terça-feira, 26 de junho de 2012

Ching-Ling no Brejo

A cidade do Brejo da Madre de Deus, no Agreste de Pernambuco, é uma cidade antiga, com registros de mais de 250 anos e berço de muitas famílias ilustres, incluindo barões e senhores poderosos na política imperial e republicana do estado. Tem um conjunto arquitetônico colonial de muita beleza e, mais ou menos, conservado. (Foto acima). Nos seus arredores ainda são encontrados remanescentes dos batavos, que após a chamada Restauração Pernambucana, no século 17, procuraram se refugiar, por falta de recursos financeiros e logísticos. Nunca voltaram para a Holanda e se radicaram naqueles confins do passado. Terminaram se misturando com os nativos e exercendo uma grande influencia no biótipo local. São muitos os atuais habitantes da região que denunciam – com a pele claríssima e sardenta, além de olhos bem azuis – essa mistura de raças.
Ando sempre por essas bandas, devido aos meus laços ancestrais, pelo lado materno. Como se diz atualmente, curto muito circular pela cidade e, particularmente, pela Feira livre que acontece ali a cada Sábado da graça de Deus. Não preciso dizer que dia de feira no interior é dia de festa. E eu gosto, que me enrosco, de uma festa
Sábado passado – aproveitando a ida para os festejos de São João, na roça – não perdi a chance de dar meu passeio pelo Brejo. Fui em caravana com a família. Em vários carros saímos de Fazenda Nova (mais ou menos 20Km. de distancia), estacionamos nos arredores e nos espalhamos no meio do povão, em pleno burburinho das compras e vendas. Chegamos bem na hora do pico.
Mesmo com o passar dos tempos, o cotidiano interiorano é tão divertido, como no passado. É fácil observar que as meninas assanhadas e as vitalinas encalhadas, de hoje, se comportam com as mesmas manhas e cavilações do passado, um pouco mais ousadas, talvez. Vão pra rua, enfeitadas dos pés à cabeça e beiços pintados de carmim, para catar namorados. Fingem que vão às compras, mas, o foco é outro. Os mancebos, que não se fazem de rogados, deitam e rolam no terreiro. Tudo estrategicamente pensado. Uma disputa sem fim... Antigamente, eles chegavam a cavalo. Quanto mais belo o alazão mais predicados o cara reunia. Hoje, o cavalo é de aço. São motos potentes, enfeitadas, brilhantes e barulhentas, com uma garupa disponível para aboletar a penitente escolhida. Interior, ontem ou hoje, é sempre uma graça.
Como a modernidade tem sempre um apelo muito forte, os brejenses não deixam passar nada. Afe Maria! Jamais! Por exemplo: ao invés de pano, vendido em peças de três a cinco metros, no meio da feira, que seria levado à uma costureira e transformado num vestido de festa, a freguesa atual encontra o vestido prontinho na hora, sem trabalho de procurar modelo num figurino, muitas vezes desatualizado, ou discutir o preço do feitio. Agora, ela escolhe um modelo exposto numa banca da feira, prova – tem provador improvisado com criatividade e prático (vide foto abaixo ) agarrado à bancada de venda – e pronto. Nessas condições, dando no corpo e no preço, o negócio é fechado. E ainda pode rolar uma barganhazinha, coisa comum no interior. Ah! Como Brejo da Madre de Deus fica próximo ao Polo de Confecções de Santa Cruz do Capibaribe/Caruaru/Toritama, os últimos lançamentos da moda estão ao alcance das brejenses e em primeira mão, segundo D. Graciete (nome fictício), uma vendedora local. “Ôxente moço, tá brincando? São modelos tirados das novelas da Globo! Última moda, visse?”. Sem dúvidas, uma senhora vantagem.
Mas, não somente as meninas dispõem de “boutiques” da moda, na feira do Brejo. Os marmanjos compram calças jeans cheias de rasgões e emendas indisfarçáveis - que é moda -, bordados exóticos, botões metálicos e adereços de gostos duvidosos. Para completar, levam também uma camiseta de malha preta com uma caveira, em paetê, aplicada, sabendo que aquilo é o must do momento... Dali, saem direto pro forró das noites juninas, esbanjando charme e safadeza para as clientes de D. Graciete. Êita vidinha simples e gostosa!
Agora, tem uma coisa nova e o que mais me impressionou, na feira de sábado, foi o local destinado aos importados. É inacreditável. Uma invasão de produtos ching-lings. A matutada se aglomera ao redor das bancadas, da feira, que se apresentam empestadas de relógios, rádios, aparelhos de som, telefones celulares, brinquedos, produtos de informática, utensílios domésticos, chapinha de alisar cabelos, ferramentas, cutelaria, calculadoras, filmadoras, entre outros inúmeros itens. Tudo Made in China e a preço de banana. Vendem a rodo, como acontece na Rua 25 de Março, em São Paulo.
Diante daquele quadro, que, certamente, se repete nos mais distantes grotões brasileiros, “sacolejei meus miolos” e cai na real: senti que estamos perdidos com essa concorrência desleal. Meus amigos da Abimaq – Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos, com sede em São Paulo, que denunciam a desindustrialização do Brasil, precisavam ver aquilo.
É um Brejo dos tempos modernos! A matutada (será que ainda existem matutos?) dá o maior valor e volta pra casa com a bolsa cheia de modernidades importadas. Ponto para a competência chinesa! Que jeito? ching-ling nos brejenses.
NOTA: Fotos dos arquivos do Google (1) e da autoria do Blogueiro (2).

11 comentários:

Liliana Falangola disse...

