segunda-feira, 18 de agosto de 2008

ADORO COMER BEM

Na semana que terminou uma noticia, divulgada pela BBC, surpreendeu o mundo inteiro. No Estado de Bihar, na Índia, o Secretário de Bem-Estar Social, Vijay Prakash, instou a população a comer carne de rato como forma de combater a crise dos alimentos na região. Segundo ele a proposta é fundamentada em “muita pesquisa e trabalho de campo” e se concentrará na comunidade de Musahar que já tem por tradição cozinhar pratos à base de carne de rato. O sujeito acrescenta que a carne do roedor, além de muito delicada, é rica em proteínas e muito popular “na Tailândia e na França”. Na França?! E mais, disse ter receitas para pratos à base de rato e vai distribuí-las entre os hotéis de Bihar. Ah! Anunciou que a região vai começar a produzir ratos para o abate da mesma forma como é feito com aves.
A meu ver, comer é uma dos maiores prazeres da vida. Gosto de comer bem e de cozinhar nas horas vagas. Mas, pensando bem, o que é muito bom para mim, pode parecer uma coisa asquerosa para outros. Ou seja, “cada terra tem seu fuso e cada povo tem seu uso”. Eu gosto de peito de peru a Califórnia, mas outros (indianos, por exemplo) de peito de rato assado, com molho de pimenta do reino... que se vai fazer?
Há alguns anos, houve uma denúncia de que o homem pobre do Nordeste brasileiro, para não morrer de fome, comia ratos gabirus. Não era verdade. Não chegaram a tanto. O que eles comiam eram preás, também conhecidos por porquinho da India, muito comum no semi-árido. São roedores, sim. Como são as cutias e os coelhos.
Nos últimos dias a China tem sido noticia diária por conta das Olimpíadas. Quem quer falar daquele país tem mil temas a abordar e, se a opção for a culinária, haja espaço para todos os comentários. A cozinha chinesa é tida como uma das mais sofisticadas do mundo. Há uma rica variedade que vai de um simples yakisoba ao pato laqueado de Pekim. Mas, tem, também, um serie de “iguarias”, cujas imagens circularam, recentemente, na Internet, que é de arrepiar qualquer gourmet, em qualquer parte do planeta. Imagine-se comendo espetinhos de cobras do rio, lacraia, cavalinhos marinhos, cigarra, lagarto a milanesa e fígado de cachorro com legumes. Pense em saborear uma caldeirada de cérebro de cachorro! E a de pulmões de cabra com pimentões. Se quiser, dê um pulinho até lá e delicie-se. E, tenha bom apetite. Mas, por favor, nessa hora, não se lembre de mim.
É isso mesmo. Existe muito exotismo no mundo da culinária. E, no nosso caso, o sarapatel e a buchada são exemplos nítidos. Nem todo mundo enfrenta.
Viajando, certa vez, pela África do Sul, vi-me, com um grupo de pernambucanos, num restaurante, onde serviam, segundo os proprietários, 99 tipos de caças. Desfilaram pela nossa mesa assados de toda espécie. Da letra A a Z. Entre outras me recordo de antílope, girafa, queixada, hipopótamo, filhote de puma, jacaré, cobra, veado, cervo e zebra. Foi um vexame... ninguém queria encarar os excessos de exotismo. O que fez a alegria da mesa, no final das contas, foi uma galinha d’Angola servida num molhinho saboroso. De fato, as várias carnes servidas exalavam, todas elas, um forte cheiro de capim. Era como se estivéssemos comendo mato. Já pensou? Foi um tal de tomar vinhos, para amenizar o gosto ruim, que deixou a maioria pra lá do Cabo da Boa Esperança, ali bem perto.
Mas, não precisa ir à África ou Ásia para encontrar pratos diferentes. Certa vez, em Nova York, falando sobre os preços de restaurantes da cidade, alguém me falou de um local que servia um sofisticado prato de formigas ao molho da manteiga, que custava U$ 120,00! Achei estranho, até que uma amiga pernambucana me disse que as formigas não passavam de exuberantes bundas de tanajuras! Quase “morro” de rir. Vai ver as tanajuras que serviam por lá haviam sido importadas de Bonito ou Bezerros, interior de Pernambuco, onde a espécie dá de sobra.
Por isso tudo, não custa lembrar: em viajando, vá preparado para as surpresas.

