Os jornais de hoje, no mundo inteiro, não falam de outra coisa, a não ser: “Fidel Castro renuncia e se recolhe”.Os spots se apagaram, o pano caiu e o astro se retirou, virando uma página, cheia de controvérsias, da recente História das Américas. Chegou ao fim uma Era, neste lado do mundo. Por mais que queiramos criticar, o Comandante Fidel gravou seu nome na História. Virou um mito (é o que dizem) e o mundo não vai esquecê-lo. Fez escola, colheu flores, por um lado, e espinhos, por outro, ao longo da sua trajetória governando – com mão de ferro – a aprazível ilha caribenha.
Foram quase 50 anos de resistência e persistência. Neste 19 de fevereiro de 2008, diante de um mundo surpreso, o povo cubano se acha dividido e postado, digamos, numa encruzilhada do destino. A nova geração cubana, que ainda não sabe o que é democracia, deve estar perplexa e cheia de interrogações. O que vai acontecer agora?
Acompanhei, desde garotão, as façanhas e peripécias de Fidel e, também, do seu camarada Che Guevara.
Por voltas dos 20 anos de idade, e entendendo melhor a história, fiz parte de uma mocidade que admirava e se encantava com esses dois personagens. Coincidentemente, fui mandado pela SUDENE (onde eu já dava meus primeiros passos profissionais) para um treinamento na Escola Interamericana da Zona do Canal do Panamá, um enclave norte-americano no istmo centro-americano, com o objetivo de administrar o canal inter-oceânico e manter uma base militar estrategicamente situada. Fui fazer um curso de cartografia, inútil para meu futuro como economista, mas, válido como experiência de vida.
Foi ali, distante do Brasil, que descobri o tamanho da coisa que envolvia o nome e a figura de Fidel. Numa zona dominada pelos americanos, percebi melhor as reações contra estes e a admiração pelo Comandante em Chefe de Cuba. Nas rodas de bate-papos, nas conversas de bares, clubes noturnos, parques e sala de aulas, na Zona do Canal ou na Cidade do Panamá, o homem era venerado e incensado como um verdadeiro Salvador do Universo. Venezuelanos, colombianos, nicaragüenses, costa-riquenses, guatemaltecos, entre outros, não perdiam oportunidades de enaltecer as qualidades daquele homem, cheio de carisma e capaz de manter um grupo de latinos ao redor de um receptor de rádio, escutando os intermináveis discursos por ele proferidos, desde Havana. Fidel mantinha, acho que até hoje, uma emissora potentíssima para alcançar meio mundo. A turma se reunia nas salas de jogos do alojamento da Escola, sistematicamente, para este fim. Escutavam atentamente e, por muitas vezes, bradavam uníssonos, como torcidas em campo de futebol, gritos de guerra. “Viva Fidel”, “Cuba Libre” e “Abajo Tio Sam” eram os mais comuns. Ficavam horas a fio, escutando um discurso repetitivo e maçante. Eu dizia que aquilo era bem ao estilo cubano, tipo “O direito de nascer”. Ou seja , uma novela sem fim.
Sabedor das restrições que o governo militar brasileiro, da época, fazia ao Homem Fidel e sendo portador de um Passaporte (que conservo até hoje) com um ostensivo carimbo declarando “Não é válido para Cuba”, a única opção que me restava era tomar cuidado. Mesmo porque entre os colegas, treinandos brasileiros, havia oficiais do exército. Gente fina, mas, sem dúvidas de olhos e ouvidos bem abertos. Quem viveu aquela época sabe do que estou falando. Tempinho difícil para um jovem, sem ganas políticas, sedento de explorar o mundo. O que haveria de tão errado naquela Ilha? Por que tanto temor a este líder das novas gerações latino-americanos? Voltei ao Brasil sem respostas convincentes. Mesmo porque, naqueles tempos, esse tipo de resposta nunca era dado.
Mais tarde, cursando meu pós-grado na Universidade de São Paulo, deu para perceber a admiração da estudantada paulista, daquela época, pelas figuras de Fidel e do Che Guevara. Eram tempos mais difíceis ainda. Plena vigência do AI-5 e uma repressão assustadora. Mas, a turma não perdia a vibração e a vontade de resistir. Frequentemente, o DOI-CODE baixava. Naquele cenário lembro de duas figurinhas bem conhecidas, tempos depois: Zélia Cardoso de Melo, horrenda, com uma axilose desmedida, vestida de hippie e aluna da graduação, panfletando no saguão da Faculdade de Economia, e Aluisio Mercadante, treinando para a vida parlamentar de Brasília, presidindo o diretório acadêmico.
O tempo passou e, bem mais maduro, já no final da década de 80, em plena democratização do país, a mesma SUDENE me escala para prestar uma cooperação técnica internacional, junto a uma entidade governamental de fomento regional, na Venezuela, desenhada aos moldes da nossa agencia de desenvolvimento.
Parti para a Venezuela, cheio de orgulho e vaidade profissional, me fixando na cidade de Barquisimeto, capital do estado Lara. Nunca me passou pela cabeça, que nesse local fosse ouvir tanta exaltação a Fidel. Aquilo me deixou, outra vez, impressionado. Esse homem é, mesmo, um gigante. O tempo passa e ele se mantém cada vez mais firme e forte, pensei muitas vezes. Descobri que levas de técnicos venezuelanos estavam indo ou haviam regressado de Cuba, onde passavam por longos treinamentos, ministrados por especialistas russos e, mais, em idioma russo. Impressionante. Estudar russo era comum naquela comunidade cientifica. Fidel era um verdadeiro deus para aquela gente. Um ídolo.
Graças a essa experiência venezuelana, entendo, com facilidade, a atual relação Venezuela-Cuba ou Chávez-Fidel, que dá no mesmo. Naturalmente que o fim da União Soviética mudou muito esse quadro. Mas, o resultado está aí.
Quando vejo o que acontece atualmente em alguns países latino-americanos – Venezuela, Bolívia, Equador e Nicarágua – vejo que o Velho Comandante fez escola. Uma escola fora de época e sem qualquer futuro, posto que segue um modelo testado e desaprovado. Uma quimera, portanto.
Ele, Fidel, possivelmente não terá tempo para se convencer do fracasso do seu modelo, o fim da sua escola e, quem sabe, se retira da cena para não ser testemunha ocular do ocaso da sua própria empreitada. Os exemplos da União Soviética ou da China não foram suficientes para convencê-lo.
O Homem sai de cena e o Mito ganha espaço. É assim que estão dizendo, mundo afora.
Para me assegurar melhor, consultei o dicionário Michaelis e vi que MITO quer dizer: “coisa inacreditável, enigma, utopia, pessoa ou coisa incompreensível”. Já pensou?
NOTA: Foto de Fidel, obtida no Google Imagens e foto do caribão "Não é válido para Cuba" do meu velho passaporte, que é, aliás, uma relíquia, testemunho de uma época.






