Matéria
publicada, esta semana (03.11.16), num jornal do Recife, chamou-me a atenção
pelo inusitado, pelo menos no Brasil, e que diz “mortos-vivos invadem ruas de
São Paulo”. Pois bem, pela 11ª. vez aconteceu na capital paulista um desfile
denominado “Zombie Walk” (Marcha Zumbi). Pessoas caracterizadas de
mortos-vivos, bruxas, esqueletos, múmias, vampiros, matadores, entre outras
figuras, prestam uma homenagem aos mortos, no dia de finados. Segundo os
organizadores do evento, essa macabra caminhada se realiza em outras cidades do
mundo, sendo que a primeira ocorreu na Califórnia em 2001.
Sinceramente,
acho insólita essa forma de homenagem aos mortos. Lembro que, quando criança,
achava enfadonha a comemoração do dia de Finados, aos moldes da época e cultura
local. Mas, antes assim... Naquela época, desde o dia anterior, as rádios só levavam
ao ar músicas clássicas, pelas quais eu não me interessava até então, e que se
dizia serem músicas fúnebres. Na minha inocência infantil, batia-me uma
tristeza inexplicável. Outra coisa, o dia de Finados era dia santo, com
obrigação do preceito de ir à missa e tudo mais. Recordando o passado me admira
como hoje a coisa é diferente. Prá começo de conversa, deixou de ser dia santo
e virou feriado. Isso! Simplesmente feriado! E a ordem geral é aproveitar a
folga. Praia, campo, balada, shows e, sempre que possível, fazendo “uma ponte
de folga” ao juntar com o fim de semana. Quem morreu, morreu e que descanse em
paz. Custa-me assimilar essa “nova ordem” social e, conforme fui educado, não
deixo de homenagear meus mortos acendendo uma vela e orando, no cemitério.
Mas, curioso
como sou e por principio, fui atrás de saber como essa coisa acontece noutras
sociedades e descobri coisas bem interessantes.
No Japão, o
dia de Finados é comemorado em agosto, após o 15º dia do sétimo mês lunar.
Geralmente cai no entorno do dia 15. É
uma tradição antiga, de origem Budista, e data de antes do país adotar o
calendário gregoriano, no século 19. Denomina-se de Obon, é um longo feriado,
quando as famílias costumam viajar aos locais de origem da família e juntas
fazem oferendas, dançam e contam histórias dos mortos e de fantasmas. Nessas
ocasiões eles fazem faxina no mausoléu, adornam e colocam frutas e comidas
favoritas do falecido, acreditando que eles saem das cinzas para a visita anual
à família.
Já na China
a coisa é muito engraçada e até polêmica. As pessoas prestam homenagens com
oferendas. Geralmente preparam ou compram (há um comércio rentável) reproduções,
em papelão ou similar, de produtos de consumo admirados pelo falecido e que ao
fim das homenagens são queimados. A idéia é que o homenageado irá precisar
daquele produto lá na eternidade. Recentemente, devido a onda capitalista que
invadiu a China, são ofertadas réplicas de produtos de grifes de luxo entre as
quais a Dior, Gucci e Chanel, que logo protestaram em defesa das suas
respectivas marcas. Esse negócio vem dando o maior rolo para os chineses. Além
desses artigos, são ofertados cigarros, carros, celulares, entre outros itens.
