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quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Ares de Setembro na Argentina

Um compromisso social levou-me, semana passada, a Buenos Aires, a bela e aprazível capital da Argentina. Mais de uma vez já manifestei, aqui no Blog, a satisfação que sinto ao retornar àquela cidade e o fato da mesma se constituir num dos melhores destinos que me tocam.
Compromisso à parte, ressalto a chance de observar a cidade em si e o clima reinante no atual momento político-econômico dos hermanos. Gosto sempre de fazer isto. Para tanto, conversei com pessoas comuns – taxistas, balconistas, recepção do hotel, operadores de turismo, garçons, operadores de cambio, recepcionistas em geral, entre outros – buscando reunir opiniões com vistas a um registro neste espaço. Naturalmente que estou falando de subsídios primários, porquanto carente de técnicas apuradas. Contudo, ouvir o cidadão comum é sempre um indicador revelador. 
Vamos lá: a cidade me pareceu muito mais animada, comparando com minha última visita, e, sobretudo, melhor ordenada. Desapareceram aquelas hordas de ambulantes/imigrantes espalhando seus produtos artesanais ou quinquilharias chinesas, sobre mantas, nas ruas do chamado microcentro, que é a área histórica da cidade. Aquilo de antes conferia um aspecto de desarrumação e decadência sem tamanho preciso e justo na zona mais atrativa da metrópole. A famosa Calle Florida era o máximo do desmantelo, quando estive por lá nas últimas vezes. Não faz tempo. Apenas dois ou três anos. Hoje, não. O microcentro foi repaginado, melhor urbanizado, limpo, livre dos camelôs e recuperado na melhor forma, tal como no passado. E aparentemente mais seguro. Conheço Buenos Aires desde os anos setenta e pude acompanhar essas transformações com seus altos e baixos. O quadro atual é, indiscutivelmente, o melhor que já vi. Fiação elétrica e de telefonia, que no passado eram aparentes e enovelados nos postes, desapareceram e, agora, correm em dutos subterrâneos em muitas artérias da cidade.  Dá prazer passear na “nova” Florida e nas ruas do entorno. Entre as boas coisas, é gostoso admirar as vitrines comerciais de bom gosto, as galerias e os Shopping Center.
Acima, vista parcial da elegante Galerias Pacifico, no meio da Calle Florida e
abaixo, vistosa vitrine, na mesma rua.

É verdade que ainda se vê, ali e acolá, um maltrapilho abrigado numa marquise e encoberto com uma manta se protegendo do frio. Mas, muito raro. Nada que se compare com o que se vê nas principais cidades brasileiras. Não há menores carentes nas avenidas, não há limpadores de para-brisas nos semáforos, nem pedintes ostensivos.
Rara imagem da pobreza renitente e sinais da oposição.
Quanto às opiniões colhidas sobre a situação político-econômica posso afirmar que no geral as pessoas consideram estarem vivendo um momento transitório, de muitos sacrifícios, inflação em alta e significativas privações de consumo. Contudo, há um sentimento de que, tudo sendo transitório como parece ser, aponta para momentos de alivio em futuro próximo. Todos sentem os efeitos positivos do Governo Macri, assegurando que foi a melhor saída para a crise gerada pela gestão dos Kirchner. Curioso foi o fato de que alguns interlocutores chamaram a atenção para o fato de que a mesma coisa acorre no Brasil, isto é, o impeachment de Dilma aponta para uma solução econômica para o Brasil e que isso pode ser benéfico para a Argentina, também. O país é um dos nossos melhores parceiros comerciais. Os analistas econômicos da região consideram que aquilo que for bom para o Brasil será bom para a Argentina.
Outro detalhe muito enaltecido pelos portenhos é o fato de que, enquanto governador da Buenos Aires, Mauricio Macri rearrumou a capital e isto serviu de senha para que fosse eleito. A esperança é de que arrume a economia nacional. Naturalmente que, sendo uma democracia, existem os opositores que têm “castigado” o Governo na melhor forma que podem. Faz parte do jogo político. O mesmo que ocorre atualmente no Brasil.
Para nós sul-americanos resta a esperança de que a paz e o progresso reinem nas duas maiores economias do Cone Sul do Continente.  
No mais, o que me tocou foi aproveitar tudo aquilo que Buenos Aires oferece aos visitantes. É admirável como não se observa engarrafamentos de trânsito, nem problemas de estacionamento de veículos e, durante o tempo que lá estive, não vi qualquer tipo de acidente de trânsito.
Uma das maiores atrações argentinas é a qualidade da gastronomia, calcada principalmente na carne bovina. São centenas de restaurantes que servem a famosa parilla que dá água na boca só em pensar. Um bife-chorizo ou um lomo regados a um bom Malbec não tem dinheiro que pague.
Imagem de um assador crioulo preparando um cabrito na brasa, ao chimichuri.
Suculento lomo (Filé mignon) que saboreei, regado com belo Ruttini
A outra grande atração é o tango. No meu humilde ver, um tango bem executado e bem dançado é uma verdadeira magia artística. Melancólico, por vezes, sofrência explicita, apaixonante sempre e sensual. Sim, porque todo tango tem forte dose de sensualidade! Nada mais sensual do que uma bela dançarina, pernas à mostra, arriada, pendurada tal como trancelim ao pescoço do parceiro, que, em troca, geme, carrega como se sustentasse uma pluma, se esfrega, provoca a parceira e, naturalmente, a plateia. E, quando a música para, colhe os aplausos dos espectadores. Longos num claro testemunho de estarem fissurados. Quando numa dessas plateias, não tenho outra saída a não ser clamar: “traz outro Malbec, garçom”. Tá bom! Chega, por hoje.         
          
