domingo, 21 de outubro de 2012

Avenida Brasil

Impossível não comentar o recente fenômeno da teledramaturgia brasileira, Avenida Brasil, novela levada ao ar pela Rede Globo de televisão, durante mais de meio ano.
Pelo visto, algo de novo ocorreu com este folhetim global. Vi que a trama apresentada pelo jovem autor, João Emanuel Carneiro, trouxe novidades para o telespectador brasileiro. Como novidade, neste caso, é coisa sempre bem vinda, o sucesso foi gerado. Naturalmente que me refiro à novidade com qualidade.
Acho que o telespectador brasileiro já andava cansado das tramas com argumentos batidos e repetidos clichês e com contextos sociais que eram focados, quase sempre voltados à vida glamorosa da Classe A, nas grandes metrópoles nacionais. Quando não isto, eram os hábitos e costumes regionais, principalmente os nordestinos. Dessa vez o foco principal mudou para a classe suburbana e, neste caso, o da periferia carioca que, sempre retrata uma síntese da sociedade suburbana do país como um todo. De cenários em grandes salões e requintadas moradias, apareceu o de um lixão, chocando no primeiro momento. Fora isto, teve futebol e jogadores, cachaça, mesa de bilhar, pagode, retirante nordestina bem sucedida, alpinistas sociais, “marias chuteiras”, “periguetes”, finalmente, um mix de personagens bem comuns na vida de periferia e no meio do povão brasileiro que é, aliás, o grande público para os folhetins televisivos.
Além dessa novidade, o talento do autor levou a que, ao fechar a maioria dos episódios, houvesse sempre um estimulo ou suspense para que o espectador voltasse à frente da TV na noite seguinte. Foi bastante inteligente. Admirável como o cara soube criar situações inesperadas envolvendo alguns personagens, com mudanças bruscas de atitudes e comportamentos, tanto na trama central, quanto nas secundárias, capazes de surpreender o publico. Mais ainda: quando todo mundo achava que não havia mais nada a ser descoberto o noveleiro criava situações que prolongavam a história. Houve um momento que parecia não ter fim. Estratégia nova.
Perversidade e humanismo se misturaram de modo incrivelmente inédito, nesta novela. A personagem Carminha (Adriana Esteves) tanto representava uma megera, quanto repentinamente aparecia de mãe, esposa e dona de casa exemplar e, muitas vezes, foi vista pelo telespectador como vítima. E terminou assim! A Nina (Débora Falabela) foi outro personagem que confundiu o publico, oscilando, em vários momentos, entre mocinha vingativa, pela qual todos torciam, e vilã. O que dizer da Lucinda (Vera Holtz), acolhendo garotos abandonados no lixão? O Tufão (Murilo Benicio), coitado, um corno/pateta adorável e, ao mesmo tempo, irritante. O que dizer do excelente ator que é Marcos Caruso, no papel de Leleco? Incrível como um paulistano nascido no elegante Itaim Bibi, pode se transformar num autêntico suburbano carioca. E tantos outros. Belo elenco
E no apagar das luzes, quem diria que as maiores rivais – Carminha e Nina – terminariam selando a paz? Acho que, tramando essas situações, digamos que bem humanas, o autor cravou o sucesso que sustentou até o último instante.
O fato é que a novela terminou sendo um fenômeno de audiência. O último capítulo levado neste fim de semana (19-20/10/12) virou noticia no mundo inteiro. Uma coisa inacreditável. Não pude entender direito. Os grandes jornais do mundo inteiro terminaram por fazer referência a este fenômeno da televisão brasileira, tendo em vista a mobilização nacional para não perder a exibição do último capítulo. Foi tão mobilizador, quanto qualquer jogo do Brasil em Copa do Mundo. Estouro de audiência. Estou falando de veículos tipo Financial Times, Washington Post, Revista Forbes, The Guardian (este destacando, inclusive, que a presidente da Republica cancelou viagens e ajustou sua agenda para não perder esse capitulo final). Vide foto a seguir. Além
destes, uma infinidade de outros jornais na América Latina, Europa e até na remota Austrália noticiaram o fenômeno televisivo tupiniquim. Confesso que fico intrigado com esse flash da vida brasileira. Sim, porque isto não passa de um flash! Espocou e fim. Logo, logo o público já se envolve com outro folhetim, seja qual for a trama e o cenário e Avenida Brasil será somente uma grande artéria urbana do Rio de Janeiro.
Interessante que, mesmo muito antes desse final badalado, algumas coisas foram observadas no dia-a-dia dos brasileiros. Por exemplo, o figurino da personagem de Carminha ganhou o mundo e promoveu, por exemplo, uma super venda de uma bolsa de uma determinada grife (Michael Kors) nas lojas do ramo no Brasil e em outras praças do estrangeiro. Toda “dondoca” ou “patricinha” transformou em sonho de consumo possuir uma dessas bolsas. Em Nova York, o gerente da loja da grife preparou vendedoras para atender as brasileiras e, muito curioso, perguntou a uma repórter de TV “Who is Carminha?”. Este é o chamado poder da mídia. Mas, não foi somente a bolsa, o automóvel da marca contratada para o merchandising também virou moda nas endinheiradas. De Buenos Aires, um jovem teve a curiosidade de perguntar: “O que é Carminha?”. Uma graça.
Enquanto isso, fico aqui alimentando a esperança de que o Brasil se destaque mais noutras dimensões do cenário internacional. Não temos, por exemplo, um Prêmio Nobel! Onde estão nossos autores escritores ou cientistas?
NOTA: Foto obtida no Google Imagens.




