segunda-feira, 25 de agosto de 2008

QUANDO NÃO DÁ PARA SEGURAR

Uma das coisas que mais me chamou a atenção nestas últimas Olimpíadas, em Pequim, foram as lágrimas derramadas pelos atletas brasileiros. Nos momentos da vitória e de fracasso. Não consegui ver atletas de outras procedências tão chegados aos extremos emocionais, como ocorrido com os nossos.
Isto, aliás, foi assunto para a imprensa, na TV e rodas de bar, sempre em tom critico e de reprovação.
Lembro que, quando era menino, meu pai dizia que homem que é homem, não chora. E, pior, me fazia engolir o choro, sempre que este me aflorava em situação de estresse.
Isto se tornou um trauma na minha vida inteira. Tanto é que, tenho vontade de chorar em muitas ocasiões, quando diante de uma cena forte do cinema, da morte de um ente querido ou da alegria de um reencontro, mas, digamos que, pelo trauma de infância tento, sempre, esconder as lágrimas, a emoção, isto é, a razão de ser um ser humano.
Quando vi Bernadinho chorando por perder a medalha de ouro do Volley masculino, fiquei admirando a capacidade e coragem de ser ele, diante das câmaras, ao vivo e a cores, cheio de emoção e sensibilidade. Confesso que tive vontade de acompanhá-lo nas lágrimas, como que me solidarizando. Tive pena – como já falei no artigo anterior – de ver Diogo Hipólito chorando, de bunda no chão, e pedindo desculpas ao Brasil, bem como vibrei ao ver Maureen Maggi chorando pela medalha de ouro que conquistou. Achei fantástica a vitória das meninas do volley e emocionei-me vendo-as chorar de alegria ao receber a medalha de ouro. Novamente, quase chorei de alegria, é claro.
No caso dos atletas, há uma confluência de razões. A maioria, acredito, chora porque vestiu a camisa do Brasil e sendo atleta quer fazer bonito e chegar ao máximo. Outros porque são vaidosos e buscam a perfeição. Mas, há também aqueles que, além de competir, buscam conquistar um “lugar ao sol” no competitivo mundo do esporte e o melhor exemplo disto é o das meninas do futebol. Todas, segundo dizem, de origem humilde e carentes de reconhecimento, choravam, também, por perderam a chance – mesmo sendo prata – de impor num país machista, como é o Brasil, o devido prestígio do esporte que praticam, na categoria feminina. E, finalmente, há aqueles que choram porque, embora bem situados, em prestigio esportivo e gordas contas bancárias, perderam chances de incrementar essa situação. Haja choros.
Pois é. Há momentos que não dá para segurar, mesmo. Mesmo que seja homem, machão e duro de coração. Afinal, lágrimas existem e não ficam represadas. Faz parte da natureza humana. A lágrima é um sintoma claro de um estado de emoção – tristeza ou alegria – que após vertida confere uma sensação de relaxamento e alívio. Todo ser humano precisa pensar nisto, relaxar e chorar.
Ah! isto é coisa típica de latino...” ouvi comentários desse tipo, acrescido da “brilhante” explicação de que fossemos anglo-saxões, nipônicos ou chineses, reagiríamos de modo mais comedidos emocionalmente e saberíamos, assim, encarar a realidade como mais frieza.
Mas, e daí? Somos de origem latina sim. Emotivos por natureza. Geniosos e chorões. Mas, somos humanos, o que nos confere o direito de ser gente, com nossos maravilhosos traços culturais, que se traduzem, também, quando das nossas explosões de alegria contagiante e única, que empolgam meio mundo.
Portanto, se o choro tem forte relação com a cultura do cidadão, estão explicadas as lágrimas brasileiras, em Pequim.
Preciso lembrar mais que sou latino, para, depois de adulto e velho, me livrar do trauma de infância e dos mandamentos do meu pai. Preciso chorar quando preciso for.

ENQUETE: Sendo Homem, responda a pesquisa ao lado. Chora ou não chora em público?
Resultado da Enquete: Após 5 dias de pesquisa - depois de postada esta matéria -, 89% dos homens afirmam que são capazes de chorar em público. enquanto os 11% restante dizem não ter coragem de fazer isto.