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Artigos femininos em papelão com a marca Gucci, vendidos em Hong Kong |
Os mexicanos
não ficam atrás. Conversando com minha amiga Susana Gonzalez, da cidade do
México, fiquei inteirado que eles realizam um festival prá lá de divertido. Saem
em carros alegóricos pelas avenidas, acompanhados de bandas e caracterizados
com fantasias de mortos, caveiras – a famosa Catrina, ícone mexicano – vampiros,
fantasmas e outras figuras do gênero. É um verdadeiro carnaval. O povo vai às
ruas e curte adoidado. Insólito para nós brasileiros, mas divertidíssimo para
os mexicanos. Sugiro que abra o link a seguir e veja que coisa curiosa. https://www.mexicodesconocido.com.mx/lo-mejor-del-desfile-de-dia-de-muertos-en-la-cdmx.html
Se nas ruas
a coisa acontece desse modo, nos ambientes domésticos, cada família monta um
altar em homenagem aos mortos, crentes de que os homenageados vêm visitá-los no
dia de finados e esperam encontrar tudo que “têm direito”. Nesse altar
doméstico, além da foto dos mortos lembrados, são
Altar de Susana González |
colocados: água, comida – os
pratos favoritos dos falecidos –, pão do morto, velas, incensos, sal,
mini-abóboras e flores que, geralmente, são os conhecidos cravos de defunto,
aqui no Brasil. No México se denomina de Flores de Cempasúchil. Há, inclusive,
uma lenda muito interessante sobre essa flor. Sugiro consultar o Professor
Google. É interessante, quando dizem que os mortos precisam se alimentar e
beber para se restabelecer da longa caminhada da vinda e se preparar para a
viagem de volta. Em alguns casos são deixadas uma lapada de tequila e um
cachimbo, no caso de haverem sido preferências de um homenageado durante a vida
terrena. A minha amiga Susana monta anualmente um desses altares em casa. Vide
foto acima.
Êita mundo
velho e multicultural.
Nota: A foto da China foi obtida no Google Imagens e a foto ao lado referente à tradição mexicana foi gentilmente cedida por Susana González, minha amiga mexicana.
5 comentários:
Amigo Girley,
Concordo 100% com suas observações e me atrevo a adicionar o fato de que não é a primeira vez que customizamos valores, festas, e crenças estranhas à nossa origem cultural. Parece que, o que vem de fora, é seletivamente escolhido pelas pessoas desse país.
Poderiam importar a ética escandinava, por exemplo. Mas isso, pelo visto, não interessa. Poderiam importar o sistema de eleição distrital dos EUA, Reino Unido, Japão, Austrália, Canadá, Nova Zelândia, França, Alemanha. Mas, como nossos corrompidos políticos iriam sobreviver sem uma boquinha para sustentá-los??
Enfim, sugiro você ver 007 contra Spectre para ver como o dia dos mortos é celebrado no México, país que o amigo já deve conhecer de sobra!!! Veja essa cópia que peguei no Youtube!!! kkkkkkkkkkkkkk Caso não seja chegado às aventuras de James Bond, basta ver o inicio do filme.
https://www.youtube.com/watch?v=5v3kcSCuZlE
Abraços,
Adierson
Girley:
Acompanhei meu avô Orlando de Miranda Henriques ao cemitério de Sto.Amaro na infância,acompanhei meu pai depois que ele faleceu.Temos jazigo lá.As pessoas perderam o respeito por costumes cristãos.Vi num filme com Shirley Mac Laine esse costume mexicano.Vovô não levava lanche mas via familias aqui em Recife virem de longe e trazerem a cesta como se fosse um piquenique.Dia de limpar os tumulos,capianar,etc.Podiam importar o respeito às tradições milenares.
Muy lindo tu reportaje, el próximo año voy a un cementerio saco video para darte una idea de cómo es la fiesta en esos lugares.
Cunhado li o blog , realmente são costumes muito diversos dos nossos, aqui por exemplo é dia de "farrear"e "imprensar",Para alguns não para todos .beijo
Amigo Girley, adorei seu novo blog sobre Diversidade Cultural. NÃO CONHECIA os costumes destes países e fiquei comentando com Umberto como. O mundo tem valores diferentes do nosso país Na nossa família continuamos a homenagear nossos mortos indo ao cemitério no dia de Finados enfeitando com flores e velas pois tenho um Mausoléu de. Família onde estão nossos ancestrais desde meu bisavó que. Naquela época era o Barão de Uricuri onde existe o Brasão da nossa família. Hoje com a modernidade não gostaria de ser enterrada lá e sim Cremada para não. Dar trabalho para os que ficam.
Thereza Leal
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