sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Não dá prá calar

Eu havia assumido o propósito de que, este ano, não faria qualquer alusão e, sobretudo, critica ao que se planeja para o carnaval do Recife. Comodidade, talvez. Na verdade, cansaço de desempenhar um papel de “andorinha solitária a tentar fazer verão”. Mas, não dá prá calar.
Quem acompanha minhas postagens aqui no Blog sabe que, nos anos recentes, não medi palavras para condenar o despautério que se instalou na programação oficial dos festejos de Momo na capital do frevo e do maracatu. Numa visão equivocada as autoridades de plantão e os organizadores dos festejos se afastaram de modo desmedido das referências carnavalescas e culturais do estado prestando um dos maiores desserviços à cultura pernambucana.
O resultado está aí: criou-se uma geração de pernambucanos que rejeitam o frevo, nas suas diferentes modalidades, e entendem que a Axé Music é a mais pura manifestação pernambucana. Culpa de quem idealizou os famigerados Recifolia – extintos em boa hora – e a administração petista que privilegiou a contratação de toda sorte de cantores do sul, da Bahia e de alhures para “animar” o nosso carnaval, em detrimento dos valores – incomparavelmente melhores – dos músicos e cantores pernambucanos.
Estas semanas que antecedem o carnaval de 2015, tenho tido noticias que são desanimadoras para quem, como eu, defende as tradições locais: a primeira foi que Ivete Sangalo “abalou” no Bal Masqué do Clube Internacional. Vejam vocês que viveram os magníficos carnavais dos anos 70 e 80 e que conheceram o Baile que se realizava àquela época, a que ponto chegou a coisa. Hoje é: pagou entrou e a festa/show acontece na área externa, onde antes havia uma piscina e agora aterrada, certamente de propósito para receber grande público. Transformaram o considerado mais antigo e tradicional baile de carnaval do Brasil num conhecido show da estrela do Axé Music. Nada contra a Sangalo... ela tem seu valor artístico e é uma consagração. Mas, sei de pessoas que foram lá apenas para assistir a apresentação da cantora e que não suportaram quando uma orquestra local tocou um autentico frevo pernambucano. Ou seja, o baile perdeu o seu original sentido. Está descaracterizado. Irritante mesmo foi quando na conversa com uma “foliã” que esteve nesse show e tentou convencer-me que a Axé Music é frevo. “Frevo baiano, meu caro!” afirmou com veemência. Detalhe: é uma pernambucana! Não sei se tive vontade de rir ou de chorar.
Outra noticia que me chamou atenção foi sobre a situação de penúria, que atinge os mais tradicionais clubes carnavalescos que sempre fizeram o belo carnaval de rua do Recife. O Diário de Pernambuco acaba de publicar uma série de reportagens focando o assunto. O Bola de Ouro, que é a agremiação homenageada, deste carnaval, pela Prefeitura do Recife, está tão ruim de vida que nem uma sede própria tem. A atual presidente, Luiza Ramalho, – uma verdadeira pernambucana – tem se desdobrado para manter viva a agremiação, fazendo da própria casa a sede e atelier de fantasias para o Clube sair no carnaval. Mulher dos seus quase 80 anos, cheia de entusiasmo, já delegou ao filho, Robervaldo, a missão de sucedê-la. Vai ter que rebolar... Já a filha, Rosalice, sem cerimônia declara não querer saber de assumir a tarefa. Vai ver que ela é do time dos inconscientes que detestam o frevo e prefere o Axé.

