sábado, 30 de março de 2013

Perdoai Senhor, eles não sabem o que fazem

Mesmo sem querer, termino bancando um saudosista. Digo isto porque quando vejo as programações festivas para o curso da Semana Santa, aqui em Pernambuco e pelo Brasil afora, fico meio que sem entender essa nova ordem das coisas. Antigamente, digo, na minha vida de antes, quando criança ou adolescente, a história era outra. Já falei disso aqui no Blog, é verdade. Mas, com o passar dos tempos, percebo mudanças radicais no pensar da sociedade e dessa turma jovem.
A Semana Santa, como a própria denominação sugere, sempre me pareceu ser um tempo de recolhimento e reflexões. Não falo de retiro espiritual! Todo cristão devia respeitar a ocasião em que se recorda o sofrimento e a morte em cruz daquele que se respeita como o Messias e Salvador. Mas não... O feriadão, como se chama atualmente, serve de ocasião para os embalos e festivais de musica e dança. Que coisa! Em São Paulo, por exemplo, vai acontecer um tal de Festival Lollapalooza, que é um negocio importado dos Estados Unidos e promete abalar a Paulicéia, que já é desvairada por natureza. Serão onze horas diárias, durante três dias, de tremenda metaleira, num espaço de centos e centos metros quadrados, a pista de corridas do Jóquei Clube paulistano, para receber milhares de fãs do Rock da pesada. E sabe quando vai começar? Em plena Sexta Feira Santa. “Senhor perdoai, porque eles não sabem o que fazem”.
Aqui, em Pernambuco, ao mesmo tempo em que as paixões de Cristo são levadas teatralmente aos palcos de inúmeras cidades – incluindo o Recife e a Nova Jerusalém – o povo sai do teatro e cai na gandaia dos forrós e shows de axés e coisas parecidas. São bandas cujos nomes já predizem tudo: Calcinha Preta, Garota Safada e Saia Rodada, entre outros tão ousados quanto. Imagino o que fazem as safadas garotas, de calcinhas pretas e rodando as saias para mostrar seus dotes físicos, aos marmanjos ensandecidos e mamados de álcool, nas evoluções que as musicas de som estridente e letras indecentes produzem. Pelo amor de Deus!
Confesso que sou meio ortodoxo, nessas horas. Tenho dentro de mim certos valores inabaláveis. É quando me considero “um cabeça dura” e conservador. Para mim, Semana Santa continua sendo uma coisa sagrada e não feriadão. Vou honrar, até o fim, os ensinamentos da finada Margarida, minha mãe. Recordo que na casa dos meus pais, quando chegava o tempo da quaresma, o cardápio era peixe toda sexta-feira. Isso durante 40 dias. Na semana da paixão, a partir do meio-dia da 4ª. Feira, a regra era severa, peixe na mesa para todos, inclusive os pirralhas inapetentes. Era peixe ou nada! Somente no Sábado de Aleluia e no Domingo da Páscoa é que a carne vermelha voltava à mesa. São preceitos e tradições que marcam a vida de qualquer individuo. Acho, inclusive, que isto é também uma forma especial de educar. Aquela liturgia e a própria dieta mudava o tom do dia-a-dia e convidava a família para viver um pensar diferente, no qual amor, compaixão e solidariedade permeavam cada gesto, cada oração e todas as atitudes coletivas, preparando os espíritos para festejar o tempo da Páscoa.
O mais curioso é que, apesar de todo cuidado de pautar o cardápio, a base de pescados, considero que terminávamos pecando pela gula. Também, pudera... as comidas da época são, de modo geral, tão apetitosas e saborosas que poucos se contentam com pequenas porções. Sou louco por um feijão e um bredo de coco. Para os que não sabem o que é isto, veja a foto a seguir. Escaldado, cozido no molho de coco é uma tentação, na certa. E o bacalhau ao forno? Com um vinho adequado, cai bem demais. O que dizer da moqueca
de peixe (foto mais acima) do vatapá e do bóbó de camarão? Peraí, assim já estou pecando por pensamentos e palavras. Jesus Cristo que me perdoe! E me livre dessas novas ordens de hoje em dia. Feliz Páscoa, minha gente!
NOTA: Fotos obtidas no Google Imagens


6 comentários:

Francy e Carlos Guttierrez disse...

Feliz Páscoa para ti e tua família também...
abs,

Alberto Bittencourt disse...

Parabéns, Girley.
Concordo inteiramente com você. A sociedade mudou muito nas últimas décadas. As famílias mudaram, os hábitos e costumes mudaram, a moral mudou. Nós, que vivemos essa transição, pois fomos criados de um modo diferente, temos que nos adequar e ser parte dessas mudança, procurando influir, através do exemplo, de modo positivo. Do contrário, como vamos olhar o futuro? Ficaremos eternamente com medo de viver.
Abraços, Alberto

Anônimo disse...

Querido e estimado Girley compartilho com o seu bom senso , porém acabei de chegar do lollapaloosa ( o tal festival de rock ) e posso lhe dizer que fui esquentar as orelhas , depois de comer em família um delicioso atum chapeado com gergelim , sou católico e compartilho a idéia apresentada , mas posso lhe dizer que voltei dos shows com a alma lavada, isso mesmo, o jargão cabe bem , fui com amigos antigos e de bem com a vida , compartilhamos boas risadas e ouvimos os " metaleiros" falando de por fim as guerras e amor sem restrição de sexo , falaram bem mal daqueles que se ocupam de cargos de poder para brincar de guerra com os povos , eu ouvi palavras bíblicas meu amigo Girley , coisa que o próprio papa se disse hoje foi somente em Italiano , postura que reprovo , afinal o Bento no ano passado não deixou passar o português de suas preces , enfim acredito em todas as formas de dizer feliz Páscoa , e é com todas elas que me identifico, paz e amor isso foi o meu domingo de Páscoa ! Abraço

maria helena disse...

Ah, que bom ver como as palavras fluem de forma espontânea e verdadeira neste seu escrito! não necessariamente concordo com a estagnação das tradições, mas gosto,e preciso ver que exiatem pesoas, como você, que de forma descontraída, e até prazerosa, dão sentido às tradições!
Acho também que o contraponto do "metaleiro anônimo " faz sentido, e deve ser considerado!Parabéns a você e ele!Maria helena

Assis Bezerra disse...

Companheiro Girley

PARABÉNS, assim mesmo, com todas as letras maiúsculas.Um forte abraço -

Assis

Regina Dubeux disse...

Bredo? Bredo ao molho de coco? Delííííícia! Outro dia ouvi, de um jovem, quando falei nessas folhas: "Bredo? Quéquéisso?". Na minha 'vida passada', bredo passou pela nossa mesa: Mamãe sempre preparava, com coco, para acompanhar peixes. Sim, naquele tempo, lá em casa, também era como na sua de outrora. Essas comemorações de Páscoa são curiosas: Na sexta-feira, luto (embora para poucos); no sábado (dito de Aleluia), haja carnaval. Bem, bem... já não é tanto assim, pois já na sexta o povo 'tá nem aí pro significado do evento'. Nos festejos de Momo, o contrário (ou quase): Primeiro, a festança, comilança, bebança. Dia seguinte, 4ª feira: As cinzas. Ah, peraí, na 4ª tem ainda o Bacalhau do Batata... que ninguém é de ferro. Ser tradicional não é ser retógrado, você sabe. É incorporar valores modernos sem aniquilar os herdados de nossas histórias. Gostei do texto. Acho que muitos pensam assim como você. O diferencial é que você escreve. E divulga. E a gente gooosta!