sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Orgulho de ser Pernambucano

O carnaval está aí, novamente. E o Brasil continua sendo o império da folia. Neste país, comumente se diz que o ano só começa depois do carnaval. Tem gente que leva isso a sério e faz o maior “corpo mole” até passar o tríduo momesco, que, por sinal, já deixou de ser tríduo para virar bimestre. Janeiro e Fevereiro são meses quase que perdidos. Pode ser bom para quem faz a vida com a folia. Mas que o país perde alguma coisa com isto, me parece claro.
De fato, carnaval é bom demais para quem tem resistência e vontade para deixar rolar. Já fiz muito disso. Mas, eram outros tempos. Hoje a coisa é mais gigantesca, violenta em certas horas, virou um grande negócio comercial e uma forma bem elástica para quem governa meter a mão na chave do cofre e tirar uma casquinha. Às vezes um cascão...
O carnaval do passado – há 30 ou 40 anos – era mais autêntico e, principalmente, correto com as tradições locais. Os festejos de Pernambuco sempre foram tidos como sendo os melhores e maiores do Brasil. Bairrismo, é claro. Coisa de pernambucano. Contudo, é de se considerar que havia alguma razão, dadas a animação reinante e o cuidado com os valores da terra. Claro que entendo que sempre se pode melhorar e inovar em tudo por tudo. Mas, fazer vista grossa ao abandono das tradições, não se admite. É o que observo nos anos recentes. Andam importando musicas e ritmos alienígenas e marginalizando os valores locais, com a mais completa tranquilidade. O famigerado Recifolia – extinto, graças a Deus – formou uma geração ligada num tal de Axémusic, que pode ser bom na Bahia, mas frustrou a divulgação da musica pernambucana. Tenha dó...
Pernambuco é de uma riqueza monumental, em termos de ritmos. Segundo estudiosos do assunto, existem aproximadamente 40 diferentes, contando com as variações de batuques, maracatus e frevos. O estado tem sido laboratório de muitos pesquisadores, sociólogos e antropólogos estrangeiros que aportaram nos nossos costados, ávidos por ver de perto e estudar o som e o passo rasgado do frevo, o batuque do maracatu, a dança ritmada dos cabocolinhos, o rufar dos tambores, entre outras manifestações típicas de Pernambuco. Lembro-me da norte-americana Katarina Real (1927-2006), que de tão fascinada por tudo, montou no Recife, entre os anos 60 e 70, sua segunda moradia. Divulgou o nosso carnaval e, particularmente, o maracatu nos quatro cantos do mundo.
O que se vê hoje é um escracho geral e a sabotagem das nossas tradições. Tem coisa mais idiota do que trazer artistas do sudeste e do exterior para animar um carnaval que, na sua essência, é a própria animação? Só mesmo sendo coisa da PTrália que deu as ordens durante doze anos. Falta total de conhecimento da cultura local. Também pudera... não podia ser de outra forma. A ignorância é chave da decadência cultural. Recuso-me a vivenciar uma farsa dessa magnitude. Nos últimos tempos, a cada carnaval me mando para bem distante. Não faço falta alguma, sei muito bem. Mas me preservo de testemunhar este blefe cultural.
Poré,m, como as coisas mudam e há sempre um fila andando, espero agora algo corretivo dessa nova administração municipal. Tenho prá mim que a equipe tem consciência da insensatez. Neste carnaval dizem que ainda não foi possível mudar a estratégia. Vou aguardar o próximo ano. Espero que não convidem Preta Gil, que, segundo li na imprensa, fez um show horrendo e pornográfico, no Bal Masquê (pobre Bal Masquê, quem te viu e quem te vê), nem Jorge Ben Jó que morgou a festa do Baile Municipal, deste ano, e tomou uma vaia. Claro! Esses artistas podem ser bons noutros contextos. Respeito todos eles. Mas, para animar o carnaval do Recife? Isto é o que chamo de piada de mau-gosto. Burrice explicita. Quem tem ideia desse tipo, devia ser convidado a um curso intensivo de sociologia, antropologia e ler sobre cultura pernambucana.
Saudosismo? Que nada! Fidelidade às tradições locais. É assim que se faz em qualquer sociedade civilizada. Trazer valores de fora é ser colonizado. Claudias e Ivetes? Outra hora, o ano inteiro se presta para elas. Tudo isso, sem falar nos cachês superfaturados. Mas, isso é assunto para o Tribunal de Contas do Estado. Tenho orgulho de ser pernambucano.

