domingo, 2 de setembro de 2012

Dores da Colômbia

A Colômbia é um país muito especial. Já estive por lá três vezes. Aconselho conhecê-lo, sem se deixar influenciar pela propaganda negativa que se faz, devido à insegurança, ao narcotráfico e às barbaridades das FARC – Forças Armadas Revolucionárias de Colômbia. Minha ultima visita foi em 2010, quando confesso encontrei um país mais tranqüilo, relativamente pacificado, embora saibamos que essa é uma questão ainda por exigir definitiva solução. Esta semana fiquei contente ao ouvir o noticiário de que o Presidente Juan Manoel Santos está negociando, mais uma vez, a paz com os militantes da guerrilha, que atualmente já se revela mais fraca e reduzida, após baixas de seus mais importantes chefes, em combates sangrentos, nos últimos anos.
Bogotá, a capital do país, é uma cidade surpreendente e muito agradável. Moderna, movimentada e repleta de atrativos turísticos, com um centro histórico notável, onde se encontram duas jóias preciosas da América Pré-Colombina e do período sob domínio espanhol: o Museu do Ouro e o Nacional da Colômbia. Além da capital, três outras cidades se destacam: Medellín, Barranquilla e Cartagena de las Índias que, igualmente, surpreendem o visitante. Sobretudo esta última, pela beleza colonial recheada de muita história.
Mas não é sobre isto que, especificamente, pretendo falar hoje, porque meu tema esta semana é sobre Botero e sua exposição Dores da Colômbia, atualmente em temporada no Brasil, com uma parada no Instituto Ricardo Brennand, até o próximo dia 9 de setembro, aqui no Recife.
Fernando Botero, magnífico pintor e escultor colombiano – seguramente a maior expressão do gênero, daquele país andino – é um artista contemporâneo, vive na Europa a mais de quarenta anos, onde estudou e desenvolveu sua arte. Completou 80 anos de idade, em 19 de abril passado.
A exemplo da Goya e Picasso, Botero teve a idéia de retratar na sua arte os horrores da guerra civil do seu país, com seu estilo bem peculiar que são as imagens rotundas, hoje, consagradas no mundo inteiro. Na serie Dores da Colômbia, o pintor revela seu repúdio ao estado beligerante que vive seu país, diferente da sua habitual trajetória de levar às telas e formas esculturais, imagens alegres e folclóricas da sua terra natal. Visitar o Museu Botero, anexo ao Museu Nacional, em Bogotá, é uma festa para os olhos de quem admira a arte da pintura e escultura. Clique em http://gbrazileiro.blogspot.com.br/2010/03/imagens-colombianas-ainda.html  e veja minhas impressões quando da minha visita em março de 2010.

A mostra é impactante, sobretudo pela rudeza das imagens, suas cores e traços. Para um observador desavisado pode ser chocante. Contudo, é de se admirar o engajamento do pintor na causa de combate à 
violência e a estratégia de desumanidade das tais forças guerrilheiras que, sob um manto de libertadoras, vem impondo ao país uma página sombria e sangrenta. O povo colombiano não merece viver esta situação, que perdura por aproximadamente 40 anos, prejudicando seu desenvolvimento econômico, social e político.
Durante esse tempo já visitei o pais por três vezes, como já falei, e recordo que em 1972, na minha viagem ao país, quando além de Bogotá, percorri outras regiões, numa verdadeira aventura, incluindo uma no meio da selva para visitar a Reserva Histórica de San Agustín, ruínas de cidade dos primitivos habitantes, os Muiscas, da nação dos Chibchas, nos altos dos Andes, e pré-Amazônia colombiana. Em meio da trajetória fomos parados por grupos armados – não sabíamos sequer se força armada do governo constituído ou da guerrilha em franca organização – que nos revistaram e investigaram nossas intenções. Como estrangeiro fui bem tratado, apesar de me apalparem da cabeça aos pés, em busca de alguma arma. Livrar-nos deles foi um alivio, ao mesmo tempo em que restava uma interrogação pelo que podia acontecer mais adiante. Com coragem de jovem destemido, à época, seguimos adiante e alcançamos nosso destino. Eu estava acompanhado por amigos colombianos. Hoje, eu não teria aquela bravura. Mas os quadros de Botero, no Instituto Ricardo Brennand, me relembraram aquela aventura. Cheguei aos arrepios, pensando no insucesso que poderia ter ocorrido nessa viagem, no já distante 1972.
Botero fez questão de afirmar que não quis ganhar dinheiro com a coleção das Dores. Ao contrário, quis deixar registrado, na sua forma de se expressar, sua revolta e repúdio ao sofrimento da sua nação. A obra foi doada, por completo, ao Museu Nacional da Colômbia, que em boa hora permite mostras no Brasil e outros países. Vale à pena conferir.
NOTA: Fotos obtidas no Google Imagens.
SERVIÇO: A mostra Dores da Colômbia fica em cartaz no Instituto Ricardo Brennand até 9 de setembro. Não perca. Já passou por Porto Alegre, São Paulo, Rio, Belo Horizonte e Salvador.     

3 comentários:

Angela Barreto disse...

Adorei o seu artigo sobre a Colômbia!!!em que se referiu ao grande Fernando Botero e suas famosíssimas pinturas. O artigo por inteiro está indo agora para os meus amigos internautas, que já são seu assíduos leitores. Beijo grande
Angela Barreto

Jorge Morandi disse...

Caro Girley:
Acho que toda América Latina está sensibilizada por esta nova oportunidade de alcançar a tão desejada paz na Colômbia, e acho também que todos estamos torcendo pra isso acontecer à maior brevidade possível.
O Fernando Botero tem sido sempre um tenaz militante pela paz e tem sido muito crítico no só das ações criminosas das FARC e de outras forças da guerrilha, mas também das profundas injustiças que ainda perduram na Colômbia, especialmente nas áreas rurais onde milhares de camponeses são permanentemente agredidos, perseguidos, e deslocados fora de suas comunidades, seja pelas forças armadas ou pelos grupos paramilitares.
Por isso, eu admiro muito a Botero, no só pela sua arte, mas também pelo seu compromisso social, e por este motivo, fiquei muito feliz quando ele, apenas iniciado o período democrático na Argentina, doou ao povo do meu país,uma escultura que atualmente encontra-se localizada no Parque Thais, no bairro portenho da Recoleta.
Pode ver a imagem da escultura no link http://www.panoramio.com/photo/15308023
Abraço amigo, e mais uma vez, parabéns pelo blog.

Girley Brazileiro disse...

Caro amigo Morandi,
Sim, eu conheço esta escultura lá no Parque Thais, como conheço a obra de pintura, da sua autoria, exposta no MALBA.
Gracias por sempre visitar meu Blog do GB.
Abração,
Girley