Nota: A foto de um mercado chinês foi obtido no Google Imagens

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Ôxente, assim não dá (2) (Passe o Celular)

Meu genro, Nigel Davidson, é australiano de New Castle (200 km ao Norte de Sidney). Com seu tipo nórdico, decidiu viver algum tempo, com Manuela, entre nós, aqui no Recife. Foi a maior alegria na família, tê-los por perto.
Mas, a minha maior preocupação era ver aquele rapagão, de quase dois metros de altura, típico escocês, herdado dos seus ancestrais, solto pelas ruas do Recife, cheia de oportunistas "carentes" e, aqui ou acolá, um assaltante para tirar a tranqüilidade.
Ele, muito descontraído, ia e vinha pelas ruas da cidade, com boa desenvoltura e cheio de confiança, sobretudo porque, muito rápido, dominou o idioma local.
Eu, pelo meu lado, recomendava toda hora muito cuidado, sobretudo nas ocasiões das caminhadas noturnas. Ele tem a mania de ir a todo lugar “rodando” sobre os próprios tênis, tamanho 45.
Tudo corria muito bem até a noite em que dois sujeitos muito feios, na opinião dele, numa moto, o espreitaram e, armados de revólveres, o atacaram tomando-lhe alguns trocados e o telefone celular.
Assustado, o australiano correu para casa, bem perto do local do assalto, e do telefone fixo me avisa que fora assaltado. “Fui assaltado, Girley”, disse-me com a voz embargada. “Mas, lhe machucaram?” perguntei logo. Com a resposta negativa fiquei mais tranqüilo. “Graças a Deus, entendi o que eles falavam. Foi bom aprender falar português” desabafou meu pobre genro, manifestando alívio de estar em casa, com segurança.
Acredito que, somente nessa noite, ele entendeu nossas recomendações e os perigos que corria, ao circular de peito aberto (ele tem um respeitável chest de nadador australiano) e tranqüilidade.
“Viver no Brasil precisa ter peito, meu filho”, disseram a ele, em algum momento. Ele deve ter traduzido “ao pé da letra” e pensado: “é comigo mesmo”. E, foi por aí...
Taí, no que deu...
Passado o susto e ficha caída, Nigel tratou de avisar ao pai dele na Austrália, Mr. Michael Davidson, o ocorrido e recomendar que deletasse o número do celular roubado.
Surpreso e intrigado, Mr Davidson perguntou: “por que o celular?”. Na cabeça dele um celular só tem serventia para seu proprietário. “O que esse ladrão vai fazer com seu celular, meu filho?” Com um frouxo de riso, Nigel explicou que aqui no Brasil é muito comum roubar celulares. “Que coisa mais rara!”, retrucou Michael Davidson.
Mas, o melhor ainda estava por vir. Mr Davidson, sorrindo e satisfeito porque o filhote havia saído ileso da emboscada, perguntou: “mas, também, agora você deve ser uma pessoa famosa aí no Brasil... porque, imagino, que isso deve ter sido noticiado na mídia escrita, falada e televisada”. Nem precisa dizer que Nigel – já bem abrasileirado – dobrou a risada. Riu, riu, "à bandeiras despregadas".“Que nada dad... aqui, só é noticia para a mídia quando a vitima é assassinada!”
Se Mr Davidson falasse português certamente teria exclamado: “Ôxente, assim não dá!”.
Nigel e Manuela mudaram-se para a Austrália desde janeiro passado. Acho que por lá estão livres de assaltantes e ladrões de celulares.

Nota: A imagem de uma caricatura foi colhida no Google Imagens.

