
As estações de rádio do Brasil davam espaço e cantores famosos, como Caetano Veloso e Milton Nascimento, abriam fatias generosas dos seus shows para que La Negra se apresentasse ao publico brasileiro. A cada apresentação crescia sua legião de fans.
Perseguida pelos ditadores argentinos ela foi proibida, a partir de 1976, de cantar na sua própria terra e, com isto, preferiu se refugiar na Europa – Espanha e França principalmente – onde fez um sucesso ainda maior e sua fama correu o mundo.
Com a democratização da América Latina e, sobretudo, na Argentina, Mercedes Sosa retornou a sua terra natal e continuou sua trajetória artística.
Hoje, 25 de novembro de 2008, assisti a um grandioso show dessa Diva da música popular latino-americana, no Teatro Guararapes, do Recife. Estou em estado de graça.
Em cima dos seus 72 anos, a mulher soltou a voz, tão firme quanto há 35 anos, encantando uma platéia comovida pelas músicas e poemas por ela interpretados.
Numa entrada triunfal, foi recebida de pé e aplaudida por longos minutos.
Daí em diante, foi quase duas horas de um repertório que mesclou antigos e novos sucessos. Ao interpretar Gracias a La Vida e Volver a los 17, dois dos seus grandes sucessos dos anos 70, a mulher galvanizou o publico. Vi gente enxugando as lágrimas.
Com razão. São musicas que remetem a um tempo político difícil, no qual somente as composições musicais de artistas de vanguarda e engajados nos movimentos pró-democracia encantavam a juventude da época, que são os maduros de hoje e que compunham a platéia desta noite. Foram sambas (a la argentina), chacareiras e outros gêneros musicais da nação irmã, num desfilar de interminável sucesso.
Mas, não foram apenas as musicas argentinas que arrancaram os aplausos no Guararapes. Composições musicais brasileiras, entre as quais Coração Vagabundo, Insensatez e Coração de Estudante, além de emocionar os tupiniquins presentes, revelou uma argentina amante da Terra Brasilis. E ela, sem se fazer de rogada, respondeu com um sonoro “Muito Obrigado”. Nem preciso dizer qual foi o clima que se instalou.
La Negra está pesando além do normal. Imagino que, cento e bote força. Anda com dificuldades. Sempre ajudada. Já não faz as evoluções coreográficas do passado. Não dança, por exemplo, uma Chacareira. Apenas mexe, graciosamente, com os braços. Canta sentada e, como sempre, envolta em muitos panos. Na verdade um imenso poncho. Uma iluminação especial e em permanente movimento, substitui a coreografia da artista do passado.

Ainda assim e, não obstante, a relativa paralisia, Mercedes Sosa resolveu pedir ajuda, pôs-se de pé e ensaiou algumas evoluções, cantando “Maria! Maria!”, composição de Milton Nascimento, para encerrar o show desta noite. Foi o ápice dessa apresentação inesquecível. Ninguém conseguiu ficar sentado. Algo em torno de mil pessoas, de pé, cantou junto com ela. Foi, eu diria, apoteótico. E, sinceramente, com forte tom de despedida.
Viva La Negra! Como Mama África – sobre a qual falei recentemente – uma Voz da Liberdade, neste caso, da América Latina.
Nota: Fotos obtidas no Google Imagens