NOTA: Fotos obtidas no Google Imagens

5 comentários:

Regina Dubeux disse...

Olha, Girley, eu, pernambucana, recifense, nunca fui muito de carnaval. Passei muitos carnavais em praias distantes (quando ainda existia isso) e outros carnavais em casa mesmo, lendo e, mais recentemente, assistindo filmes em dvds. Compreendo perfeitamente sua crítica em relação a essa tola mania de se prestigiar artistas de fora que, aliás, faturam uma grana para eles. No item Preta Gil, achei que foi um deboche ela participar do Bal Masqué (eu nem sabia disso). Quanto aos outros artistas, entendi seu recado: Nos devidos contextos, podem ser apreciados. Mas não são necessários para abrilhantar o carnaval de Pernambuco. Pelo contrário, são dispensáveis. Sim, esperemos que a nova administração da cidade, que parece estar começando muito bem (viu os cuidados com a segurança e a proibição de vários palanques na rua Imperial? Merece os parabéns!). Sua crítica a essa tola mania de se prestigiar gente que, por sinal, não nos prestigia, eu a estendo ao Teatro de Fazenda Nova. Nunca houve um Jesus como o nosso Carlos Reis, e, depois, o Pimental, nem um Judas e o Diabo como o genial e inesquecível melhor ator do Brasil, o Clênio Vanderlei, que fez os dois papéis. E, também ninguém jamais interpretou Maria (mãe) e Maria Madalena (companheira) de Jesus, como a grande Diva Pacheco, recentemente falecida, esposa do idealizador e criador, por anos a fio, do Teatro de Fazenda Nova, o jornalista Plínio Pacheco, um gaúcho que caiu de paixão por Pernambuco. BOM CARNAVAL PRA VOCÊ, LONGE DO CARNAVAL ESTILIZADO DO RECIFE.

J.Artur disse...

Estimado Girley, durante tempos fiz ouvido de mercador às deteriorações da cultura pernambucana, culpando o tal conflito de gerações. Ora, essa coisa de “no meu tempo” é saudosismo, falava para os meus botões. Estou é com inveja da juventude, do alto dos meus 60 e poucos anos. Até que me deparei, em Buenos Aires, com uma estampa de camisa que me remeteu à realidade. "Yo no tengo 60 años. Tengo 18 con 42 de experiencia". Como já passei dos 60, resolvi acrescentar 9 aos 42 e entender que a somatória de tantos anos vividos nos dão, a mim, a você e a todos os “experientes” que lhe leem a autoridade para criticar essa esculhambação que vemos em todos os tipos de festas, comemorações e baladas. Dancinha da Garrafa fazendo sucesso é dose para elefante. As piriguetes com os peitos e bundas de fora nos palcos da TV é assistido por adolescentes que passam a achar normal.
Parabéns por mais esta denúncia contra a derrocada de tanta tradição pernambucana. Desculpe texto longo. Finalizo. Se o Stanislaw Ponte Preta fosse vivo estaria babando com tanta munição para o catálogo que montou na década de 60: FEBEAPÁ – Festival de Besteira que Assola o País.
José Artur Paes

Girley Brazileiro disse...

Amigos Regina e José Artur,
Fico satisfeito com os depoimentos de vcs dois, porque assim fico sabendo que não estou sozinho nessa visão critica. Obrigado pela interatividade.
GB

Carlos godoy disse...