Esta postagem é dedicada a Manuela e Nigel felizes, na distante Austrália

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

BRASILIA – 50 ANOS

...e uma das primeiras coisas que vi, ao desembarcar e circular pelas largas artérias da capital federal, foi um placar digital com contagem regressiva informando que faltam somente 622 dias para as comemorações do cinqüentenário da cidade. Em 21 de abril de 2010, Brasília completa 50 anos de inaugurada.
Já estive muitas vezes na cidade, a passeio e em muitas missões de trabalho. A primeira vez, recordo bem, foi em 1967 e a minha primeira idéia era de haver chegado aos cafundós de Judas.
Para começar, naquela época, o aeroporto era um barracão de madeira, como de madeira foi, durante muito tempo, o Palácio do Governo – chamado de Catetinho – metido no meio do cerrado, antecessor dos monumentais palácios do Planalto e da Alvorada.
Naquela época, o vento seco do cerrado rodopiava ao redor do sujeito, deixando roupas e sapatos em tom avermelhado da cor da terra que caracteriza a região. No fim do dia o cidadão menos preparado, para aquele imenso canteiro de obras, espirrava partículas, digamos, de tijolo.
É incrível ver a Brasília de hoje. A imponência dos palácios governamentais e a exuberância da arquitetura moderna de Oscar Niemayer e Lucio Costa, que, mesmo depois de cinco décadas, continua moderna e vanguardista, encantando a brasileiros e estrangeiros, que já não padecem do vento carregado de terra vermelha e termina o dia, urbanamente, limpo.
Contudo, algumas coisas já chamam muita atenção. Uma delas é o intenso transito da cidade. Tenho a impressão que algo foi equivocado no projeto original ou então não foi possível conter a atração que a cidade exerceu sobre uma legião de brasileiros que, buscando novas oportunidades de vida, decidiram se radicar por ali, na imensidão urbana do Planalto Central.
A cidade foi planejada para suportar uma população de 500 mil habitantes. Neste 2008, já vivem ali mais de 2 milhões de almas.
Claro que, ajudado pela expansão continua do uso do automóvel, sonho de consumo de todo brasileiro, a sonhada capital brasileira – pacata e sem engarrafamentos, cruzamentos e semáforos – viu-se obrigada a usar das obvias modernidades para administrar o movimentado de tráfego ali reinante. A entrada ou saída do Plano Piloto – região que concentra os equipamentos urbanos básicos, como palácios governamentais, câmara federal e senado, ministérios, repartições públicas comuns, comércio, escolas e universidades, zonas hoteleiras e as super-quadras residenciais – se constitui, na hora do rush, num exercício de paciência para quem vive nas chamadas cidades satélites.
Prestes a completar seu cinqüentenário de existência, Brasília já se transformou numa grande metrópole, que na pratica representa a síntese do Brasil.
Se vivo fosse, o Presidente Juscelino Kubitscheck, o JK, estaria certamente orgulhoso da sua criação e, sobretudo, por haver entrado na História como sendo o maior de todos os bandeirantes. Na minha opinião, JK foi o maior desses desbravadores porque, ao fundar Brasília, promoveu a ocupação/inclusão da região Centro-Oeste, antes disso uma verdadeira ficção para a grande maioria dos brasileiros habitantes da faixa litorânea do “continente” brasileiro.
Ao circular por Brasília, na semana que terminou, e me surpreender com o passar dos 50 anos, pude fazer essas reflexões e admirar a beleza e a urbanidade dessa cidade brasileira que é capaz de reunir gente de todos os quadrantes do país, construindo um mosaico étnico dos mais interessantes. Lá estão os índios e caboclos do Norte, os nordestinos, os afro-descendentes, os brasileiros de origem asiática ou filhos dos imigrantes europeus, antes concentrados no Sul, enfim uma miscigenação sem precedentes, que terminam por construir uma sociedade própria e cheia de histórias familiares para contar, sempre transcendendo a pouca idade do próprio habitat.
Salve Brasília, quase cinqüentona.
Viva JK, nosso último estadista e desbravador dos rincões do Centro-Oeste.

Nota: As fotos foram obtidas no Google Imagens. O Blogueiro esteve em Brasilia, nos dias 6 e 7 de agosto em misssão de trabalho do Simmepe.

Dedico esta cronica ao simpático casal rotariano, Mário Cunha e sua italo-brasileira esposa Cida Cunha, que gentilmente me recebeu em Brasilia, na semana que passou. A pizzza oferecida foi maravilhosa, mas o nosso papo foi sem precedentes. Adoro histórias de imigrantes.

