sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Estação Ponte d´UChoa

Vejam que história interessante: em 1865 foi instalada no Recife a Empresa de Trilhos Aros Urbanos, proporcionando à cidade um moderno sistema de transporte urbano com bondes. Os chamados de maxobambas, naquela época. Esta denominação foi derivado do inglês, machine pump. Era um veículo de transporte de passageiros constituído de uma pequena locomotiva, cuja cabine não tinha coberta e puxava dois ou três vagões. Podia ter dois andares. (Vide foto a seguir).

Foi uma novidade enorme e se constituiu no primeiro sistema de transporte sobre trilhos nas cidades brasileiras, entre as quais o Recife. Várias estações foram construídas, em pontos estratégicos da cidade, conforme naturalmente a atender as necessidades da população. Uma deles foi a de Ponte d´Uchoa, na localidade de mesmo nome, situada entre os atuais bairros da Jaqueira e das Graças. Área nobilíssima da cidade. Em 1867, a empresa passou para o controle da Brazilian Street Railway – de origem inglesa – e a estação Ponte d´Uchoa foi junto. A maxobamba circulou pela cidade até 1915. Em 1916, outra companhia inglesa fundou no Recife a Pernambuco Tramways & Power Company, introduzindo o moderníssimo bonde elétrico no transporte urbano da cidade além da geração e distribuição de energia elétrica na cidade. Vide foto a seguir.
A Estação Ponte d´Uchoa continuou como importante ponto de parada para os passageiros. Isso durou até que o sistema de bondes foi suprimido e substituído por ônibus, final da primeira metade do século passado. Novamente a estação Ponte d´Uchoa serviu de parada dos coletivos, até 2003 quando foi deslocada para facilitar o trânsito local. Restou um belo ícone da história da cidade, admirado e querido por todos. Recordo que fiz ponto de paquera das alunas do Colégio das Damas Cristãs, lá em frente. Tombado e preservado como importante patrimônio histórico-cultural da cidade. Um cartão-postal. Vide foto a seguir. Outras estações certamente existiram, mas, nem vestígios nos dias de hoje.
Vejam, agora, que história triste: esta semana – quase 150 anos depois de construída – a estação Ponte d´Uchoa amanheceu destruída! A recifense foi tomado de triste surpresa. O tradicional cartão postal da cidade foi, praticamente, deletado, de hora para outra, por um imprudente motorista, filhinho mimado da mamãe, que encheu a cara numa farra noturna e no amanhecer, ao volante de um veiculo “desconduzido”, colidiu com a histórica estação, derrubando-a quase que totalmente. Acidentes acontecem, eu sei. Muitos de forma inexplicável. Mas, quando o motivo é o álcool na cuca, tenha paciência. E, quando toma como alvo da destruição um patrimônio histórico da cidade, pior. Não tem desculpas. Segundo o noticiário, o cara foi socorrido às pressas e se livrou do flagrante, inclusive, do teste de alcoolemia.
Não importa qual a explicação que seja dada. Inquirido pela policia, jurou que não havia bebido! Dormiu ao volante? Quem sabe? Seja lá como tenha sido, o que importa é que a história da cidade foi borrada. Num lugar onde a preservação do patrimônio histórico é, muitas vezes, relegado a último plano, um episódio desses é lamentável. Fala-se na recuperação da estação. Espero que o mais rápido possível e que o autor do desastre será responsabilizado pelo custo da restauração. Tem que ser assim, para servir de exemplo. Sem pena nem concessões apadrinhadas. O contribuinte não deve pagar por esse abuso. É de se esperar que a coisa não se perca nos meandros da burocracia dos poderes constituídos e a estação corra o risco de  cair no esquecimento, como tantos outros monumentos da secular cidade foram destruídos propositalmente ou por conta do abandono.
Ocorre-me uma ideia: colocar na estação Ponte d´Uchoa – quando recuperada, claro – um posto permanente de controle da Lei Seca. Quero ver bebum nenhum se atrever passar por ali.
Ah! Antes de terminar, mais um pouco de história: andei conversando com o Professor Google e ele, que sabe de tuuuuudo, me explicou que “o nome Ponte d´Uchoa está relacionado ao Senhor de Engenho Antonio Borges Uchôa, do Engenho da Torre, que viveu no século XVII. Após a expulsão dos holandeses em 1654, para permitir acesso à outra margem do rio Capibaribe, onde moravam parentes seus, ele construiu uma ponte, que ficou conhecida como Ponte d´Uchoa, e assim ficou denominada a área adjacente à outra margem do rio que fazia ligação por ponte da sua propriedade”. Desconfio que seja a atual Ponte da Torre.

NOTA: As fotos foram obtidas no Google Imagens


14 comentários:

Regina Dubeux disse...

Só mesmo sendo um bebum dos bem bêbados para meter o carro num belo e tradicional ícone da cidade do Recife, como esse. Porque o local é perfeitamente transitável, não oferecendo possibilidades de risco algum de abalroamento, se o 'muleque' soubesse respeitar o patrimônio alheio. Tem que pagar, sim, a restauração, total, do patrimônio público. E sofrer outras penalidades, como qualquer cidadão sofreria, caso estivesse no lugar dele. O indigitado filho da mamãe e da papai podia até não estar bêbado, mas que estava drogado, sem dúvida. Droga-droga ou droga-álcool, o órgão mais sensível do tipo e da família dele, o bolso, deve ser mobilizado. Foi dolo. Se não teve a intenção explícita de destruir a estação, assumiu o risco de fazê-lo.

