domingo, 30 de janeiro de 2011

Arrecife dos Navios

Raramente tenho ido ao velho Bairro do Recife, mais conhecido como Recife Antigo. Quando o faço, na maioria das vezes, é para ir direto à Livraria Cultura, que, na pratica, é um refugio dos que procuram qualidade, devido aos bons títulos de livros, vídeos e CDs de música.
Hoje, porém, (domingo 30.01.11) tocou-me caminhar por boa parte da região. Vi uma coisa interessante, que foi o CCC – Centro Cultural dos Correios, na minha visão, uma das exceções no todo do sitio. O restante é pontuado por uma serie de ruínas em irreversível abandono. Lamentável abandono, claro. Observando de relance, talvez não dê para notar e, se reforçado pela idéia de ser uma área antiga ou velha, como a própria denominação consagra, leva a que o transeunte releve e sequer note o estrago.
São raras as cidades do Brasil que contem com uma área tão rica, em termos arquitetônicos, como esta do Recife Antigo. Pena que, aos poucos, pode ser destruída, “graças” a inépcia (escassez de inteligência) e irresponsabilidade dos que governam a cidade.
Quando, hoje, vi e fotografei o abandono do Recife Antigo, lembrei-me dos cuidados e especial apreço com o passado – com a História – de outros países e cidades que visito mundo afora. Cidades como Pekim e Xangai, onde estive recentemente, dispensam o maior cuidado com as áreas históricas. Mesmo quando preocupados com a modernidade e com a busca do que há de melhor para atender as demandas contemporâneas, de conforto e boa qualidade de vida (foi tema central da Expo-2010 em Xangai), os chineses preservam seu patrimônio histórico, que são, na verdade, o melhor testemunho da sua cultura milenar. Aqui, não! O bairro do Recife marcou a origem da cidade, há mais de quatro séculos. Durante o Governo Holandês a região viveu um dos melhores momentos de progresso e se tornou uma das mais bem dotadas estruturas urbanas do Novo Mundo. Quando expulsos pelas forças conjuntas dos portugueses, índios e negros, os batavos deixaram para trás uma cidade bem traçada, organizada, saneada, com prédios até hoje de pé. A antiga Rua dos Judeus, hoje do Bom Jesus, é o retrato vivo dessa passagem.
No final do século 19, uma nova onda de atualização urbanística destruiu o casario colonial, ainda de pé, dando lugar a elegantes prédios em estilo, digamos, eclético como mandava o modelo francês daquele tempo, ocupados como residências e comércio. É o que existe ou resta nas atuais Avenidas Rio Branco e Marques de Olinda. O Recife foi crescendo e a zona em questão, que contava com o mais importante porto marítimo do Norte e Nordeste brasileiro, foi sendo abandonada pelas famílias e comerciantes, entrando num período de crescente decadência. Eram os idos dos anos 40, 50, 60 e 70. Os melhores prédios foram tomados por bordéis. Uma zona da luz vermelha fervilhante, dominada pelos marinheiros que aportavam bem às portas. Como bordel e puta não combinam com preservação histórica, foi um desastre.
Nos anos 80, com a redução do movimento portuário (Suape já começava a operar e a estrutura portuária do Recife já se mostrava obsoleto) aliado a uma decisão política, com fortes incentivos fiscais, o bairro passou por uma revitalização se transformando num dos maiores atrativos turísticos da cidade. A Rua do Bom Jesus transformou-se no point de encontros sociais, folclóricos e culturais e, além disso, gastronômico. Uma mudança de governo municipal, no entanto, discordando da política anterior abortou um dos mais belos projetos turístico que se teve notícia, à época. O Bairro, desde então, vem sofrendo um desgaste geral, os restaurantes e bares desapareceram, o conjunto arquitetônico entrou em decadência outra vez, com raras e honrosas exceções sem que um projeto global dê forma a uma coisa sustentável e honesta com as tradições pernambucanas. Há um grande projeto de revitalização, prometido para a faixa portuária... Mas, isto não passa de promessa há quase 10 anos. De promessas já vivemos saturados. E o velho Arrecife dos Navios (denominação original do bairro), do século 16, pede socorro e vai se deteriorando a cada dia.. Com os meus protestos e de qualquer recifense de são juízo.
NOTA: As fotos são da autoria do Blogueiro

9 comentários:

Baiano da Nigéria disse...