sábado, 26 de julho de 2008

PAGUE DOIS E LEVE UM

Outro dia recebi um email mostrando, com fotos bem produzidas e numa serie de slides (formato power-point) carrões norte-americanos com seus respectivos preços de mercado. Um verdadeiro acinte ao pobre coitado do consumidor brasileiro. Não eram carrinhos dos tipos celtinhas, kasinhos ou pálios. Repito, mostravam carrões. Hilux ao preço de US$ 16.000,00, por exemplo. Um terço do preço no mercado brasileiro. Os do tipo “banheira”, que podem fazer o maior sucesso nas nossas praças mas ninguém pode comprar, por preços relativamente ridículos. Enfim, uma mensagem que deixa qualquer cidadão brasileiro “arrasado”, se sentido roubado e o pior, com vontade de deixar tudo para trás e ir viver na terra do Tio Sam.
De fato, não é fácil viver num país com uma carga tributária tão pesada.
Aqui tudo que se compra para consumir e usufruir se paga em dobro.
Coincidentemente, logo após receber o tal email, assisti a uma exposição de um especialista (Eduardo Queiroz, que é o atual Governador do Distrito 4500, do Rotary International) sobre a carga tributária brasileira e terminei pasmo com algumas informações prestadas.
Segundo ele, existem cerca de 74 tributos sendo cobrados no Brasil, entre impostos, taxas e contribuições. Muita coisa cobrada em cascata (tributação em dobro, triplo etc.) Depois disso, a CPMF caiu. Mas, a essa altura dos acontecimentos um a mais ou a menos, pouco influi.
“O sistema tributário brasileiro é o mais complexo e mais caro do planeta” disse Queiroz. Existem 3.200 normas em vigor, entre leis complementares, ordinárias, medidas provisórias, decretos, portarias, instruções e o “diabo a quatro”. Tudo isto operacionalizado – só Deus sabe explicar – através de 55.767 artigos, 33.374 parágrafos, 23.497 incisos e 9.456 alíneas. É inacreditável e, definitivamente, um verdadeiro absurdo.
Para ficar em dia com o Fisco (1,5% do faturamento), uma empresa tem que cumprir 97 obrigações acessórias! É por isso que se diz que o empresário brasileiro existe de teimoso que é!
Somando-se a isto as chamadas escorchantes taxas de juros, que inibe o consumo, os investimentos e, portanto, o progresso, não dá para entender como este Brasil pode crescer.
Comparando o Brasil com alguns países importantes, como os Estados Unidos, onde o imposto sobre o consumo não passa dos 15%, na França 22% e no Japão 18%, nossa situação é lastimável. É duro ser brasileiro.
E a coisa não pára por aí. Há claros sinais de mais tributos! Fala-se na substituição da CPMF, na criação de um tributo ambiental e outro sobre a circulação de veículos automotores, além da implementação de uma tal de Super-Receita.
Pois é, aqui, na terra de Cabral – diferentemente de economias mais desenvolvidas e ostentando renda per-capita mais alta – tudo que se compra vem com uma carga tributária tão estúpida que induz a um slogan simples e claro, para o comércio local: Prezado Cliente, não perca tempo, PAGUE DOIS E LEVE UM. É um barato este país de Lula!
Nota: Charges colhidas no Googles Imagens


domingo, 20 de julho de 2008

O FUTURO CHEGOU

As regiões Norte e Nordeste vêm sendo, nos anos recentes, escolhidas como localizações – estratégicas e privilegiadas – para grandes projetos estruturadores que se instalam no País. O que sonhávamos nas agencias regionais - SUDENE e SUDAM - , dos anos 80, torna-se realidade agora, quase 30 anos depois.
Exemplos disso são os megaprojetos de extração e beneficiamento mineral (sobretudo metálicos) da Vale do Rio Doce, que ocorrem nos estados do Maranhão e Pará, a implantação de grandes projetos do ramo da celulose e da indústria automobilística (Ford), na Bahia; o Estaleiro Atlântico Sul – que já começa a produzir seus primeiros navios –, a Refinaria de Petróleo Abreu e Lima, em Pernambuco, e mais duas em estudos para o Ceará e Maranhão; duas usinas siderúrgicas anunciadas, uma em Pernambuco e outra no Ceará, além de inúmeros outros grandes projetos em andamento, alguns em fase final de implantação, que irão transformar – para melhor e de uma vez por todas – os parques industriais das duas regiões.
São projetos que, vistos separadamente, já constituem flagrantes avanços para as economias das duas regiões e que, no conjunto, conferem maior realce face às imensas repercussões sociais que podem trazer.
Mas, como “nem tudo são flores”, paira sobre as duas regiões a incerteza da adequada apropriação dos frutos desse progresso repentino de duas regiões historicamente pobres e sempre exigindo políticas governamentais mais agressivas e efetivas, além de investimentos produtivos sustentáveis. O motivo são os gargalos e entraves observados nas estruturas sociais, econômicas e infra-estruturais reinantes nesses dois espaços geográficos brasileiros.
Mais do que nunca, nordestinos e nortistas precisam se mobilizar para não perder o bonde da história. A hora é esta, não pode ser depois. Ou seja, o futuro é hoje.
Aos Governos – Federal, estaduais e municipais – cabem imensas responsabilidades, enquanto provedores de infra-estrutura, educação básica e capacitação da mão-de-obra, segurança e saúde publica, administração ambiental, entre outras correlatas. E à iniciativa privada regional resta a missão de saber se ajustar a essa nova realidade, de maneira competente e, sobretudo, em tempo hábil, na busca de colher as benesses que os novos tempos lhe oferecem, sem esquecer que eventuais investidores extra-regionais, sempre caçando boas oportunidades, podem estar de olho nesse boom da periferia que se transforma rapidamente e promete bons retornos.
O desafio que esses dois atores – governo e iniciativa privada – têm pela frente, além de grande, exigirá uma forte dosagem de ousadia, inovação e determinação. Sob pena de perderem a chance de participar do salto qualitativo sócio-econômico sonhado há muitas décadas.
Na prática, tem muita gente extasiada com esse sopro repentino de progresso e, aparentemente, sem saber para onde correr. Usando a linguagem popular, a ficha ainda não caiu!
O Futuro chegou e muitos ainda não perceberam.