NOTA: As fotos que ilustram o post são da autoria do Blogueiro

sábado, 22 de novembro de 2014

André Rieu, o Rei das Valsas

Ele é querido e aplaudido por multidões ao redor do planeta. É criticado, às vezes severamente, por muitos especialistas e colegas de profissão, sobretudo na Europa. Mas, indiscutivelmente, ele é empolgante. Estou falando do maestro holandês André Rieu. Tive o privilegio de assistir um dos seus concertos realizados recentemente, aqui no Brasil, na cidade de São Paulo. Peguei a patroa pelo braço e, num dos fins de semana de Outubro, voamos até lá com o propósito único de ver esse entusiasmante animador de multidões. Da vida nada se leva... E essas coisas ajudam a levá-la. O espetáculo proporcionado é daqueles que costumamos classificar como de “lavar a alma”. O clima se instala a partir da entrada do local. Há um frisson coletivo. E falo de um coletivo expressivo porque, afinal de contas, é um público que lota um imenso local, neste caso o Ginásio do Ibirapuera, “templo” de esportes paulistano que pode receber mais de dez mil pessoas.
Precisamente na hora programada o Homem entra em cena, pela porta principal do ginásio, atravessa a plateia, seguido de um “pelotão” de músicos, por volta dos 45, a tocar e levantar o público. É uma entrada apoteótica que vai logo dando o tom do que vem pela frente. Durante mais de duas horas, o que se assiste é um festival de som, luz, imagens, vozes e danças. É contagiante.
Na verdade, mesmo não sendo um critico profissional, aventuro-me dizer que aquela orquestra de afinados músicos e harmonia invejável, sob a batuta de Rieu, domina um repertório que agrada em cheio a “gregos e troianos”. Das mais consagradas valsas vienenses – ele é chamado de Rei das Valsas – aos clássicos dos mitos europeus, enveredando por populares canções do país que visita, o que se assiste é tudo que todo mundo gosta sempre de ouvir. O Cara tem competência e é virtuoso por mesclar o erudito com o popular, além de transformar o popular em erudito, como nunca visto antes. Nesse espetáculo não há lugar para melancolias, tristezas ou desânimo. O clima é de festa do principio ao fim. A chuva de balões de ar coloridos que despenca, teto abaixo, sobre o público, no final do concerto, dá a típica nota final do espetáculo. Tem gente sorrindo, chorando de emoção, abraçando seu par ou vizinho desconhecido sentado ao lado, pulando e instintivamente dançando. Repito, é contagiante. Só mesmo num ginásio de esportes ou em praça pública. 
André Rieu nasceu na medieval cidade de Maastricht, na Holanda, de lá nunca saiu, montou residência e laboratório num belo castelo, de onde parte com sua equipe, a percorrer os cinco continentes. Nasceu de uma família de músicos. Seus pais o conduziram ao mundo da música desde cedo. Começou aos 5 anos de idade aprendendo a tocar piano e violino. Apaixonou-se pela bela professora, de 18 aninhos, e isso o entusiasmou ainda mais para seguir a carreira. O pai desejava formar um profissional mais ortodoxo, mas ele bandeou-se logo cedo para a música popular, entendendo que existem músicas boas e músicas ruins, sejam clássicas ou populares. Ele vai atrás das boas e consagradas pelo publico no passado e no presente, independente do gênero. No palco e sustentado pela sua orquestra, ele “pinta e borda” com seu magnífico violino Stradivarius, avaliado em R$ 6 Milhões, um joia rara, convenhamos. Tem um segurança especialmente  contratado para “segurar” sua joia preciosa, durante as turnês.