Girley
O meu Vovô brasileiro era do interior de Pernambuco, de uma cidade onde ele chegou a ser Prefeito.
A família era muito branca e a maior parte de olhos azuis.
O nome dele era Aurino Correia Lima, mas o chamavam de Seu Leite, por conta da cor da sua pele.
O nosso Vovô Leite era o pai de Mamãe.
Achei ótimo o seu passeio pelo "Brejo". Lendo, parecia que eu estava por lá também.
Um abraço,
Liliana Falangola

Francy e Carlos Guttierrez disse...

Lendo o teu relato sobre Brejo da Madre Deus, me recordo do meu Brejo dos Anapurús, que agora é apenas BREJO, no Maranhão... as bancas da feira cheia de roupa já prontas e muitas, mas muitas bancas de produtos importados: chineses.
abs, diretamente do Algarve em Porugal.
Francy e Caralos Guttierrez.

Lucila Nastassia disse...

Girley,
Adorei o artigo!! Sou sertaneja, da cidade de Floresta do Navio. Você deve conhecer... Morei, até os meus 11 anos, em Salgueiro, e sempre que posso, nas festas de São João e de fim de ano, passo alguns dias curtindo o estilo de vida da população local e como eu gosto!! Faz 3 anos que não vou a Floresta e lendo seu artigo bateu uma saudade danada da cidade e da feira em dias de sábado... É uma beleza!! Quando voltar à minha terra, no final do ano, vou ver de perto se os florestanos também já estão aderindo aos xing lings, como os “modernosos” do Brejo!!
Grande abraço,
Lucila Nastassia.
ATT. Ah, o artigo vai para o nosso site (FECOMERCIO/PE) e as nossas redes sociais hoje.

Giovanni Scandura disse...

Meu querido Amigo, Girley: boa noite!

Por opção estou recifense! Sempre dou um sorriso quando leio ou ouço o nome 'BREJO DA MADRE DE DEUS'. Acho interessante nomes, como: Toritama, Caruaru, Garanhuns,
Cabrobó, Porto de Galinhas, Xexeu, Recife, Gravatá, Buique, Macaparama, São José da Coroa Grande, Camocim de São Felix, Tacaimbó, Quixabá, Afogados da Ingazeira,
Camaragibe, Águas Belas, Surubim, Tuparetama, Belo Jardim, Bodocó, Japaratinga, Sirinhaem, Camutanga, Timbauba, Paudalho, Jaboatão, Olinda. "Mas" o nome BREJO DA
MADRE DE DEUS é curioso e mágico, faz a gente gostar sem conhecer!! Depois dessa, mais uma vez brilhante, narrativa real, quero conhecer para gostar mais, desse povo
simples, autêntico, alegre e feliz. Acredite: antes de agosto, irei conhecer!!
Parabéns pelo que li!!
Abraços do Giovanni

Ah: Glória de Goitá, Calhetas, Gaibu, Toquinho, Araripina, Tabatinga, Pontas de Pedra, Carne de Vaca..
Giovanni Scandura

Bety Asfora disse...

Muito bom o texto!!! Me deu uma saudade danada do Brejo! Pense num lugar "arretado"!!!
E a feira livre então..... Saudades...
Enviada do Ipad.
Bety Asfora

Valéria Castro Costa disse...

Girley,

Bom dia!!
Muito gostoso este passeio ao Brejo da Madre de Deus! Eu adoro ir a feira observar as pessoas, comprar qualquer coisa barata sem remorso algum. Já comeu rapadura da feira? É uma delícia! Parabéns por mais uma viagem...Agradável ler seus textos. Obrigada e bom final de semana!!

Abraços,
Valéria Castro Jardelino da Costa

Ana Maria Menezes disse...

Girley,
Você se revelou muito bem quando disse "E eu gosto que me enrosco de uma festa". Isso é voce e por que não eu, também? Adoro festa e lugar animado, porque pra mim , quanto mais gente, barulho, confusão melhor. Sempre fui, digamos, urbana mas adoro uma feira de interior!. No que toca aos artigos chineses que voce se refere já está bem evidenciado que os mesmos não só estão entravando nossos produtos como também ludibriando nosso povo, porque "made in China" já está sendo entendido como artigo sem critério de qualidade. Por outro lado, a parafernália chinesa vendida em feira de interior de certa forma descaracterizou ate nossa cultura já que, ao meu ver, alí deveriam ser unicamente comercializados produtos "made" nos nossos Brejos. Ana Maria Menezes Recife

Anônimo disse...

Gosto muito da cidade de Brejo pelo clima e sempre que posso vou lá visitar uma amiga.
Pois é lendo seu artigo fico triste, pois isso não está acontecendo só em Brejo , mas por todo interior do Brasil que tem perdido sua identidade cultural , social por conta dessa globalização.

Fabhood disse...

é uma pena a perca das raízes pelo processo de globalização, mas como foi colocado no texto é uma concorrência desleal, sou professor de alunos da zona rural do município e percebo isso de forma mais clara.

Fabrício Pessoa

Fabhood disse...

Giovanni Scandura diz

... "Mas" o nome BREJO DA
MADRE DE DEUS é curioso e mágico, faz a gente gostar sem conhecer!!

Como filho de brejo, me emocionei com essa frase, tenho orgulho de minha terra e pode ter certeza que é um lugar mágico, quando vir a Brejo caro Giovanni Scandura faço questão de lhe mostrar o que brejo tem de bom, procure Fabrício filho de Miguelão!

Allan Souza disse...

Parabéns pelo texto, muito criativo. Moro aqui em Brejo da Madre de Deus e fico feliz em ver que muitas pessoas gostam da minha cidade. O Brejo é realmente uma cidade de muitas belezas.