NOTA: Foto das obras de implantação do Estaleiro Atlantico Sul, Suape-PE, obtida no Google Imagens

quarta-feira, 16 de julho de 2008

ÔXENTE, ASSIM NÃO DÁ (1)

Acredite, isto aconteceu de verdade. Coisas do Brasil.
Um amigo e companheiro do Rotary Recife - Casa Amarela, Heitor Bezerra de Brito, foi tomado de assalto, ao sair do seu escritório. Pelas costas o assaltante – um jovem desgrenhado, cabelo oxigenado cor de fogo e de, aparentemente, 20 anos – anunciou a investida com um revólver na cabeça do meu amigo, exigindo carteira, celular, relógio, cordão de ouro e tudo que avistou.
Cara a cara com o assaltante, Heitor administrou o estresse, magistralmente, como aconselhável e começou a atender a ordem.
Ao receber a carteira – entregue cuidadosamente e com gestos estudados e anunciados, como manda o figurino – o marginal deixou cair a arma nos pés de Heitor.
Meu amigo, embora muito estressado, teve a feliz idéia de chutar para bem longe aquele revólver ameaçador, ao mesmo tempo em que se atracou com o ladrão e gritou por ajuda.
Bandido dominado e arma recolhida, Heitor mandou a secretária chamar a polícia.
Mas, como só acontece, a polícia demorou muito a chegar e Heitor, inchado de raiva e impaciente, resolveu pregar uma peça no assaltante.
Contra a vontade dos que lhe rodeavam pediu uma corda e preparou o assaltante para ser enforcado, ali mesmo, diante da multidão que os cercava e numa árvore frondosa ao lado do prédio. Que idéia mais medieval... enforcar, exige certa cerimônia e é coisa que ocorre lentamente. Não é vaput-vuput como um linchamento, por exemplo.
Nessas horas chega gente de todos os lados. Pense no estardalhaço. Uns diziam que não fizesse aquilo, que ele poderia se dar mal. Outros, concordando com a idéia, gritavam como torcida em campo futebol: “enfoooorca, enfoooorca ...”. Foi o maior auê da paróquia.
O enforcável, nem precisa dizer, se borrava todo, distribuindo seu mau cheiro fecal, na cena teatral dirigida por Heitor.
Ajoelhado o marginal pedia clemência, mas, Heitor segurou o tranco até que a Policia chegou. Era essa a intenção do meu companheiro rotariano. Queria somente assustar o cara.
Quando a viatura chegou e despejou os policiais – com aquele garbo, armas armadas e "agilidade" de sempre – o assaltante se levantou e exclamou aos brados: “graças a Deus, vocês chegaaaaram! Esse homem aí, quase me mata enforcaaaaaaado!”
Heitor entregou o sujeito, que, aos supapos, foi empurrado no camburão.
Aliviado, Heitor deu o caso por encerrado, até o dia em que recebeu uma intimação da policia para responder um inquérito por tortura e assédio moral contra aquele, digamos, outro eleitor.
Já pensou? O cidadão de bem é assaltado, passa por um estresse de lascar, vê a morte de frente, saindo – risonha e saltitante – do cano do revólver de um desclassificado e é quem paga o pato!
Ôxente, assim não dá!... Com a palavra os homens da Lei...