Rieu tem voltado ao Brasil, sempre a cada ano, desde que descobriu sua popularidade entre os habitantes de Pindorama, em 2010. Esperamos, faz algum tempo, a inclusão do Recife em uma dessas vindas. Como isso tem se revelado inviável, resolvemos ir a São Paulo. Tomara que o Geraldão seja recuperado, quando então teremos o prazer de recebê-lo nestas bandas. É um show caro devido à logística de transporte, seguros de viagem e de bens materiais, montagem de palco e cenários. Fora isto tem o guarda-roupa suntuoso, a segurança e transporte dos instrumentos, os equipamentos periféricos, hospedagem e alimentação do pessoal e tudo que se possa imaginar ser requerido para uma coisa do gênero.
Ele tem especial carinho e admiração pelo Brasil e no seu currículo consta um estágio que fez de seis meses com o Maestro Jacks Klein, no Rio de Janeiro. Isto foi na década de 70.
No repertório daquela noite em São Paulo, não posso esquecer-me de haver ouvido a execução da popular valsa Danúbio Azul, de Strauss. A plateia explodiu em entusiasmo e pôs-se a dançar. A cena, auxiliada por um recurso de imagem projetada no fundo palco, dava a impressão de que navegávamos no velho rio europeu. Mas, o homem se solta mesmo é quando abre espaço para consagradas canções como Besame Mucho, Êxodos, Granada, Zorba - o Grego e Manhã de Carnaval. Uma beleza sem fim.
Segundo ele próprio, quando percorre o mundo fica de olho em músicos, cantores e canções. A orquestra dele é uma verdadeira organização de Nações Unidas. Tem músicos e interpretes de inúmeras procedências. Do Brasil ele incorporou duas vozes belíssimas e de consagração mundial: Carmem Monarcha e Carla Maffioletti. Essas duas moças fizeram sucesso na Europa e são pouco conhecidas entre nós. Passando pela Argentina arrastou Carlos Buono, um bandeonista sensacional, que hoje integra sua orquestra. Esse portenho nos brindou, em S. Paulo, com duas páginas emblemáticas do moderno tango: Libertango e Adios Nonino, de Astor Piazzola. Ginásio à meia luz e público atento e silencioso, foi de arrepiar. Clique neste Link a seguir e sinta um pouco dessa emoção. https://www.youtube.com/watch?v=2sL3HSnvkUw
No final do concerto uma bandeira brasileira foi desfraldada e Rieu “atacou” de Tico-Tico no Fubá, Aquarela do Brasil e, numa ousadia sem limites, executou o popularíssimo “Ai se eu te pego” de Michel Teló. O Ginásio quase vem abaixo. O Cara sabe agradar. É onde reside seu sucesso.
Assim é André Rieu. Entenda esse Senhor como ele se mostra. Vale à pena assisti-lo.

NOTA: Você pode encontra no Youtube inúmeros filmes de concertos de Andre Rieu. Experimente! Por exemplo: Em São Paulo: https://www.youtube.com/watch?v=CgIQFvdoF9g

Nota: As fotos que ilustram o post foram obtidas no Google Imagens.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Carpe Diem porteño