BLOG FREI CANECA disse...

Concordo com a Sra. Regina Dubeux. Além das demais penalidades cabíveis, tem que pagar a restauração. Sorte que não tivemos vitimas!

Celina Ribeiro Hutzler disse...

AMEI sua nota sobre Ponte d’Uchoa.

E aprendi a origem da palavra maxambomba q me intrigava toda vez que passo pelo Bar de Maxambomba em Olinda.

Celina Ribeiro Hutzler

Gulherme Jordão disse...

Caro Girley,

Embora concorde plenamente que se de e responsabilizar o "boyzinho" que destruiu a Ponte D'Uchoa, penso que caiba aqui chamar atenção para a permissividade que nossa cidade e nossa sociedade tem com esse tipo de conduta: a velocidade excessiva dos veículos automotores. Discute-se na imprensa se ele estava a mais de 100km/h ou a 80km/h, como ele alega. Trata-se de via urbana, cujo limite é de 40km/h, estabelecido em prol da segurança de todos (especialmente dos tantos estudantes das escolas próximas)! É simbólico que as coisas tenham ocorrido assim. Um "boyzinho da mamãe" de 30 anos, estudante de direito, bêbado num carrão, bate em alta velocidade e destrói o monumento voltando pra casa. Já vi isso acontecer tanto... Que a destruição do monumento possa servir de ponto de qlerta para a mudança cultural de que, não apenas a bebiba, mas velocidade mata pessoa e destrói o tecido urbano das cidades. Passou da hora de mudar isso!
Guilherme Athayde Jordão

Alice Souza Leão disse...

Olá Girley,
Muito bem escrito e excelente visão do ocorrido. Concordo com tudo que o inteligentíssimo amigo Girley Brazileiro, comentou. A mãe do irresponsável motorista, ainda disse na Tv que ninguém se preocupou com o filho dela, mas sim com o local destruído!!!! Ah, minha Sra., tenha santa paciência!!!!!"
Alice Souza Leão

João Cunha disse...


Muito bom, Girley

João Cunha

maria helena disse...

Girley é Cultura, Girley é sobretudo um restaurador da nossa História, significando as palavras que automaticamente usamos;isto nos faz bem, faz também, e ,sobretudo, um caminho pra que reflitamos sobre uma mãe que terá "o orgulho "de ter um filho que destruiu em algum dia ,algo que faz parte da História de uma cidade...É deste tipo de mãe que precisamos???
Destino funesto, já que estamos no dia de Finados...

Federico Schlamp disse...

Excelente prezado Girley.
Gostei muito da tua "aula".
Interesante historia e boas fotos.
Federico Schlamp

Gilka Nobre disse...

Caro Girley: mais uma vez brilhante, agora sobre a estação da Ponte d'Uchôa. Concordo integralmente. Uma pequena observação, só para talvez esclarecer: digo-lhe que se chama de "maxombomba", em Portugal, a um transporte lento, "ronceiro". E em Angola e Moçambique é o nome que se dá ao autocarro urbano. Em caso de dúvida, fico com essas definições do Dicionário da Universidade do Porto. Abraço, Gilka

Assis Bezerra disse...


Parabéns, Girley, por sua maravilhosa inspiração carinhosamente escrita sobre a Estação Ponte d'Uchoa, para mim uma Oração à Ponte D'uchôa, hoje morta, mas que acredito que será restaurada para voltar a ser um pedaço vivo do Recife que tanto admiramos. Um forte abraço - Assis Bezerra

Luiz Rodrigues disse...

..Muito boa materia, temos que preservar a historia de uma cidade. Faço aqui a crítica da minha cidade Paulista, que tem o jardim e a casa grande dos lundgrens sem conservação e nem acesso ao público. Deveriam abrir como museu para visitação pública aos jovens , estudantes e turistas a conhecer a historia da cidade. .mas é lamentável o estado em que se encontra , faz vergonha.......................Allooooooooo Autoridades.
Luiz Rodrigues

Paulo de Tasso Moraes e Souza disse...

Caro Girley,
Solidarizo-me com o seu protesto e com a sua justa indignação. Convido-o a também se revoltar contra a deslavada afronta à Constituição de 1988 que manda que os vetos presidenciais sejam votados no prazo de 30 dias e quase sempre não é respeitado com o Congresso, a opinião pública, a imprensa e os juristas se acomodando. Que país é este que não cumpre a sua própria Constituição ? Onde anda a nossa imprensa que se cala diante de tamanha aberração ? E o Poder Judiciário e o Poder Legislativo por que aceitam tamanha aberração que só beneficia o Poder Executivo ?
Paulo de Tasso

José Carlos Lucena disse...

Prezado primo Girley
Beleza de texto remontando um pouco da história desta linda cidade. Tristeza de texto mostrando uma realidade atual e cruel. Parabéns meu primo Girley Brazileiro.

Wilma Lucena Moura disse...

Concordo com a Maria Helena quando diz que "Girley é cultura".E foi inadmissível a IMPRUDÊNCIA, IRRESPONSABILIDADE, desse filhinho de papai!
Wilma Lucena Moura