NOTA: Este caso real, relatado pelo próprio Heitor Bezerra de Brito, está publicado no livro “Crônicas e Contos Inesquecíveis”, reunindo escritos de vários autores e organizado pelo escritor Edvaldo Arlégo, da Editora Edificante, recém lançado.

A ilustração foi colhida no Google Imagens

domingo, 13 de julho de 2008

COMENDO NO MERCADO PÚBLICO

Foi-se o tempo em que comer num mercado publico, do Recife, era coisa de cidadão subabonado. Esta palavra acaba de ser inventada, até que provem em contrário. Hoje, os garis, frentistas, feirantes e semelhantes têm que dividir as mesas dos restaurantes populares dos mercados públicos com portadores de cartão de crédito ou cédulas azuis (das mais valiosas!) de Real.
A freqüência desses restaurantes mudou de perfil. Agora é a classe média alta e a rica que têm por costume baixar nos mercados da cidade para saborear, com o maior prazer do mundo, as delicias da cozinha popular, que, no final das contas é autêntica, tradicional e tem o sabor de cozinha caseira. Ô, como tem! E aí está o segredo do sucesso.
Aliás, nestes tempos de campanha eleitoral, os locais são, literalmente, prato-cheio para os candidatos.
Duvido que você vá encontrar mesa vazia, na “praça de alimentação” do mercado da Encruzilhada, num sábado, às 11 da manhã. É preciso ter muita sorte. E, se o destino for o Restaurante Bragantino, perca as esperanças. Lá se come o melhor bolinho de bacalhau do planeta. Nem em Portugal! Tô pra ver. Como o portuga, proprietário da casa, não aceita reservas, procure chegar cedo.
O que ocorre, agora, no Recife, já venho notando, há muito tempo, noutras cidades e as que mais me chamaram atenção foram as do Mercado Público de São Paulo (já falei, em fevereiro aqui no Blog), o magnífico e tradicional de Salvador (Bahia) e o de Montevidéu (Uruguai). Neste último se come o melhor fruto do mar da Província Cisplatina.
Aqui no Recife, inclusive, a coisa está se transformando numa das melhores opções turísticas e, não raro, já se vê até estrangeiros diante de uma buchada, de um bode guisado ou de gordurento sarapatel. Sei não... mas, tem uma coisa, depois de duas lapadas de Pitu, entra tudo.
Neste sábado percorri os três mais atrativos desses locais: Encruzilhada, Madalena e Boa Vista. Os cenários já são, por si só, interessantes. O Mercado da Boa Vista, inclusive, tem pintura em terra-cota e, até, uma galeria na frente (vide foto ao lado), lembrando os prédios de Bolonha (Itália), que comentei em postagem de junho passado. Muito bonito.
Pois bem. Todos três locais estavam – usando um termo bem pernambucano – coalhados de gente.
Aproveitando a esteira do sucesso, a Prefeitura do Recife vem patrocinando, ultimamente, uma boa idéia de colocar um conjunto musical, executando repertório típico, próprio para o ambiente e as comidas que são servidas. Tem baião, xóte e xaxado. O Clip no final da postagem dá uma boa idéia do negócio. E, de vez em quando, um frevinho para lembrar que estamos no Recife. Ah! Algumas vezes, um grupo de chorinho bem puxado nos violões e cavaquinhos. É uma beleza.
Não tenho dúvidas que estou diante de uma coisa certamente sustentável.
Agora, sem que ponha em risco esta sustentabilidade, nascidas espontaneamente nesses três locais, seria de muito bom tom que a Prefeitura do Recife promovesse uma reforma no Mercado de São José, na região central da cidade, instalando um mezanino (cabe muito bem) onde pudessem surgir restaurantes típicos voltados para o turismo. A construção é belíssima. A localização, também. Seria um sucesso, tenho certeza. Fica aí uma idéia para os candidatos a burgomestre da Mauricéia.

Nota: Fotos e clip são da autoria do blogueiro e feitas neste sábado 12.07.08

A História se Repete

Há histórias que atravessam os séculos sem perder a capacidade de nos fazer pensar. Ali Babá e os Quarenta Ladrões é uma delas. Lembro-me co...