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Rua do Bom Jesus, uma das mais bonitas do Mundo |
Os
pernambucanos festejaram com entusiasmo, nos dias recentes, o fato de haver
sido a Rua do Bom Jesus, no Recife Antigo, eleita a terceira rua mais bonita do
mundo, entre 31 listadas, segundo a última edição da norte-americana Architectural
Digest. Clique em: (
http://www.architeturaldigest.com/
gallery/most-beautiful-streets-in-the-world).
Mais
do que isto: foi a única rua brasileira incluída nesse rol. Naturalmente que se
trata de uma escolha respeitável, resultante de um trabalho de equipe composta
por profissionais abalizados e do ramo ligado às artes, patrimônio histórico e
arquitetura. Não tenho dúvidas de que foi uma escolha acertada. Nossa rua, restaurada inteligentemente pelo Prefeito Jarbas Vasconcelos (década de 90) além
de contar a história do Recife é um primor de preservação. Outras ruas
brasileiras tão bonitas quanto a nossa Bom Jesus estão espalhadas pelo país.
Mas, em tempos que grassam mentes atendando contra os patrimônios históricos
temos, então, um motivo oportuno de comemoração. Entendo, por outro lado, que
outras ruas brasileiras e estrangeiras estão habilitadas à inclusão numa lista
desse gênero, mas, como a nossa foi notada, festejemos pois.
A propósito
do tema, confesso que sinto pontadas de revolta quando vejo iniciativas de
demolição, reformas e “modernização” de prédios seculares pelo Brasil afora.
Raros são casos de restauração que é sempre desejado. E é bem mais comum do que se
pensa. Aqui em Pernambuco acontece frequentemente. Ali mesmo, próximo a rua do
Bom Jesus, no Marco Zero da cidade, existe um prédio, pertencente a um grande
Grupo Empresarial, que foi “modernizado” e descaracterizado de modo estúpido
quebrando a harmonia neoclássica da grande Praça. Era de beleza pouco comum e
se transformou num monstrengo envidraçado que choca o cenário histórico. Aliás,
a própria Praça do Marco Zero foi “modernizada” na passagem do século passado
que, a meu ver, foi outro erro imperdoável. No mesmo bairro, outro prédio foi
“enjaulado” numa barreira de cobogós na
cor brick no intuito de esconder as linhas arquitetônicas originais. Seus
proprietários quiseram dar o toque de modernidade. Resultou noutro monstrengo. Esse
porém foi corrigido pelo Instituto do Patrimônio Histórico do Estado, que numa sábia
decisão determinou a retirada dos cobogós e o prédio ressurgiu com sua antiga
beleza. Lamentavelmente, no interior do Brasil loucas ideias surgem, também,
com frequência. Casas e sobrados seculares são muitas vezes “remodeladas” e ressurgem com fachadas horrendas, quase sempre em azulejos ou peças de cerâmica de
gostos duvidosos, em substituição aos traçados originais sempre mais
elaborados. Os proprietários ignaros se enchem de orgulho com esses feitos, quase sempre à revelia dos administradores públicos e profissionais competentes.
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Prédio modernizado, a esquerda da foto, destoando do cenário do Marco Zero do Recife. |
Curioso é
que, infelizmente, não se trata de um desvio de visão histórica reservada aos
brasileiros. É uma coisa que se reproduz no mundo inteiro. Mesmo na Europa,
onde há um especial cuidado com o patrimônio histórico, registram-se casos
dessa infeliz natureza. Um exemplo
recentíssimo de desprezo à preservação do patrimônio histórico foi o que tomei
conhecimento lendo matéria assinada por Jon Henley, correspondente do Jornal The Guardian
(Londres) na edição de Sexta-Feira passada (10.07.20). Refiro-me a uma discussão acirrada que tomou conta das autoridades e sociedade francesas quanto à restauração da torre
e do teto da Catedral de Notre Dame, consumida por um brutal incêndio, no dia
15 de Abril do ano passado. Imaginem que o próprio Presidente francês, Emmanuel
Macrón, teve a infeliz coragem de sugerir uma mudança radical no formato da torre
e do teto do templo. Com traços modernosos!
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Esboço da infeliz ideia de Macrón para a Notre Dame. |
A ideia era construir uma torre, em vidro, incluindo um jardim suspenso. E acrescentou:
“vamos reconstruir a Notre Dame mais bela que antes”. Ora, meu Deus, trata-se
de uma construção icônica, símbolo de Paris, construída no Século 12! Interpretei
como sendo um surto de vaidade e ignorância. Penso que desejou entrar na
História como um modernizador. Com todo respeito, como
qualificar tamanha burrice?
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Outra imagem do sonho de Macrón |
Obviamente que gerou um duro debate envolvendo
historiadores, arquitetos e especialistas, à frente Philippe Villeneuve, chefe
da Comissão de Arquitetura e Patrimônio Nacional Francês. Caíram em cima do
vaidoso presidente e derrubaram a monstruosa ideia. Para alivio dos que
preservam o patrimônio histórico, o traçado original será mantido. Bom saber que existe verba
– pública e de doações – para tocar o projeto que deve ser entregue em 2024,
quando dos Jogos Olímpicos de Paris. Encerro lembrando que quem não
preserva sua História vive sem identidade..
Notas: As fotos do Recife foram obtidas no Google Imagens e as fotos da Notre Dame de Paris são reproduções das que ilustraram a reportagem do The Guardian (Edição Eletrônica) de 10/07/2020.
8 comentários:
Assino em baixo. Depois conto de um projeto, para dar fim àquele monstrengo de vidro no Marco 0. Você vai achar graça. Abraços.
Que horror a ideia do presidente da França, tinha que ser ele mesmo 😡.
Excelente notícia! Parabéns pelo oportuno e bem elaborado texto.
Amigo Girley. Você é um esteta.
Parabéns Girley! Muito oportuna sua colocação! Até hoje não entendo, pq a "Ponte Giratória", foi burramente substituída por um monstrengo de concreto, e tantos outros absurdos cometidos, por tantos gestores públicos idiotas. Povo que não preserva seu passado, não tem futuro.
Bom dia, companheiro Girley!!! Concordo que não somos um povo especialmente preocupado com sua história e tb fico feliz com a premiação da Rua do Bom Jesus.
No momento, me preocupa a situação do Americano Batista. Mas, espero que os prédios sejam preservados ��para que a história daquele Educandário não se perca.
Preciso conhecer e viver melhor o Recife.
Achei maravilhoso!
O Recife antigo e a Rua do Bom Jesus , são lindos...
Mais bonito ainda... na época do Governador Jarbas. As pessoas se arrumavam para passear na Bom Jesus, seus bares e restaurantes, sempre lotados. Era um novo Recife, que mataram.
Uma pena!
Que saudade!
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