Nota: Fotografias colhidas no Google Imagens

8 comentários:

Corumbah disse...

Caro Girley.
Brilhante sua análise. Lembro somente que a emotividade não é só característica latina, ela é humana. A russa, campeã mundial de salto com vara se debulhou em lágrimas.
É um belo sentimento, amigo e, assim como meu pai, eu me emociono até lendo uma mensagem no e-mail.
Choro e choro muito e acho que o mundo seria bem melhor se todos que se emocionam, chorassem.
Fique com Deus e parabéns!
Corumbá

Clara Calado disse...

Olá Girley.
Voce é sempre, sempre pertinente.
Suas colocações e observações estão sempre na medida exata da coerência , da pertinência e da sensatez.
Bom ter pessoas como vece, que muitas vezes nos sacode da inércia.
Grande abraço.
Clara Calado

Mauro Gomes disse...

Amigo, eu choro até em filme de sessão da tarde.

Abraço,

Mauro Gomes

Ina Melo disse...

Girley,
LI O SEU COMENTÁRIO SOBRE AS LÁGRIMAS. AS PESSOAS PRECISAM SABER QUE ALMA, ESPIRITO, SENTIMENTOS NÃO TÊM SEXO. PORTANTO ISSO DE HOMEM NÃO CHORAR É PURA IGNORANCIA. O MAIOR ORGULHO QUE TENHO DO MEU FILHO É POR ELE SER CHORÃO. QUANDO CRIANÇA (SÃO DUAS MENINAS E UM MENINO) O PAI TAMBÉM DIZIA QUE HOMEM NÃO CHORA E EU SEMPRE REPLICAVA. CHORA SIM. DESDE QUE TENHA VONTADE. RESULTADO. HOJE ELE CHORA ATÉ QUANDO O NAUTICO PERDE. PARABÉNS. NÃO TENHA VERGONHA DE EXPOR SENTIMENTOS, ELES SÃO ESSENCIAIS PARA A FELICIDADE. Ina Melo

maria guimarães sampaio disse...

E eu que não assisto nada de esporte... só Daiane, chorei logo que vi o pesinho fora da linha. E o rapaz da natação, por acaso assisti, chorei mais do que ele. Adoro chorar, e rir. E passo de um ao outro na maior facilidade (se for o caso, por exemplo, de no meio de uma zanga eu lembrar que não preciso me zangar)

Rinalva Silveira disse...

Girley querido:

Muito apropriado o seu artigo sobre choro.
Conheço bem as repressões que sofríamos dos nossos pais.
Depois de nos dar uma surra, diziam: Engula o choro.
Logo eu que sempre fui chorona!
Coitados dos nossos pais, foram vítimas também.
Imagine só não poder beijar, abraçar os filhos para não
perder a autoridade.
O choro faz bem. Seja de alegria ou de tristeza.
Se você ainda não superou esse trauma, procure superá-lo o quanto antes
e chore sempre que sentir vontade.
É lindo ver um homem chorar!
Rinalva Silveira

Wilma Reis disse...

Prezado Girley,

Muito bom o seu artigo.Particularmente acho lindo um homem emotivo,que chora com facilidade,talvez até pelo fato de na infância,tanto ouvir dizer que homem não chora.Eu,sou uma manteiga derretida,choro por tudo,de felicidade,de tristeza,até mesmo por tanta coisa triste que passa na TV.Seja você,chore sempre que tiver vontade,alivia o coração.
Grande abraço.

Wilma.

Mucão disse...

Olá, Girley!
Aqui é o Samul, mais conhecido como "Mucão", amigo do Tico aqui do Rio Grande do Sul. Queria dizer que gostei muito mesmo da tua crítica. Identifiquei muito várias coisas que pensei sobre as Olimpíadas, unclusive pude ver melhor ainda o como nossos desprezados atletas sofrem diante de tanta pressão de quem nunca apoiou.
Queria agradecer a inspiração e desculpar a citação sem permição no meu blog (acabei criando um, hehe).
Mas parabéns, mesmo! Gosto muito do que escreves.

Grande abraço aqui do sul.