Sempre que estou fora do Brasil faço questão de visitar os mercados públicos, museus e bairros fora do circuito turístico das cidades que visito. É uma forma de conhecer melhor a cultura e jeito de ser dos nativos. Nessa recente viagem que fiz à Argentina, não foi diferente. Tirei um bom tempo para ver coisas do gênero e, como sempre, com bom proveito.
Destaco, para inicio de conversa, minha visita ao Mercado de San Telmo, na parte histórica da cidade. É muito interessante ver a gente comum escolhendo e pesando carnes e pescados, frutas, verduras e legumes conhecidos ou outros desconhecidas pelas nossas bandas. O que é isto? Como se chama e como se come? Que gosto tem? Que fruto é este? É doce ou azedo? São perguntas que provocam uma conversa maior e, desse modo, fico sabendo mais dessa gente que sempre admiro. Não demora muita e eclode um papo, de modo geral com queixas sobre as crises, o governo e a carestia. É engraçado, porque os temas mudam apenas de endereço. Não raro surgem os que manifestam admiração ao Brasil. Penso que, às vezes, por amabilidade e outras por real convicção. “A Argentina será mais bem sucedida na hora que se dedicar à produção agropecuária e deixar o setor industrial a cargo do Brasil”, ouvi de um deles. Na opinião desse argentino, a indústria local está quebrada e não se deu conta. Não sei não... Acho que seja um exagero. De todo modo, vou acompanhar e conferir.
Mas, sensacional mesmo, no Mercado de San Telmo, foi visitar a área de antiguidades. Fui atraído, por exemplo, por um serviço para servir caviar. Coisa relativamente nova mas, interessante. Não me lembro de haver visto algum antes. Como caviar com torradas, como entorno de algum petisco ou prato. Em conchas e colheradas nunca provei. Tenho prá mim que deve ser meio enjoado. Coisa para nórdicos europeus ou russos. De origem alemã, o tal serviço estava exposto à venda. Não indaguei o preço, mas fotografei para publicar neste blog. Vide foto a seguir. A profusão de antiguidades e velharias, também, é de encher os olhos para quem gosta e cata essas coisas, como é o meu caso. Valeu a visita àquele Mercado. Outra visita importante foi a que fizemos – eu e meus familiares – ao Museu de Arte Latino-Americano de Buenos Aires – MALBA. Localizado no elegante bairro de Palermo, cercado de palácios e mansões suntuosas do inicio do século passado e parques bem tratados, tem linhas de arquitetura contemporânea e uma estrutura funcional confortável e despojada, facilitando aos que o visitam.
Atualmente, Andy Warhol, o excêntrico Mr. America, tem seus trabalhos expostos atraindo uma multidão. Filas constantes e muito “trânsito” nas galerias. Como não faz muito meu gênero minha passagem, nessa sessão, foi mais rápida. Ao contrário disto, me detive muito mais nas galerias do acervo da Casa. Parei e contemplei os quadros de Frida Kalo e seu Diego Rivera, dos brasileiros de Di Cavalcanti, Portinari, Cícero Dias e contemplei devagar a tela Abaporu, da brasileira Tarsila do Amaral, uma jóia de 1928, preservada em vitrine blindada. Vide foto ao lado. Um dos meus favoritos artistas latino-americanos, o colombiano Botero, está, também, presente no Malba com suas costumeiras figuras humanas super arredondadas e que fazem tanto sucesso mundo afora. Magnífico. Visitar o MALBA é programa obrigatório em Buenos Aires.
Mas, nessa do meu carpe diem (aproveitar o momento) porteño, algo me chamou a atenção: o culto ao tango. É impressionante como o argentino preserva e difunde seu tradicional ritmo, com amor e paixão, eu diria. É quase uma “religião”. Velhos e jovens se entregam a essa paixão, resultando em exibições em plena rua ou parque, atraindo multidões no entorno. Dançado, cantado ou executado ao som de um bandoneón, haja tango por todos os lados. Não deixe de ver o filminho que fiz, no final da postagem! Conversando com um jovem argentino (meu sobrinho de coração) soube que o jovem que sabe “bailar el tango” faz o maior sucesso e, inclusive, facilita suas conquistas amorosas. Por isso, não são raros os salões e casas noturnas dedicadas ao ritmo e freqüentadas por jovens. Achei o máximo, esse envolvimento das novas gerações, porque é a melhor forma de preservar a cultura. Tem escolas de tango espalhadas pela cidade inteira. Aí, meu lamento: onde encontrar uma escola de frevo no Recife? Lembro, apenas, de uma rara na Avenida Norte e, que tenho prá mim, vive aos “trancos e barrancos” e sem adeptos. Pobre da nossa cultura.
NOTA: Foto e video do Blogueiro

Supremo Desalento

Acordei cedo neste 15 de setembro de 2026, alimentado uma das maiores esperanças dos últimos tempos para meu Brasil: a sessão extraordinári...