terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Olha aí! O carnaval já chegou.




Nem bem saímos dos festejos natalinos e final de ano, já se ouvem os clarins de Momo pelos quatro cantos do Recife. O mesmo deve ocorrer em cidades carnavalescas, sobretudo no Rio e em Salvador.
Este ano vai ser diferente, o carnaval cai nos primeiros dias de fevereiro. Antes disso, impossível. Bom, por um lado, porque o ano brasileiro vai começar mais cedo e ruim, por outro, porque vai pegar o folião na ressaca do Natal e do Reveillon. E falo, principalmente, da ressaca financeira. A turma da folia vai ser apanhada sem a grana desejada no bolso, preocupada em pagar as dívidas contraídas com o Papai Noel de 2007.
Antigamente, se dizia que com dinheiro ou sem dinheiro se brincava o carnaval. Havia mesmo uma marchinha que enaltecia esta vantagem. Hoje, contudo, o carnaval virou um dos maiores negócios do ano. E, por isso, não se brinca sem dinheiro. Os apelos e imposições do comércio e organizadores da frevança são irresistíveis. O cidadão, por mais pobre que seja, não se atreve a cair na folia sem seus trocados no bolso e uma indumentária adequada.
Mais grave, porém, é constatar que esta comercialização da folia e os “bombardeios” dos trios elétricos, axé-music, samba carioca e outros ritmos alienígenas fizeram com que o carnaval de Pernambuco perdesse suas características mais marcantes.
Ultimamente, só se fala num tal de Carnaval Multicutural, que, se durar mais do que já dura, vai incutir uma nova forma de brincar o carnaval nas novas gerações. Permitindo afastamento das raízes culturais pernambucanas a coisa se constitui num verdadeiro absurdo. Não me conformo de ver, no sitio histórico do Recife Antigo, apresentações de bandas de rock e exibições de tangos, milongas e reggaes, deslumbrando a moçada. O frevo – nossa música maior – passa ao largo dessa galera, que, no máximo, admite um axé baiano. Que falta de visão cultural.
Ouvi dizer que essa denominação de Multicultural tem, somente, encarecido a promoção e, com isto, gerado renda para meia dúzia de interessados, sobretudo políticos que trabalham a base do Caixa 2. “Pagam-se” fortunas por artistas de fora – fala-se que Milton Nascimento vem fazer a abertura oficial do Carnaval 2008! Já pensou? E ele entende de carnaval de Pernambuco? – em detrimento dos valores da terra e, sobretudo, das agremiações carnavalescas locais. A estas, aliás, destinam míseros e simbólicos trocados de reais, que, sequer paga uma orquestra de seis componentes. As fantasias, dos componentes, são pobres e as fisionomias não conseguem esconder as faces sofridas de uma gente humilde, esquecida e fazendo uma figuração medíocre.

Mas, como ainda existem cabeças de bom-senso e responsabilidade cultural, uma coisa pode salvar nosso autentico carnaval, que é o crescimento dos chamados blocos líricos, na minha opinião, a melhor resposta pernambucana a esses ambiciosos inovadores multiculturais.
Falo de iniciativas como o Bloco da Saudade, segundo contam, inspirado no antigo e extinto Bloco das Flores, na esteira do qual vieram outros, tão autênticos quanto, que, a cada carnaval, enchem as ruas recifenses de poesia e músicas tiradas, geralmente, de bandas de pau e corda. Não fazem apelos maledicentes, letras com grosseiras segundas intenções. Fazem poesia e melodias. E, com isto, fazem também a diferença. É uma manifestação que traduz a alma de um povo, orgulhoso das suas tradições e que não precisa buscar lá fora novos ritmos e novas caras para fazer um grande carnaval.
Quando criança, ouvi falar, muitas vezes, que em Pernambuco se fazia o melhor carnaval do mundo. Turistas brasileiros e estrangeiros enchiam as ruas do Recife para ver Vassourinhas, Madeira do Rosarinho, Pás, Batutas de São José, Lavadeiras do Pina, Bola de Ouro e muitos outros. Bote muito nisso. Hoje muitas dessas agremiações desapareceram e algumas restantes já nem saem no carnaval, por falta de patrocínio e apoio governamental, além de provar que sem dinheiro não se brinca carnaval.
Na década de 60, Catarina Real, uma pesquisadora americana, baixou por aqui, deslumbrou-se com o nosso carnaval e mudou-se de “mala e cuia” para o Recife. Pesquisou e estudou o nosso jeito de festejar Momo. Fez disso uma cachaça. Divulgou e exaltou ao mundo o que se fazia por aqui. Não sei se ainda vive. Mas, sei que caiu no esquecimento.
É por tudo isto que está na hora de dar um basta nesse descaso com nossos valores culturais. Precisamos urgentemente restabelecer nosso autêntico carnaval, valorizando o frevo de rua e o frevo-canção, os blocos líricos, o maracatu, os caboclinhos, o papa-angu, a la ursa, entre outros. E o Governo precisa sair na frente.
E cuidado, porque o carnaval de Pernambuco não pode nunca seguir o modelo show-business dos carnavais de Salvador e do Rio. Ao invés disso, deve ser uma festa do povo, sem a necessidade de “valores” alienígenas. Nada de roqueiro ou sambista. Dançarinos de tango? Nem pensar! Idem para os axés baianos. Fiquemos somente com o frevo, o maracatu e as vozes dos nossos valorosos Claudinor Germano, Getúlio Cavalcanti, Alceu Valença, Lenine, André Rios entre outros. Tem coisa melhor? Acho que não!
Viva o autêntico carnaval de Pernambuco! E, atenção, não é nativismo!

3 comentários:

Luciana disse...

Faço minhas suas tão sábias palavras - e você é testeminha de que um dia tentei, e como tentei, trabalhr por este maravilhoso mundo do real"Carnaval de Pernambuco" - ainda acredito que Olinda tem mantido parte desta autenticidade, permitindo a participação de todos nas suas ladeiras. Vale lembrar que acabando com o carnaval "multicultural" e proibindo qualquer som que não fosse saído das raízes de Pernambuco. Por isso ainda, com muita dificuldade, seguro o site de Olinda. uma mostra do carnaval, sem apoio, sem qualquer interesse por parte dos que são governos. Você conhece como são as coisas culturais do nosso Estado que umdia já foi um grande polo cultural.
Luciana Åltino
http://www.olinda.com.br

Anônimo disse...

Compartilho do clamor do Girley pelo autêntico carnaval pernambucano. Quando criança, no interior do Paraná, brinquei carnaval à base do frevo. Que delícia. Que esforço exigia da gente, mas era uma delícia. Foi em razão disso que alimentei durante anos o desejo de conhecer o Recife e sentir o verdadeiro frevo e foi de lá que trouxe para o sul memórias do Raul Morais num disco de vinil que ainda guardo como tesouro.
Que pena Doutor Girley ver a Rua Tomazina sem o som de um bom frevo.
(BMBorges)

Leo disse...

Girley Você está coberto de razão. O Recife,lembro a época de Miguel Arraes prefeito, teve decorações belíssimas, mas há muito tempo essa questão foi posta de lado, ou os decoradores foram contaminados pelo o mal gosto, ou incompetência. Estou admirada com BH. Ano passado estava lá e foi um verdadeiro fracasso. Dia de Natal saímos para ver a decoração da Praça da Liberdade, mas para a nossa surpresa estava às escuras. Dizem que só acenderam na véspera da festa.Enfim, só resta lamentar o mal uso do nosso parco dinheirinho,ou melhor do dinheirão que pagamos pelo IPTU. Um abraço, Leony