
Ando sempre por essas bandas, devido aos meus laços ancestrais, pelo lado materno. Como se diz atualmente, curto muito circular pela cidade e, particularmente, pela Feira livre que acontece ali a cada Sábado da graça de Deus. Não preciso dizer que dia de feira no interior é dia de festa. E eu gosto, que me enrosco, de uma festa
Sábado passado – aproveitando a ida para os festejos de São João, na roça – não perdi a chance de dar meu passeio pelo Brejo. Fui em caravana com a família. Em vários carros saímos de Fazenda Nova (mais ou menos 20Km. de distancia), estacionamos nos arredores e nos espalhamos no meio do povão, em pleno burburinho das compras e vendas. Chegamos bem na hora do pico. Mesmo com o passar dos tempos, o cotidiano interiorano é tão divertido, como no passado. É fácil observar que as meninas assanhadas e as vitalinas encalhadas, de hoje, se comportam com as mesmas manhas e cavilações do passado, um pouco mais ousadas, talvez. Vão pra rua, enfeitadas dos pés à cabeça e beiços pintados de carmim, para catar namorados. Fingem que vão às compras, mas, o foco é outro. Os mancebos, que não se fazem de rogados, deitam e rolam no terreiro. Tudo estrategicamente pensado. Uma disputa sem fim... Antigamente, eles chegavam a cavalo. Quanto mais belo o alazão mais predicados o cara reunia. Hoje, o cavalo é de aço. São motos potentes, enfeitadas, brilhantes e barulhentas, com uma garupa disponível para aboletar a penitente escolhida. Interior, ontem ou hoje, é sempre uma graça.
Como a modernidade tem sempre um apelo muito forte, os brejenses não deixam passar nada. Afe Maria! Jamais! Por exemplo: ao invés de pano, vendido em peças de três a cinco metros, no meio da feira, que seria levado à uma costureira e transformado num vestido de festa, a freguesa atual encontra o vestido prontinho na hora, sem trabalho de procurar modelo num figurino, muitas vezes desatualizado, ou discutir o preço do feitio. Agora, ela escolhe um modelo exposto numa banca da feira, prova – tem provador improvisado com criatividade e prático (vide foto abaixo ) agarrado à bancada de venda – e pronto. Nessas condições, dando no corpo e no preço, o negócio é fechado. E ainda pode rolar uma barganhazinha, coisa comum no interior. Ah! Como Brejo da Madre de Deus fica próximo ao Polo de Confecções de Santa Cruz do Capibaribe/Caruaru/Toritama, os últimos lançamentos da moda estão ao alcance das brejenses e em primeira mão, segundo D. Graciete (nome fictício), uma vendedora local. “Ôxente moço, tá brincando? São modelos tirados das novelas da Globo! Última moda, visse?”. Sem dúvidas, uma senhora vantagem.
Mas, não somente as meninas dispõem de “boutiques” da moda, na feira do Brejo. Os marmanjos compram calças jeans cheias de rasgões e emendas indisfarçáveis - que é moda -, bordados exóticos, botões metálicos e adereços de gostos duvidosos. Para completar, levam também uma camiseta de malha preta com uma caveira, em paetê, aplicada, sabendo que aquilo é o must do momento... Dali, saem direto pro forró das noites juninas, esbanjando charme e safadeza para as clientes de D. Graciete. Êita vidinha simples e gostosa!
Agora, tem uma coisa nova e o que mais me impressionou, na feira de sábado, foi o local destinado aos importados. É inacreditável. Uma invasão de produtos ching-lings. A matutada se aglomera ao redor das bancadas, da feira, que se apresentam empestadas de relógios, rádios, aparelhos de som, telefones celulares, brinquedos, produtos de informática, utensílios domésticos, chapinha de alisar cabelos, ferramentas, cutelaria, calculadoras, filmadoras, entre outros inúmeros itens. Tudo Made in China e a preço de banana. Vendem a rodo, como acontece na Rua 25 de Março, em São Paulo. Diante daquele quadro, que, certamente, se repete nos mais distantes grotões brasileiros, “sacolejei meus miolos” e cai na real: senti que estamos perdidos com essa concorrência desleal. Meus amigos da Abimaq – Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos, com sede em São Paulo, que denunciam a desindustrialização do Brasil, precisavam ver aquilo.
É um Brejo dos tempos modernos! A matutada (será que ainda existem matutos?) dá o maior valor e volta pra casa com a bolsa cheia de modernidades importadas. Ponto para a competência chinesa! Que jeito? ching-ling nos brejenses.
NOTA: Fotos dos arquivos do Google (1) e da autoria do Blogueiro (2).