Pior mesmo é que o Bola de Ouro não está sozinho na zona da pindaíba. Outros vários estão “à míngua”, entre os quais os históricos Batutas de São José, Vassourinhas, Lenhadores, Amantes das Flores, Inocentes do Rosarinho, Banhistas do Pina, Madeira do Rosarinho e tantas outras agremiações que fazem o verdadeiro carnaval do povo e contam a história das nossas tradições. A estes cabem, apenas, magras subvenções que nem de longe cobrem os custos de manutenção e, sobretudo, dos desfiles nos dias de carnaval. Agora, pergunte se falta verba para pagar os altos cachês dos cantores de fora. Até mesmo alguns se dizem ignorantes sobre frevo, maracatu e caboclinhos.   
Sabe o que é isto? Falta de visão histórico-cultural e inteligência gestora nos que vêm promovendo e organizando o nosso carnaval para – a exemplo dos baianos – incentivar, apoiar, valorizar o que temos na “prataria” da casa.
Dois anos passados alimentei muita esperança com a entrada de uma nova administração municipal. Chegaram dando sinais positivos, fizeram algumas modificações, mas, não foi o suficiente. Capricham na alegoria e enredo da decoração da cidade, mas, pecam na evolução do evento. Por “milagre” o Baile Municipal preserva os valores locais e foge das “importações descabíveis”. Até o aclamado Galo da Madrugada já se bandeia muito para os ritmos alienígenas e termina agradando aos que têm saudades da Micareta do Recifolia. É difícil...
Bom, pensando bem, quem vive intensamente o carnaval é a juventude e esta já foi capitulada. Agora, pode ser tarde.
Saudosismo ou viés de opositor político? Nada disto! Quem não preserva seus valores históricos não tem futuro e limita-se a viver o presente dos outros. Não dá prá calar.

NOTA: Fotos obtidas no Google Imagens. 

 

6 comentários:

Vanja Nunes disse...

É meu caro amigo .... e assim caminha a humanidade (plagiando ...)
Cada ano que passa só vejo perder a essência dos valores,das tradições.....
E o que fazer?
Apenas viver.
Um grande abraço e um bom final de semana
Vanja Nunes

Ina Melo disse...

Muito bem amigo, precisamos sim de uma voz que chegue aos ouvidos dos administradores do Carnaval. Você está certíssimo, não sabemos valorizar o que é nosso. Eu, como uma velha expectadora dos velhos carnavais, nesta época gosto de observar e por incrível que pareça, você ainda encontra alguma coisa do passado nos ensaios do Bloco da Saudade, que neste ano mudou para a ABB e foi muito bom. Tem ainda o Bloco do Paraquedista Real, formado por um grupo de advogados e que realiza a sua festa no Poço da Panela (dia 11 próximo)onde ainda podemos assistir a um autêntico Carnaval, com pessoas de todas as idades, fantasiadas e aproveitando o que a vida ainda pode oferecer. Abraços de uma eterna admiradora.
Ina Melo

Susana González disse...

La identidad como pernambucano o de cualquier región no nace de la juventud, porque ellos ya evolucionaron, tiene que ser de aquellos que tuvieron esas vivencias, esto tampoco es de partidos, ni de políticos, de los naturales de las regiones, es por eso que esta bien que se levanten voces para hacer conciencia de ello. Pero no se vale solo hablar tiene que haber acciones, creo que tienes la fuerza y la calidad para ello. Adelante. Besos.
Susana González

Sonia Canavarro disse...

Girley você tem toda razão ,adorei sua postagem é a atual realidade.
Sonia Canavarro

Jussara Monteiro disse...

Jussara Monteiro Pois é Girley Brazileiro em tudo vc tem razão. Também tem razões q a própria razão desconhece, quem pensa diferente. Dou um exemplo só pra polémica, lembra do corso, hj seria inviável s/qq aspecto da vida ou lei. Há um Carnaval independente feito pelos amantes do frevo e demais sons e folclore. Anda pela Olinda desconhecida... as crianças brincam de molhar nas calçadas etc. Os roqueiros, forrozeiros sempre levaram, curtiram suas preferências em OLinda. Pífanos em Carnaval já curti. Não se cale. Cante um frevo!
Jussara Monteiro

Luiz Rodrigues disse...

É isto ai., temos que valorizar o que é nosso, respeito as nossas raízes., Vamos ver se Carpina, não vai chamar de novo Fabio Junior para animar o São Joao., é uma vergonha , muitas sanfoneiros da terra não tem esta chance. Acorda Pernambuco.
Luiz Rodrigues