Prezado Girley,

Como diz um velho ditado, esse seu artigo de hoje traz um refinado humor de algo que "seria cômico se não fosse trágico".
Olha, quando eu era jovem, cheguei a tomar uma cerveja geladinha na Chanteclair, talvez a melhor "zona" (bordel) do Recife Antigo. Gostei muito de sua colocação sobre bordel e puta não combinarem com preservação cultural.... No entanto, acredito combinarem sim. É que pouca gente sabe, hoje em dia, que da mesma forma que Forró nasceu da expressão For All em inglês, "brega" nasceu de um coronel holandês que frequentou os bordeis do Recife Antigo quando da ocupação holandesa.
De acordo com meu velho amigo meu, esse coronel se chamava Van Bergstrom e adorava uma chachaça e muita puta nos finais de semana da zona portuaria do Recife de então. Segundo soube, durante a semana ele era um cara bastante conservador. Mas quando chegava o final de semana, ele descia de Olinda, fechava a zona, pagava a conta de todo mundo, e "conhecia" todas as putas por dentro e por fora!!!
Um belo dia, a coroa holandesa envergonhada da atuação de "Seu Brega" (era assim que os locais o chamavam), mandaram uma guarda especial para esperar a saida dele, trêbado, da zona. Literalmente enscaram o coronel numa saca de açucar e o embarcaram de volta para a Holanda.
Seu Brega se deixando grande saudade entre os moradores e frequentadores da "zona" do Recife. Foi-se mas seu nome ficou para relembrar noitadas na zona.
Pena que poucos saibam disso. Que Brega nasceu no Recife Antigo. Seria otimo alguem se lembrar disso para preservar esse patrimonio cultural da humanidade. Baiano da Nigéria

Edvaldo Arlego disse...

Caro Girley. Tanto concordo com sua opinião que, em 2009 lancei o livro "O Recife dos Meus Sonhos", no qual apresento um projeto urbanístico para todo o Recife, desde o Recife Antigo até o mais remoto subúrbio. Implantando um Oceanácio na área portuária para que os turistas que hoje não vem ao Recife com medo do tubarão, passem a vir para ver o tubarão. A inversão da moradia dos ricos para os morros que contornam a cidade e os pobres morando ao longo da linha do metrô, numa faixa de 200 metros do eixo da ferrovia, a dos colégios centrais para a Cidade Universitária seria feita para diminuir o trânsito de veículos durante o ano letivo e transformação do Bairro de Santo Antônio num shopping 24 horas e alargamento de ruas e avenidas fazem parte do sonho que tive e tenho para salvar a cidade. Esse livro faz sucesso entre os estudantes do Recife a ponto de alguns colégios terem promovido trabalhos de confecção de maquetes com algumas dessas transformações. Você está coberto de razão e apesar de o bairo portuário estar completando 100 anos do início das obras de modernização, nosso prefeito parece que deu as COSTAS à cidade. A situação está tão crítica que acabo de chegare de lá e nem parece que o Carnaval está às portas. Abraços, Arlégo.

Andreotti disse...

Caro amigo Girley

Se voce tivesse escrito a palavra inepto corretamente seu blog teria sido completo.
Aprenda que o termo correto è inePTo
Abraços
ANDREOTTI

Danyelle Monteiro disse...