Estimado Girley, o que vem acontencedo com a importação de artistas para o carnaval de Recife, se estende para todo o território pernambuco. Brinco carnaval a 10 anos em Pesqueira e com a eleição de um novo prefeito tinhamos esperança de não vermos essas bandas de meia tijela que existem por ai. O Governo Estadual bancou atrações como Spock, Marron Brasileiro, Almir Rouche, Cristina Amaral,Nonô Germano, etc e a Prefeitura ficaria de pagar os musicos que acompanhariam os blocos que saem à noite, em sua maioria de jovens e para nossa surpresa só querem bandas de axé vindam do sul da Bahia e interior de Alagoas e Sergipe. O que salva o carnaval de rua são os blocos que saem entre as 10 e 20:00 horas, como Nação Rubro-negra, Nação Tricolor, Alvi-rubro em Folia, Os Apaixonados, O Resto, entre outros e principalmente O Lira da Tarde que nos três dias que desfila chega a arrastar mais de 6.000 pessoas tocando o nosso querido frevo.

Parabéns,

Godoy

Jussara Monteiro disse...

Girley:

Primeiro, parabéns pela cronica.

Carnaval de rua, aos meus olhos e sentir, escancara a essencia de que na anarquia há uma organização silenciosa. Basta ficar um tempo parado a prestar a atenção no vai-e-vem dos folioes em Olinda,Recife Antigo,Bezerros e perceber imediatamente que exite movimento pra tudo e todos, alguns estão por lá como se estivessem nas festas do interior, a passear com seu traje preferido, ver pessoas, se comover simplesmente, por ser partícipe de uma grande confraternização. O mais fabuloso pra mim é a sensação que a rua é minha, é nossa.
Mesmo há vinte anos atrás, havia rejeição a sons e demonstrações culturais em Olinda que não fossem considerados pernambucano. Mas se o carnaval daqui se caracteriza principalmente pela participação popular e espontanea, não precisamos temer a vinda de artistas do brasil. Quando me deparo com Milton Nascimento das Minas Gerais, vivemos o carnaval nos palcos da vida. Se for Caetano cantando, belamente, na rua bom jesus, em conjunto com o bloco da saudade, com poderia reclamar que a Bahia invadiu o nosso carnaval. O pernambucano tem sim uma disputa com a Bahia e precisa lembrar que esse sistema de trio, nasceu aqui há muito tempo , um caminhão a cantarolar um frevo com o objetivo de realizar uma propaganda de refrigerante saiu pelas ruas do Recife e seguiu seu roteiro pelo nordeste e quando chegou em Salvador, era perto do carnaval , chegou e ficou. Tanto é que a música diz: o frevo que é pernambucano, sofreu ao chegar na bahia. Eu não sou chegada ao axe, apesar de algumas músicas que Ivete e Daniela Mercury cantam me agradam. Mas cabe de tudo no nosso carnaval. A gente canta nos bailes as machinhas do carnaval de outrora do Rio. A gente canta até música de Padre Rossi. Como passar um carnaval sem gritar Tim Maia pros ou nos quatro cantos, "não quero dinheiro, eu só quero amar". Em Olinda já cantamos Dalvanira na janela, refrão de uma propaganda de casa de tecidos. O que não podemos é abandonar é deixar morrer as coisas daqui. Somar, sempre.
Agora o inaceitável é o carnaval particular que nossas autoridades fazem, com o dinheiro público e tomando o espaço público pra si e pros seus. Inadmissível mesmo é o crescimento de camarotes.
Não devemos esquecer que a arte, a música os festejos populares são similares e contém também características próprias de cada cultura, mas no fim tudo se entrelaça. O mundo através da arte é pequeno, é um só, não precisava da tecnologia pra nos mostrar, a internet só agiliza essa percepção.
Pois bem, voce que um bom conhecedor e defensor da nossa cultura,deve conhecer o maestro forró que veio de um bairro popular do Recife, com uma forma toda especial ao apresentar-se com a sua orquestra. Não precisa ir muito longe, prá ver que de uma maneira ele reproduz, até onde pode, o Grande e novo Maestro Dudamel da Venezuela. Prá mim seria uma honra assistir no Marco Zero, o venezuelano abrir o carnaval do Recife em conjunto com o nosso maestro local (seu discípulo, imagino)
Acho que iria gostar também.
Abraços
Jussara Monteiro
Recife.PE.Brasil