sábado, 30 de novembro de 2013

Breque Fradei

“Rapaz, o que foi que aconteceu aí dentro?” perguntei assustado ao vigilante na entrada do estacionamento de um Supermercado, aqui no Recife. A resposta:“E num é o breque fradei, Dotô. Tá todo mundo correno para comprar. Eu sube que tá tudo pela metade dos preço.” Fiquei pasmo diante do quadro. Essa loja é grande, do tipo hipercenter. O movimento era impressionante. Diferente de qualquer outra ocasião. Costumo ir a uma agencia bancária dentro da área desse supermercado, mas, nunca havia visto aquela invasão de clientes. A princípio, pensei que houvera um assalto ou qualquer outro tipo de movimento que não o normal de uma loja daquelas.  
Fui ao Banco, depois de sofrer para encontrar um estacionamento para meu carro. Dentro e fora do Banco não me saiu da cabeça a tal expressão do “breque fradei” daquele vigilante da entrada. Vigilante nordestino, homem comum, que mal sabe se expressar em seu idioma nativo, tendo que explicar um acontecimento, em inglês! Como diz a canção popular “o que dá prá rir, dá prá chorar”, pensei com meus botões. Lá dentro um povo ensandecido a pegar e largar mercadorias, procurando entrar numa das imensas filas dos caixas, meninos chorando, idosos procurando seus direitos e no cenário geral milhares de balões de ar, caindo do teto, na cor preta! Parecia uma cena de filme que retrata um fim de mundo. Sai de mansinho, com pena dos penitentes clientes.
Vejam vocês... os americanos inventam de tudo para atrair o  consumidor. Criaram esse expediente do Black Friday, acho eu, para limpar as prateleiras de seus estabelecimentos comerciais e reabastecê-los para as vendas do Natal. Conversando com um conhecido meu, norte-americano, a respeito disso perguntei:“Prá que isso, Cara?” Para instigar, fiz ver que nos Estados Unidos essa estratégia poderia ser perfeitamente dispensada já que num “Império do Consumo” – como costumo classificar aquele de lá – geralmente não sobra nada, em qualquer época do ano. Ele me respondeu com uma longa teoria de marketing, garantindo no final que o lema é: quanto mais se vender, melhor. Ele acredita, veja só, que se houvesse uma Black Friday a cada mês, a loucura das vendas se repetiria igualmente a que ocorre de ano em ano.  Acrescentou sua explicação me dizendo que o esquema dessa sexta-feira anual atrai, além dos nativos, compradores de vários lugares do mundo, inclusive e principalmente os latino-americanos que vivem próximo e facilmente se deslocam para cidades como Nova York ou Miami, onde gastam suas economias. Esperam o ano inteiro por essa oportunidade.
O que mais me impressiona, contudo, é o fato de que no Brasil se imite os Estados Unidos de forma ridícula, inclusive, ao adotar o termo em inglês. Francamente... Entendo que num mundo globalizado possa naturalmente ocorrer a prevalência de um determinado idioma para que as comunicações e negócios se processem a contento. Mas, como se explicar uma denominação em inglês para uma campanha para incrementar vendas dentro do mercado nacional? A mesma coisa se pergunta para esses programas de TV, importados é verdade, como Voici Brazil e Big Brother Brazil, entre outros. Tenha dó.
Tem um detalhe pior, a registrar: a farta propaganda de vendas abaixo do preço e descontos arrebatadores, no caso brasileiro, não têm passado de propagandas enganosas, tanto nas lojas físicas, quanto nas virtuais. O que mais ocorreu no dia de ontem foi que o Black Friday, no Brasil, virou uma tremenda fraude. Maquiaram os preços de maneira acintosa. Brasileiro é fogo... Não entendi aquele alvoroço no Supermercado. Será que aquela gente não percebeu o embuste? Ou foi um impulso do consumo coletivo, turbinado pelo pagamento do 13º? Ao verificarem as fraudes, internautas criaram, de logo, uma expressão que “bombou” nas redes sociais: “Tudo pela metade do dobro”. Nem precisa explicar. Vide Charge acima.
No fim do dia os lojistas declararam que o movimento foi abaixo das expectativas e que carrinhos carregados foram abandonados. A operação foi tão decepcionante que muitos lojistas prolongaram suas campanhas pelo sábado e o domingo. Ou seja, um Black Weekend. Jeitinho brasileiro acionado.

NOTA: Charge encontrada no Google Imagens

6 comentários:

Regina Dubeux disse...

Ahahahahaha!!! Outro breque, o uiquend. Desse vírus estou livre: Nunca fui consumista, amigo Girley. Portanto, essas sextas feiras e semanas de desconto pela metade do dobro não me pegam. Fui mais ler meu livro "Van Gogh - A vida", a biografia definitiva para as próximas décadas, no dizer de Léo Jansen, curador do Museu Van Gogh. Ah, os autores: Steven Naifeh e Gregory White Smith, que realizaram uma pesquisa primorosa e exaustiva na vida e contexto existencial-psicológiso-social do artista, seus pais, parentes e antepassados, adentrando-se até pelos séculos XIV e XIII. Cia. das Letras, 1095 páginas. Imperdível.

Alberto Bittencourt disse...

É isso aí, caro amigo Girley. No Brasil a promoção virou Black Fraude.
O diferencial americano é a capacidade de gerência criativa. Não tem limites. Eles inventaram os supermercados, Shopping Centers, marketing de rede, sistemas de franquias, fast food e tudo o que existe para incentivar o consumo. Nós que não temos norrau ficamos imitando.
Parabéns pelo artigo, muito bem colocado.
Abraços
Alberto Bittencourt

Lis disse...

Excelente artigo, Girley. As pessoas compraram "Tudo pela metade do dobro", mas o e-commerce brasileiro dobrou o faturamento do ano passado. Realmente o povo que foi as compras na Black Friday não tem a exata noção de como funciona essa promoção.


http://g1.globo.com/economia/noticia/2013/11/lojas-do-black-friday-ja-dobraram-em-2013-o-faturamento-de-2012.html

Cristina Henriques disse...

Girley
Faço minhas as palavras de Alberto.Por que copiam já desvirtuando?
"Eh Ô...ô...vida de gado,povo marcado ê..."

Unknown disse...

muito bom o artigo Dr.Girley , eu estive neste lugar que você descreveu, parecia o fim do mundo rsrsrsrs.
tem mais faltou luz várias vezes na madrugada , e foi um Deus nos acuda rsrsrs.
boa noite Dr.Girley

Ricardo Lucena disse...

verdadeiramente foi uma loucura este dia , estive lá e quase fico preso,porque os guardas não queriam que ninguém saíssem da loja .....olha foi uma guerra.