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domingo, 14 de setembro de 2025

Abandono Doloroso

Uma das coisas mais prazerosas que sinto é, visitando uma cidade ou um país, notar os cuidados e preservações dos patrimônios histórico-culturais locais. Este é um assunto recorrente, aqui no Blog do GB. Vez por outra, me sinto na condição obrigatória de denunciar os desmandos que observo aqui por perto e no restante do Brasil. Quem sabe, num futuro... Esses dias tocou-me a oportunidade de visitar Olinda ciceroneando familiares em visita a Pernambuco e não pude deixar de notar o quanto o nosso Sitio Histórico (Monumento da Humanidade - UNESCO) carece de maiores cuidados, da limpeza urbana em geral à preservação dos seus monumentos. Percebe-se que a alta frequência de turistas, nacionais e estrangeiros, ávidos por descobrir traços originais da História da Região e, obviamente, do próprio Brasil terminam por produzir detritos, muito dos quais, abandonados nas vias públicas e recantos inapropriados. Devido claramente por falta de educação ou, acredito, por falta de coletores de lixos estrategicamente postos e ao fácil alcance dos visitantes. Presumo que a municipalidade se revela incapaz de administrar, seja por pura incompetência ou pela provável incapacidade financeira. O curioso é que não vi um porvidencial gari por onde andei. Claro que a situação pode ser agravada pela falta de atitudes mais civilizadas do público visitante, agravada pela visível ignorância do pessoal local, interessado, apenas, com o faturar nos seus negócios. Ambulantes, tapioqueiras, flanelinhas, pipoqueiros, entre outros, fazem a “festa” sem se preocupar com o meio ambiente que ocupa. Há cantinhos, digamos mais recônditos, que servem descaradamente de mictório, exalando constantemente o desagradável odor pelas redondezas. É um abandono doloroso. Não posso esquecer que, ao circular por certas vias, um dos meus convidados, observando moradores, nas calçadas de suas residências, exclamou assustado, “é curioso ver que tem gente que mora nessa bagunça!”. Doeu-me até a alma. Fiquei mudo e emendei com um comentário elogioso sobre o primeiro beco que surgiu. E pensar o quanto é difícil viver num país em que atirar lixos em via pública e urinar nos bequinhos mais reservados não gera qualquer tipo de penalidade, a situação fica realmente impraticável. Lugares, como Cingapura que multa em milhares de Dólares o cidadão que come na rua ou que suja a via publica, bem poderia servir de exemplo. Talvez até funcionasse, já que aplicar multas se constitui esporte favorito de muitos agentes oficiais. Complicado. Passados poucos dias tocou-me receber e orientar visitantes oriundos do Rio Grande do Sul, sedentos por conhecer o Recife e Olinda. Claro que tratei de dar as melhores informações, tanto históricas, quanto contemporâneas. Acredito que contribui. Contudo, pensado nesses, estive, neste domingo, circulando no centro do Recife, indo à missa na Igreja da Conceição dos Militares. Trata-se de um dos templos históricos mais bonitos da cidade e recentemente restaurado. (Vide foto a seguir). A beleza é de tal grandeza que os mais conhecedores do assunto não cansam de afirmar que se trata da Capela Sistina de Pernambuco. O templo data de 1726. Ou seja, completará 300 anos no próximo ano. Formidável.
Localizado numa das ruas mais antigas da cidade, a Rua Nova (antiga Rua Nova de Santo Antônio, no século XVIII, Rua Barão da Victória, em 1870 e Rua João Pessoa, em 1930. Sem que esses nomes pegassem na população, voltou a se chamar simplesmente de Rua Nova em 1937) se constitui num ponto fora da curva do ambiente deteriorado da capital pernambucana. Uma maldade ver aquela tradicional artéria tão abandonada. Lamentavelmente, os grandes centros urbanos, as capitais brasileiras, estão todos abandonados dolorosamente. É um verdadeiro crime o que se comete com nossa historia urbana. Saindo da Igreja da Conceição e caminhando nas redondezas, onde antes a cidade fervia de lojas elegantes e casas de chá frequentadas pela alta sociedade, deparei-me com verdadeiras perversidades contra o patrimônio cultural da cidade. É assustador, por exemplo, ver o fantástico mural frontal do edifício que abrigava o antigo e elegante Magazine A Primavera, da autoria do renomado artista pernambucano Francisco Brennand, emporcalhado por inomináveis pichadores que perambulam pelas madrugadas da cidade Maurícia acabando com o há de belo para se mostrar aos visitantes e para ilustração das nossas melhores amostras culturais. Vide foto a seguir.
Para concluir cabe, então, uma pergunta que não cala: até quando viveremos tantos desmando e tanta ignorância ambulante? O velho Recife – a Capital mais antiga do Brasil – prestes a completar 500 anos vive um doloroso abandono. Abram os olhos senhores administradores da Urbe!

