos,
Adierson

Anônimo disse...

Girley

Não sei se voce ja entrou nos trabalhos publicados pela EMBRAPA. La voce pode encontrar, trabalhos sobre o aproveitamento dos poços de agua salinizadas que foram abertos e fechados, poque 'a epoca não usavam os filtros de menbrana, ai vem logo a pergunta e os sais o que fazer dele, existe um trabalho na EMBRAPA, filtrar, para beber a agua desalinizada, o residuo, criar Tilapia, o residuo da tilapia irrigar a erva sal, que servira de ração. Se houver interesse pode visitar o projeto que eles, EMBRAPA, mantem funcionando em Petrolina eles terão muito prazer em apresentar. E tem mais...

Celso Cavalcanti disse...

Caro Girley,
Enquanto o nosso povo achar que os recursos públicos são "do Governo" e não seus, não sairemos deste círculo vicioso e ficaremos sempre pedindo ao invés de exigir que os nossos impostos sejam usados de forma eficiente e eficaz.
As secas sempre existiram e continuarão a ocorrer. O que tem mudado é a capacidade do homem de interferir com a técnica e minimizar os seus efeitos ou até, como é o caso de Petrolina, transformar este constrangimento climático inexorável em uma grande oportunidade econômica.
Menos circo nos palanques dos anúncios eleitoreiros de "pacotes contra a seca" (contra a seca???) e mais trabalho técnico-economico na elaboração de planos de contingência (uma seca bíblica como a atual não começa de um dia para outro), obras estruturadoras concluídas nos custos e prazos estabelecidos, mudança de padrões sociais e econômicos em áreas de risco, etc, etc.
Um abraço,
Celso Cavalcanti

J.Artur disse...

Quem quer faz, quem não quer manda... Se todos nós, simples mortais, sabemos que existem soluções que salvarão da morte não só o gado, mas os nossos irmãos brasileiros, porque o pessoal do DNOCS e da SUDENE não sabem? E vocês leitores do Girley, sabem o que significa o pomposo nome DNOCS? Departamento Nacional de Obras Contra a Seca ! Imaginem se fosse à favor !!
Existe desde quando? São burros para não encontrar as soluções? Ou omissos, para não aplicar os conhecimentos? Então que consultem ISRAEL que planta no deserto!
Para se ter uma ideia, o índice médio de chuva em ISRAEL é de 600 mm por ano - no semiárido brasileiro, o índice é de 800 mm anuais. Lá, na região sul, onde está o deserto de NEGEV, esse índice não chega a 30 mm/ano. "Temos um sistema intensivo de produção", diz o Dr. Yitzhak Kiriati, diretor do DNOCS de lá, que na realidade chama-se “Departamento de Agrotecnologia, Água e Ambiente”.
E onde aprendi tudo isto? Do Google !!! Manda esse pessoal acessar a internet!!!

Pieranna Morandi disse...

Meu caro amigo Girley, sempre leio os seus comentários com muita atenção. Este em especial me deixa triste por a dureza e a realidade, mas feliz sua sensibilidade. Um grande abraço.
Pedro Roberto Rivera
Santiago - Chile

Regina Dubeux disse...

Uma tristeza, prezado Girley! Muito bom você trazer à baila sua experiência na SUDENE, nesse tópico da seca do Nordeste. Vou visitar o link posto por "Baiano disse...", a quem agradeço.
Abraço,
Regina.

Rogério Mota disse...

Amigo Girley,

Todo artigo que se comenta, que se cria soluções para a maior seca que o Nordeste vem passando, é muito importante para uma maior conscientação do povo brasileiro. Esqueçam Sudene, DNOS, Empbrapa e até as soluções em Israel. Em Serra Talhada existe uma propriedade totalmente verde. Esta propriedade está em pleno Sertão do Pajeú onde está acontecendo a maior seca de todos os tempos. Ai neste local, foram feitos diverssos poços artesianos. Sabe de quem é? Do deputado Inocêncio Oliveira. Subindo a serra fica Triunfo onde seu açude secou e não esta se fazendo nada, nem ao menos limpando. Trazer solução meu amigo Girley é somente querer fazer. Isso tudo que estamos assistindo como morte do rebanho e até de pessoas de fome, é um "holocausto" não muito diferente da 2ª guerra mundial. Santa paciência!!!

maria helena disse...

A pertinência e a sensibilidade de seus textos, me comovem e me fazem ter esperança no ser humano...sempre aprendo com o que você escreve, e com os comentários que o texto provoca. Nós nordestinos somos todos marcados por este fenômeno da natureza... e o mais triste é sabermos que saídas já foram pensadas, e se não são postas em prática é por interesses excusos...lamentável mesmo , meu amigo!

Anônimo disse...

Caro Girley:
No alto dos meus 77 anos, posso avaliar a sua indignação que é igual a minha. Depois de constatar que a SUDENE oi fechada por ato do Paulista Presidente FHC aina nos restava a esperança do LULA que mandou desengavetar o projeto de transposição do Rio São Francisco e que vem sendo tocado muito devagar. Quando a TV nos mostra as milhares de cisternas espalhadas por aí afora, dependendo de instalação, as verbas que nunca chegam e o nosso governador andando de galho em galho para viabilizar a sua candidatura à Presidente, deixando o Estado entregue a sua própria sorte eu pergunto? ainda se pode ter algum tipo de esperança? Que modelo de gestão é este, onde o PIB de PE, com SUAPE e tudo foi menor do que o do CE e duas vezes menor, do que rendeu a da Bahia.
Almir Reis - advogado e jornalista.