sábado, 14 de dezembro de 2013

Madiba

A semana que termina foi marcada pelas homenagens e cerimônias fúnebres de Nelson Mandela. O mundo inteiro postou-se diante da TV para acompanhar os acontecimentos na África do Sul. Além da noticia em si e das imagens geradas desde Johanesburgo, não há dúvidas de que os sul-africanos transformaram a morte do líder negro num espetáculo midiático sem precedentes. O funeral de João Paulo II foi grandioso é verdade, mas, o que vimos em Soweto foi algo diferente e num estilo inusitado. Aquele povo dançando e cantando nas ruas e no estádio Soccer City surpreendeu a muitos nos quatro cantos da Terra. Na prática, o que se viu foi um grande festejo. Foi assim que interpretei. Eles não festejavam a morte do herói contra o apartheid, mas sim, a vida que ele teve e dedicou ao seu povo. Tenho para mim que só sendo africano para proceder e entender desse modo.
Conheço a África do Sul. Estive lá por duas vezes. Na primeira o Mandela era Presidente e o avistei, a distancia, numa manhã de sábado quando circulando na Cidade do Cabo. Isto foi na segunda metade da década de noventa. Há dois anos estive outra vez por lá e Madiba – como era chamado pelo seu povo – estava seriamente enfermo e pairava no ar certa expectativa de óbito. Conversei com um motorista, guia de turismo local, que não escondeu sua admiração pelo herói moribundo. Era um cidadão negro, claro. Havia na sua voz um quê de emoção quando me deu uma ideia de como seriam as exéquias daquele homem que definhava e se despedia do mundo. Isso só veio ocorrer agora. Com mais de noventa anos, vividos na grande parte em momentos de agruras, Mandela desenhou uma imagem de homem diferenciado que o projetou no mundo inteiro como um batalhador e combatente de um regime perverso e desumano que aniquilava uma nação inteira. 80% dos sul-africanos são pessoas da raça negra. No topo da pirâmide social dos tempos de repressão, os brancos eram, então, minoria absoluta. Adotando a força militar e dominando a economia do país os africâneres – gente ali nascida, filhos de colonizadores europeus e pele branca – impuseram, desde cedo, um regime esmagador contra as etnias pré-existentes, entre as quais os Khoisan, Xhosa e Zulu.
O país foi descoberto por Bartolomeu Dias, navegador português, que em 1488 teve sua missão, à Índia, abortada quando esbarrou na Ilha de Robben, situada defronte da Cidade do Cabo. Foi nessa Ilha que Mandela viveu como prisioneiro durante longos anos. A Ilha se tornou ponto de apoio para abastecimento dos exploradores portugueses, ingleses, e holandeses. Os dois últimos, apesar de muitas disputas, falo de guerras, não arredaram os pés de lá nunca mais. Estão até hoje e mandam nos destinos econômicos do país, posando de “donos da bola”. Por trás de tudo, é obvio, o interesse pela exploração econômica como ponto de abastecimento, inicialmente, seguido de exploração agrícola-mercantil e, a partir da segunda metade do século 19, das riquezas minerais descobertas no subsolo do país. A abundância de ouro e diamantes encontrados atiçou de vez a ganância dos europeus.
Havia, na prática, uma estratégia bem montada para afastar os nativos das atividades, sendo mobilizados, apenas, como escravos. O regime segregador foi aprofundado no final da primeira metade do século passado, quando, em 1948, o regime do apartheid foi oficialmente instituído. Foi nesse cenário que surgiu a figura do herói Mandela. Já formado em Direito e à frente do primeiro escritório de advogado negro do país, logo cedo descobriu que a justiça era sistematicamente favorável aos brancos. Entrou na política se inscrevendo na ala jovem do partido do Congresso Nacional Africano – CNA. Nele se projetou e liderou campanhas e movimentos contra o regime. Considerado terrorista, foi julgado de forma espúria e levado para prisão perpétua, naquela ilha Robben, onde Bartolomeu Dias aportou. Sua condição como prisioneiro foi das mais cruéis a ponto de ser proibido de assistir o funeral de um filho morto em acidente de carro e o da sua própria mãe. As insustentáveis pressões domésticas e internacionais, entretanto, levaram a que o Governo decidisse libertar Mandela em 1992, depois de 27 anos de cativeiro. Em liberdade, voltou à vida publica e se elegeu como primeiro presidente negro do país em 1994. Sua ambição, contudo, não era ser mandatário político, mas sim, um pacificador. Assim atuou estabelecendo a paz entre brancos e negros e instalando um regime democrático no seu país. Foi, com muita justiça, Premio Nobel da Paz em 1993. Muito antes de morrer já tinha uma praça com seu nome e uma estátua gigante. (vide foto abaixo do blogueiro diante da estátua)
A África do Sul atual é um país em desenvolvimento social e econômico. Impressiona qualquer  visitante. Notei diferenças significativas entre o que vi nas duas visitas que fiz. Mandela partiu para eternidade, mas, sua imagem e sua obra entraram para a história universal, como pai da Moderna Nação Sul-Africana.
Nos últimos dias, tenho lembrado muito do meu guia/motorista na última visita a Joanesburgo e da parada que fizemos diante da casa do líder. (Vide foto a seguir dele com minha esposa e meu filho)
 

4 comentários:

Restony Alencar disse...

Post oportuno amigo Girley, aqui somos um País miscigenado com grande quantidade de pardos e mulatos mas jamais podemos esquecer a forte contribuição cultural e étnica africana em nossa matriz. A África do Sul derrubou uma grande muro que envergonhava aquela nação. Restony de Alencar

Restony de Alencar disse...

Mas vale lembrar Mestre Girley, que o atual Presidente Jacob Zuma, herdeiro político de Mandela e membro do CNA, hoje responde diretamente por denúncias de favorecimento num País mergulhado na corrupção e baixa popularidade.
Restony de Alencar

Jussara Monteiro disse...

A morte de Mandela, que tocou a tantos e em todos cantos do mundo, já
demonstra sua força histórica. Nem mesmo doente, transmitiu fragilidade. Ao contrário, suas dificuldades
físicas na velhice, nos dava ainda sensação que tínhamos entre nós o guardião
da ética e superação. E sua morte, deixou em cada um de nós a responsabilidade
de manter acesa essa chama. É necessário, lembrar
que o poder não o modificou. Entre tantas lições de Mandela, essa é
a mais importante prá mim.
E nunca é pouco falar dele. Repetir Mandela
é um exercício que nos faz querer alcançar alguma generosidade.

Jussara Monteiro

joe disse...

Caro Girley
Tive forte emoção quando visitei a casa de Mandela em Soweto. A história dele é grandiosa.Ter conseguido a transformação da África do Sul em uma real democracia de forma pacífica é um feito extraordinário.
Em Soweto, na mesma rua, tem a casa de Desmond Tutu e os Sul Africanos afirmam com muito orgulho que é a única rua do mundo onde moraram dois prêmios Nobel da Paz.
Um abraço Joe