domingo, 23 de maio de 2021

Agredindo a História

Nos últimos dias um assunto tem dominando boa parte das rodas de conversas, presenciais ou virtuais, bem como manifestações publicadas na imprensa, de pessoas mais esclarecidas, contrárias a um estapafúrdio projeto de lei, da autoria de um pouco conhecido vereador do Recife, sugerindo a mudança de denominação da histórica e tradicional rua central do Recife – a Rua Nova – para Rua Augusto César. A ideia é de homenagear um cantor popular, recentemente falecido, que fazia ponto na referida artéria cantando e vendendo seus CDs, gravados amadoristicamente. Acredito haver sido um cara boa praça e de boa voz. Nunca ouvi falar antes. Tudo bem que se queira homenagear um tipo popular (dizem ter sido assim o homenageado) e sempre se encontrará uma razão. Contudo, nada mais absurdo do que os termos desta proposta sugerida que, no final das contas, agride as tradições e a cultura recifense, incluindo, creio eu, a dos próprios eleitores que colocaram o autor do projeto como representante no parlamento municipal. Eis aí mais um passo da insanidade que grassa neste país de Cabral cujo resultado tem sido apagar a História do país. A Rua Nova é historicamente palco dos mais importantes da evolução sociopolítica da cidade do Recife. Sua existência, sob esta denominação, data de priscas eras. Já existia em 1752 quando, segundo o jornalista Magno Martins (Jornal O Poder), por segurança, retiraram de lá a Casa da Pólvora da Provincia. Em 1870, mudaram seu nome para Rua Barão da Vitória (comemorando a vitória da Guerra do Paraguai) e que não colou. Entre outros fatos históricos, registra-se o assassinato de João Pessoa, governador da Paraíba, que precipitou a Revolução de 1930, ocorrido justo ali. Vide foto antiga, a seguir. Muitos outros episódios, que até poderiam provocar uma mudança, tiveram aquela rua como cenário, além de haver sido ao longo dos tempos a via mais elegante da cidade, contando com lojas de luxo, cafés e cinemas, num clima de grande metrópole. Mas, como tradição é tradição, nunca mudou. Vem agora essa idiotice, de quem parece não ter o que fazer, desejando mudar o nome de uma rua que resiste ao tempo e aos modismos de uma elite sem qualquer noção de história ou respeito às tradições culturais do burgo no qual atua, para perturbar a sociedade às voltas com outras preocupações mais sérias. Vereador, aceite um conselho: coloca tua viola no saco, arranja outra forma de homenagear teu cantor predileto e deixa a Rua Nova em paz. Lembra-te de que teu ídolo cantor poderia ser o primeiro a protestar.
A Câmara Municipal do Recife e suas congêneres no restante do País precisam criar comissões especiais encarregadas de inibir propostas absurdas e impatrióticas dessa natureza, coisa que tem sido recorrente no país, à revelia da sociedade que termina sendo apanhada de surpresas e sem possibilidades de reversão. Aqui no Recife esse tipo de desatino tem sido usado e abusado na tentativa de consagrar nomes que fizeram história no meio da sociedade local. Infelizmente, têm sido tentativas sem sucesso devido às escolhas das localizações, que nem sempre batem com a ideia e resistem às suas originais denominações. Exemplos disso lembro-me facilmente de alguns logradouros emblemáticos: à Avenida Norte acresceram o nome do Governador Miguel Arraes Alencar. Não colou. Continua sendo, para todos os efeitos, Avenida Norte. Ora, Dr. Arraes merecia algo mais honroso. Outro exemplo é o do Aeroporto dos Guararapes, ao qual foi agregado na sua denominação o nome de Gilberto Freire. Não surtiu o efeito projetado. Freire é um nome que merecia algo mais marcante. Por exemplo, um Centro Cultural. E, mais recentemente, o Diário Oficial do Município publicou a decisão do “fatiamento” da Avenida Beira Rio para homenagear três figuras, entre os quais Eduardo Campos. Dessa forma, um dos trechos passa a se denominar Avenida Beira Rio - Govenador Eduardo Campos. Fatiada como foi nunca deixará de ser Avenida Beira Rio. Vamos e venhamos, não é justo. A proposito de fatiamento lembro-me, agora, que moro numa rua relativamente longa que começa na Jaqueira, passa pelo Rosarinho e termina nos Aflitos com três nomes diferentes. Quem for do Recife sabe do estou falando. O último trecho, vejam só, é quase ridículo porque tem apenas cem metros e homenageia um certo Samuel Campelo. Cada trecho tem sua própria numeração. Não preciso dizer que quem busca meu endereço experimenta certa dificuldade porquanto imagina estar na minha rua e no meu numero, não estando. E para conclui, registro que fiquei sabendo que é corriqueiro os casos em que deshomenageiam-se antigos homenageados, para homenagear outros emergentes com grande frequência. É uma zona geral de parlamentares que precisam “retribuir” ou “garantir” vitória nas urnas eleitorais. A sociedade tem que participar e reagir a esses representantes de plantão que agridem a História.

Tropeços Diplomáticos

Por razões profissionais tive boas oportunidades de vivenciar e interagir com o meio diplomático brasileiro, bem como de outros países com o...