8 comentários:

Corumbá disse...

Caro Girley:
Parabéns! Acabei entendendo um pouco o que houve com o país na sexta-feira. Valeu!

Luiz Augusto Perman disse...

Caro Girley,
Parabenizo pelo fechamento do seu blog, quando enaltece a esperança do país vir a ter melhoras em áreas outras. A mais carente e imediata, EDUCAÇÃO.
Diplomata nato, redator agradável, apresento meus agradecimentos em partilhar dos seus ensinamentos tão auspiciosos.
Luiz Augusto

José Artur disse...


Meu caríssimo amigo Girley,
Mais um texto arretado... Você soube que o Globocop filmou lá do céu a avenida paulista sem qualquer engarrafamento? E como você bem assinalou em seu Blog, até a imprensa mundial se reportou aos percalços da Avenida Brasil... onde trafeguei muito na década de 60 e vi o braço de um cara ser arrancado porque colocou para fora do fusquinha "para fazer sinal de dobrar à esquerda", Os ônibus em altíssima velocidade não poupavam ninguém...
José Artur Paes

Unknown disse...

Boa tarde Sr. Girley,
Sou Karla Melo, coordenadora editoria da Confraria do Vento.
Encontrei hoje um e-mail do Sr. na minha caixa postal. Não recorto outros, certamente, seja este o primeiro . Não importa, foi muito bem vindo.
Não assisto novelas, mas mesmo assim, não resisti, não fiquei imune ao grande apelo midiático para o tão esperado final da Avenida Brasil. Assisti ao último capítulo intrigada com o tal fenômeno que contagiou o meu país. Durante mais de seis meses, pensei ser a única brasileira a não ver, um só capítulo da tão festejada novela. Admito que o comentário constante por toda parte, desde o bom dia da minha secretária, que me chegava acompanhado pelo relato entusiasmado do drama da noite passado, enquanto me servia café, me irritava às vezes. O meu dia começava com a descrição das doidices de uma tal Carminha
Mas a minha intenção de comentários no seu blog agora, é verdadeiramente lhe cumprimentar com grande admiração pelo seu belo, lúcido e bem escrito artigo. Me fez entender melhor o comportamento social da minha gente, inclusive o meu. E do tanto que somos frágeis e vulneráveis ao instigar da média. Att. Karla Melo

Girley Brazileiro disse...

Pois é, Karla Melo. Eu tampouco sou ligado a assistir novelas. Não tenho tempo, nem natureza para acompanhar essas xaropadas. Mas, com o decorrer dessa Avenida Brasil fui levado a assistir alguns episódios. Quando perdia alguns, achava que não havia perdido nada. Mas, era engano. O autor era matreiro, mas do que eu imaginava.
Mas, o que mais chamou a atenção foi o encaminhamento para o final da trama, porque havia algo de novo e este novo era uma evolução dramatológica. Admiro mudanças.E por fim, tivemos um epilogo surpreendente com repercussões além fronteiras. Ora, eu tinha que me ligar. O resultado foi esta postagem.
Obrigado pela visita ao Blog do GB. Volte sempre. Se quiser mande seu email para que seja colocado no malling do Blog. Vc poderá gostar.
Girley Brazileiro

Angela Barreto disse...

PARABÉNS, GIRLEY!!!
SEU ARTIGO SOBRE A NOVELA "AVENIDA BRASIL" ESTÁ PERFEITO.;
COMO SEMPRE FAÇO, ESTOU REPASSANDO PARA OS MEUS AMIGOS INTERNAUTAS, COM MUITO PRAZER.
Angela Barreto

Cristina Rescigno disse...

Sinceramente,já assisti novelas mais interessantes.Infelizmente o nível de apreciação do brasileiro está cada dia mais frívolo e egocentrista. A trama tinha ótimos atores mas passou do timer.Se repetiu,esticou e o final achei decepcionante.Não acredito que um personagem com aquele perfil de personalidade e comportamento possa em tão pouco espaço de tempo ter uma crise de conciência e se arrepender ou submeter-se à justiça. Mais verídico seria ela pegar o aviaõ e dar um tiro no Pai.A Globo quando quer fazer alarde de algum programa, não perde tempo em divulgar seu intúito.Ou eu estou ficando muito crítica ou velha?Confesso que não é qualquer drama ou comédia que me enche os olhos.e esta sem dúvida para mim ficou a desejar.

Rosa Carneiro disse...

Prezado Girley
Bom domingo para você.
Parabens pela sua postagem no blog do GB, sobre a novela da Globo. Esta semana estive no Mundo Verde do Shopping Plaza, onde sempre vou à procura de chocolate sem lactose, e lembrei de você diante do diálogo que assisti entre uma vendedora e uma cliente que procurava uma imagem de São Jorge. A vendedora esclareceu que estava em falta e que todo o estoque havia se esgotado após o início da nova novela da Globo! Meu amigo... Tive muita vontade de rir, aliás, ri , mas só intimamente. Ou seria o caso de lamentar? Afinal temos que admitir o grande poder desse tipo de midia, não é? E que podia ser aproveitado para disseminar valores tão mais importantes como ecologia, ética, bondade, amor, etc.
Rosa Carneiro