quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Campeões da Indisciplina

É interessante como, no Brasil, sempre se persegue qualquer título de campeão. Até mesmo os menos recomendáveis, como foi o caso da mais recente aferição do grau de comportamento de alunos em sala de aula, através de um estudo realizado pela OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento), sobre o Ensino e Aprendizagem em vários países de diferentes continentes. A intenção do trabalho, Teaching and Learning Internaational Survey – TALIS,  foi o de coletar dados comparáveis internacionalmente sobre o ambiente de aprendizagem e as condições de trabalho dos professores. Foram pesquisados 34 países, entre os quais o Brasil, que, para variar, “saiu muito feio na fotografia”.
Tive a curiosidade de conhecer os resultados do trabalho e me detive, particularmente, no item que conferiu aos meninos do Brasil a “taça de ouro”.  A razão dessa “conquista” foi selada  com a constatação de que, em 2013, professores brasileiros afirmaram haver gasto, em media, 20% do tempo disponível em sala de aula para manter a ordem e a disciplina. Aliás, nossos meninos se tornaram, dessa vez, bicampeões! Em 2008 o percentual atingido foi de 18%. Ocorreu, portanto, uma “melhora”, quero dizer, uma piora na taxa. No Chile, também incluido no estudo, esse percentual foi de 15%. As melhores taxas ficaram com paises situados por trás da antiga Cortina de Ferro, entre os quais Polonia, Romenia e Bulgária, com percentuais medios de 8%. Compreensivel, aliás. Já andei por aquelas bandas e me recordo das carinhas tímidas da meninada se dirigindo às escolas. Faço ideia de como sejam nas salas de aula.
Corroborando para o entendimento deste resultado, 65% dos professores do primeiro ciclo no Brasil dizem ter mais de 10% de alunos de mau comportamento. Veja que, observando bem, trata-se de um número preocupante. Cruze estes dois percentuais e faça ideia própria da situação. Diante de um quadro dessa magnitude cabe uma pergunta: que tipo de cidadão está sendo preparando para o país do futuro?
No Chile e no México, dois países latino-americanos incluídos no estudo, o mesmo percentual dos professores é em torno dos 50%. Embora ainda seja muito alto, é relativamente melhor do que no Brasil. Para que se tenha uma noção referencial, no Japão apenas 13% dos professores relataram este tipo de problema.
Acredito que esta questão de indisciplina em sala de aula é um reflexo da educação recebida em casa. Sempre achei que é no ambiente familiar que se forja o cidadão de bem. Onde não há ordem, nem disciplina, não pode haver progresso.  Claro que, no caso do Brasil e, também, dos outros dois países latino-americanos os níveis de pobreza concorrem para a desorganização das famílias e, num contexto assim, é mais difícil dar disciplina. Percebo que há muito liberalismo na educação doméstica de hoje em dia, quando tudo é permitido para não traumatizar a criança e não gerar cobranças no futuro. Nunca aceitei tranquilamente essas “modernidades”. Pais jovens administram o dilema de orientar à moderna seus filhos e desconfio que muitos estejam cometendo equívocos irreparáveis.
Achei interessante, esta semana, quando Francisco, o do Vaticano, saiu-se com um pronunciamento que causou o maior rebuliço nos meios pedagógicos e psicológicos do mundo, ao defender a tese de que uma palmadinha não prejudica a formação de nenhuma criança. E arrematou: sem violência e indignidade. Concordo e acredito que, pelo contrário, pode ensinar o que é certo e errado de modo bem pragmático. Logo apareceu alguém taxativo, numa rede social, concordando com o Papa e alertando para algo muito comum no Brasil: quem não leva uma palmadinha no bum-bum, quando criança, pode terminar colhendo uma bala fatal na juventude.
Esses indisciplinados das escolas de hoje são aqueles que foram, certamente, poupados de boas palmadas na infância ou foram criados em ambientes familiares desestruturados, como muitos, Brasil afora. Vai ver que os países em que os problemas são registrados com índices de menores monta – caso do Japão – exigem-se mais ordem e disciplina no seio da família. Bom, isto é, também, uma questão de cultura.
Depois disso tudo, lembro de um dito muitas vezes repetido pela minha finada mãe:“é do pequeno que se faz um grande”
A referida Pesquisa TALIS é bem mais profunda ao explorar outros aspectos importantes no setor educacional do mundo, incluindo as questões de formação dos professores. Vale à pena conhecer. Caso seja do seu interesse clique em: talis.inep.gov.br/talis

 Nota: Foto obtida no Google Imagens

Um comentário:

Corumbá disse...

Perfeita sua análise! Eu que trabalho com alunos oriundos de boas escolas em minha unidade de ensino, sinto que o maior problema hoje é a falta de carinho, amor e educação no lar. Como meu método é individualizado, busco e, na maioria das vezes consigo, transformar uma criança problema em um cidadão. Mas nas escolas...