quarta-feira, 25 de junho de 2014

Delírio Junino

Festa de São João somente no interior. Todo ano é assim. Além dos festejos, da pamonha e da canjica e de muito forró é, também, uma boa oportunidade para “recarregar as baterias” exauridas pelo corre-corre da cidade grande. No ar puro e mais fresco do campo e no ambiente da cultura brejeira, o corpo e a mente agradecem. Pelas bandas de lá, o dia parece mais longo e mais prazeroso deixando a impressão de que cada minuto vale por dois.
Este ano os festejos foram dobrados em virtude da Copa do Mundo no Brasil. Do cais ao sertão o mundo ficou auriverde por todos os lados. Para completar, um jogo do Brasil na mesma data dos principais festejos e a vitória sobre o selecionado da Republica de Camarões, num final de tarde, aumentou, ainda mais, a animação dos torcedores, na noite da São João, que de tanto entusiasmo apressaram as queimas das fogueiras, o puxar dos foles e o baticum das zabumbas.  Dali em diante foi um forró danado de bom – um relabucho gostoso – e uma quadrilha bem marcada que ajudaram a varar a noite e ver o amanhecer do dia. Coisas gostosas que somente o Nordeste brasileiro é especialista.
É interessante como a gente roda o mundo, visita reinos, repúblicas, protetorados e colônias, conhece outras gentes, come do bom e do melhor, coisas finas, exóticas e até mesmo repugnantes, mas, estremece quando volta aos rincões dos seus "ontens". Acontece assim comigo.
A sensação agradável de voltar às origens, sobretudo quando a idade começa a pesar mais, se torna um exercício de pura limpeza da alma. Quase uma catarse. Ver o passado através das paisagens, de um belo pôr de sol, dos hábitos e costumes, da voz macia, cantada e quase inocente do matuto, do cheiro da comida de milho no fogo e da música regional. Ah! Meu Deus! Que dádiva. (Vide fotos a seguir).




Eu nasci no Recife, mas, fui criado e educado num contínuo vai-e-vem entre a capital e o interior: da casa dos meus pais à casa dos meus avós em Fazenda Nova, distrito do município de Brejo da Madre de Deus, no agreste pernambucano. Vide foto da Vila, lá embaixo. De algum modo, finquei ali parte das minhas raízes familiares e culturais. Tenho dentro de mim, desse modo, um pouco da alma interiorana. Por isso que cada retorno se transforma num rosário de reminiscências e matasaudades. Nessas horas, como numa estância de um poema, chego a vislumbrar – tal qual numa miragem – as figuras que formataram meus saberes e comportamentos de homem adulto, que, aliás, tento passar aos meus descendentes. Tempo foi-se, tempo tem... Tempo se renova e se inova. De geração em geração as tradições e rituais são preservados e, desse modo, tornam presentes os que partiram para eternidade e que souberam ensinar como fazer uma noite de muita alegria. No meu “delírio” da passada noite de São João tive a perfeita impressão de haver visto, no lescolesco do forró e na dança da quadrilha matuta, meus avós, meus pais e meus tios. Eles se esbaldavam como no passado e depois, como num passe de mágica, desapareciam em meio a fumaça da fogueira que ardia em chamas no terreiro. Sim, porque naquela noite eles eram apenas fumaças da minha imaginação. Tempo foi-se, tempo tem. Tempo bom. Viva São João. Viva meu delírio junino.  

NOTA: Fotos da autoria do Blogueiro, exceto a primeira foto, obtida no Google imagens.

7 comentários:

José de Moraes Falcão disse...

"Girley Brazileiro, professor e amigo, li seu blog. Gostei muito. Trouxe-me à memória tempos idos de criança em Fazenda Nova, nesta época junina de frio gostoso. Lembro dos banhos de água sulfurosa e das comidas típicas nordestinas deste período junino. E lembro das histórias que meus pais me contavam sobre o hotel de seus avós ou tios avós. Contavam-me das encenações que eles, com seus familiares, faziam na páscoa e que hoje se tornou o mega evento de Nova Jerusalém. Os seus deixaram essa história bonita de Pernambuco."
José de Moraes Falcão

Vera Lucia Lucena disse...

Girley,
Adorei essa sua postagem com comentários saudosos e atuais. Adoro os festejos juninos, a quadrilha então me encanta e as deliciosas comidas da época. Nossa!!!
Vera Lucia Lucena

Ricardo Lucena disse...

Muito bom Dr.girley , para mim o São João é a melhor festa , adoro saltar fogos e ver as quadrilhas , mesmo sabendo que as quadrilhas de hoje não são mais aquelas que representam o verdadeiro espírito junino , porque eles estilizaram e recriaram bastante , parece mais uma escola de samba ( quando puder visite o sítio da trindade e lá estaram elas , com suas alegorias e adereços )

Wilma Clélia Reis disse...

Delícia ler a sua postagem que nos faz recordar os bons tempos de criança e de adolescente, quando as quadrilhas verdadeiramente matutas, eram dançadas nos palhoções feitos nas ruas onde morávamos. Era o ALAVANTU, ANARRIÊ......... Bom demais, saudades.......
Wilma Clélia Reis

Susana Gonzalez disse...

Desde luego que tus ancestros estaban ahí, no sólo es producto de tu imaginación pues uno los lleva adentro y ese día disfrutaron contigo esa fiesta tan querida. Por otro lado, darte gracias por hacerme viajar a ese lugar que me trae tan lindos recuerdos y preguntarte la fiesta es tradición portuguesa o una mezcla de razas y costumbres?Susana Gonzalez (México)

Graça Girão disse...

Excelente, abraços Graça Girão

Girley Brazileiro disse...

Amiga Susana Gonzalez, os festejos juninos foram trazidos para o Brasil pelos colonizadores portugueses. É uma tradição em Portugal festejar os Santos Antônio, João e Pedro durante o mês de Junho.
GB