Querido professor Girley,
Como assídua freqüentadora do bairro do Recife, concordo com o Sr. que de fato muitos prédios em estilo colonial estão se acabando, esquecidos pelo governo e por todos... mesmo assim, o Recife antigo parece não querer morrer e tanto é assim que aos domingos está quase sempre cheio, fora os festivais que vem recebendo, como o de cultura japonesa, judaica, de circo, etc... fora a feirinha de todo domingo e o forró de 1 real do outro lado da praça que fica em frente à Torre Malakoff... no carnaval então, lota mesmo... mas quando a gente olha pra cima sente uma tristeza, prédios mal pintados, caindo os pedaços, um descaso mesmo... poderiam ser aos poucos revitalizados pelo governo para servir de área para repartições do mesmo, ao invés do pagamento de vultosos aluguéis.
Também achei interessante a idéia de um de seus leitores com relação a revitalização da área, só fiquei um pouco preocupada com o alargamento das avenidas, pois não gostaria de ver prédios antigos virem abaixo para abrigar outros modernos... lembrei logo da época de Agamenon Magalhães, com a destruição de parte de nossa história arquitetônica.
Grande abraço,
Danyelle Monteiro

Prof. Ilo disse...

Caro professor:
Parabéns pelo Blog. Não conhecia estas sua andanças oriental.
Abs, Prof. Ilo

fernand da Costa Carvalho disse...

Estimado Mestre e Amigo Girley,

Existe uma celébre frase de John Kennedy que se apropria ao seu magnifico comentário no seu mais recente BLOG:" Ás vezes é preciso parar e olhar para longe, para podermos enxergar o que está diante de nós".Portanto querido e ilustre amigo o presente é a sombra que se move separando o ontem do hoje, e mais ainda do amanhã. È triste comprovarmos a destruição de um rico e importante patrimonio que nos foi legado através dos tempos.Infelizmente deixamos de ter um passado na medida em que destroem e deixam se delapidar os nossos momunentos e Patrimonios , talvez para que apaguem em um futuro muito próximo que tivemos um passado pleno de valores arquitetonicos, éticos e morais, que lamentávelmente não tiveram continuidade no presente. Falta aos nossos homens públicos, e em especial a Classe Politica, imaginação que a estas alturas é mais importante do que o conhecimento. Forte abraço do amigo e admirador, Fernando da Costa Carvalho

Lia disse...

Me mudei de São Paulo para Recife faz seis anos, justamente por ver a possibilidade de trabalho na área que gosto, o restauro. Porém embora exista essa demanda urgente, relatada em seu artigo , não há a menor preocupação do poder municipal em tornar o centro do Recife uma área "visitável" por turístas ou "usável" por nós cidadãos pagadores de impostos. Recife é só Boa Viagem para esses administradores, que acreditam que o turista "the flash", aquele que vem só para alguns dias de sol, cerveja e areia (talvez um programinha extra com alguma menina), é o que gera renda para a cidade! Triste, para esses administradores seria preciso uma dose cavalar de cultura, deveriam aproveitar as viagens que podem fazer quando nos cargos, para conhecer um pouco mais do mundo civilizado que valoriza sua história e seu patrimônio.

Lia disse...

Me mudei de São Paulo para Recife faz seis anos, justamente por ver a possibilidade de trabalho na área que gosto, o restauro. Porém embora exista essa demanda urgente, relatada em seu artigo , não há a menor preocupação do poder municipal em tornar o centro do Recife uma área "visitável" por turístas ou "usável" por nós cidadãos pagadores de impostos. Recife é só Boa Viagem para esses administradores, que acreditam que o turista "the flash", aquele que vem só para alguns dias de sol, cerveja e areia (talvez um programinha extra com alguma menina), é o que gera renda para a cidade! Triste, para esses administradores seria preciso uma dose cavalar de cultura, deveriam aproveitar as viagens que podem fazer quando nos cargos, para conhecer um pouco mais do mundo civilizado que valoriza sua história e seu patrimônio.

Zé Geraldo disse...

Alô, conterrâneo Gbras,
Assino embaixo – tristemente – o que você historia c/rf. nossa ex-ZONA (pelo visto, voltando a sê-lo, agora em outra semântica...).
Como tb o comentário da LIA.