sábado, 15 de setembro de 2012

O Brasil do Presente

Sou dos tempos em que as correntes migratórias internas eram intensas e motivo de muitas preocupações para governantes locais. São famosas as histórias de retirantes da seca nordestina. Músicas, filmes, encenações teatrais, pinturas, como a Portinari, a seguir, promessas políticas e tudo quanto se possa imaginar tinham nessas migrações excelente fonte de inspiração.
Eu era um pirralha e me apavorava quando meus avós, tios e tias comentava sobre a invasão de retirantes a centros urbanos interioranos, saqueando em feiras populares e casas comerciais, à cata de comida para sobreviver. Eu só imaginava que um enxame de retirantes poderia, de repente, invadir as casas comerciais e residenciais do meu avô, em Fazenda Nova, para saciar a fome. Em 1877 – peraí, eu não sou desse tempo! – a situação foi das mais cruéis e dizimou cidades e vilas nordestinas. O Ceará perdeu metade da sua população. A fome foi geral. Até hoje, quando um sujeito esfomeado avança num prato de comida se diz que está com a fome do 77. Aquele episódio ficou gravado na memória do povo da região como a mais desastrosa. Foi nessa ocasião que D. Pedro II resolveu vir pessoalmente inspecionar a situação. Dizem que ele, penalizado, derramou copiosas lágrimas reais, prometeu vender as jóias da Coroa e atribui-se a Sua Majestade o inicio da chamada, hoje, de política da Solução Hidráulica.  A primeira obra foi o Açude do Cedro, no Ceará. (Foto a seguir). O açude está lá e as jóias no Museu de Petrópolis. Esta história fez parte do meu dia-a-dia, enquanto técnico da SUDENE, durante muito tempo.
Mas, historia à parte, o que se sabe é que levas e levas de nordestinos tomaram o rumo do Sul, à busca de uma solução de sobrevivência. São Paulo foi o destino preferido e durante muito tempo foi considerada a “maior cidade nordestina do país” em face da enorme população de oriundos dos estados do Nordeste. Um dos mais proeminentes representantes dessa corrente migratória é o ex-Presidente Lula. Saiu das brenhas com terra esturricada, prá lá de Garanhuns (PE) e foi bater na periferia paulistana. Fora ele, sabe-se que existem muitos outros bem sucedidos, que se misturaram com outros imigrantes, entre os quais, os italianos, poloneses, alemãs, japoneses, chineses e coreanos que formam a Babel paulistana. Mais recentemente, com o atual sucesso econômico brasileiro, vieram também bolivianos, paraguaios, peruanos, uruguaios e argentinos. São Paulo é uma cidade cosmopolita, vibrante e desenvolvida por conta dessa mistura racial e natural diversidade cultural.
Ocorre, porém, que as coisas tendem a mudar de figura. O desenvolvimento econômico, que me referi acima vem revelando novos pólos de desenvolvimento e melhores condições de vida em muitos outros pontos do país. O Nordeste, por exemplo, é a “bola da vez”, o que já era tempo... O Censo de 2010, cujos resultados foram divulgados, pelo IBGE, recentemente, aponta para situações, de certo modo, inesperadas. Uma das mais interessantes constatações: a movimentação dos brasileiros entre estados constatou que os nordestinos estão voltando aos seus estados de origem, onde identificam oportunidades de viver dignamente e mais resistente aos riscos do passado. A seca já é mais bem administrada, embora continue sendo uma realidade. Os cearenses foram os que mais regressaram. 46,6% dos chegaram para se fixar naquele estado eram de imigrantes retornados. Considerando o Nordeste, como um todo, o Censo detectou que 40% dos que chegaram à região eram de retornados.
Se, por um lado, os nordestinos estão voltando às origens, muitos são os estrangeiros que baixam no Brasil, principalmente em São Paulo, Paraná, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Segundo o IBGE, em 2000, os imigrantes estrangeiros eram, aproximadamente, 150,0 mil. Já em 2010, isto é, uma década depois, o número subiu para quase 270,0 mil. Para um país que tenta controlar a entrada de mão-de-obra estrangeira, é muita coisa. Afinal, são postos que poderiam ser ocupados por brasileiros. Boa parte desses imigrantes são “retirantes”, também, das misérias e pobrezas que viviam nos seus países de origem. São Paulo está cheia de bolivianos e paraguaios, por exemplo, trabalhando, até mesmo, em regime de semi-escravidão, situação denunciada com freqüência pela TV brasileira. Chegam ao Brasil famintos e certos que aportaram no El Dourado dos seus sonhos. (Foto abaixo).

Por fim, descobri outro dado interessantíssimo: 174,5 mil brasileiros que, em 2005, moravam no exterior resolveram voltar a viver no Brasil. O IBGE chama essa turma de imigrante internacional de retorno. É um Brasil Novo, bombando e revertendo a corrente de brazucas que, há bem pouco tempo, só pensava em deixar o Brasil e conquistar uma vida boa no estrangeiro. Essa gente volta de países como os Estados Unidos, Japão, Portugal, Espanha, Paraguai e Bolívia. É um sinal concreto de que a crise, lá fora, é sem precedentes. E que o Brasil está mesmo bombando! Será que estou otimista demais? É Brasil do presente.
Fonte dos Dados: IBGE
Nota: Fotos do Google Imagens

Um comentário:

Ronaldo Carneiro disse...

Caro Girley – interessante seu artigo sobre as novas correntes migratórias no Brasil – sinal dos tempos e da crise!!! Seu blog esta muito bom, parabéns. Grato pelo envio de seus textos. Penso que temos algo em comum: você como ex técnico da Sudene e eu como ex negociador de projetos no Banco Mundial, muitos para o nordeste, onde tive uma experiência marcante. Penso que algo esta errado nas regras de jogo do desenvolvimento. Veja em: HTTP://rcarneiro4.blogspot.com.br Cordial abraço.
Ronaldo Carneiro