sábado, 28 de janeiro de 2012

Recife: Mala Pesada

A tarde da sexta feira (27.01.12) caia, com um sol dando “até amanhã”, indo brilhar noutras latitudes e longitudes, quando estacionei meu carro no bairro do Recife Antigo. Comigo, meu hóspede argentino (amizade antiga), ávido por retornar (ele já morou no Recife nas décadas de 80 e 90) à Rua do Bom Jesus. Avisei da decadência, mas lembrei-me da Embaixada dos Bonecos Gigantes – que ainda não conhecia – e pensei em tomar um café, ou talvez, uma caipirinha, num dos poucos restantes na área.
Pura ilusão... O que encontramos foi um clima de tristeza e abandono, pior do que eu antes descrevi.
A antiga área de glamour e alegria dos anos 90, (Vide foto a seguir) um dos principais pontos de atração turística da cidade, deu lugar a um ambiente lúgubre, descolorido e sem qualquer motivação para um turista que visite o Recife. Vimos um enfileirado de portas fechadas, inclusive a citada Embaixada, causando, além de estranheza, um sentimento de frustração do meu ciceroneado (Vide foto a seguir). Tentando remediar o irremediável, tive a idéia de convidá-lo para um maltado no Galerias, sobre o qual falei e descrevi a história, agora relocalizado no final da rua, defronte à Praça do Arsenal. Outra surpresa me pega “pelo pé”. Desapareceu! No lugar do Galerias temos agora um Bar Fiteiro! Tudo bem, o Fiteiro já tem um nome para garantir sucesso. Mas, o desaparecimento do Galerias e o maltado mais famoso da cidade é fato a lamentar. Está lá um sinal vivo de uma cidade que apaga sua história num “abrir e fechar de olhos”. À distancia vi que outra casa que marcou época na área, uma cervejaria na Praça do Arsenal, estava também às moscas e, duvido que esteja por lá quando da minha próxima visita. Num inicio de noite – pleno happy-hour – de uma sexta feira de janeiro... época de alta temporada. Sinceramente, é desencantador. Atravessei a rua e, talvez tentando iludir meu convidado, entrei numa loja de artesanatos. Numca vi tanta desarrumação em termos de exposição dos produtos. Estes, por sua vez, de baixíssima qualidade, além de gosto duvidoso e preços absurdos. Sem comentários.
“Arrastando uma pesada mala” bati retirada, desviando do lixo e mau cheiro das sarjetas da artéria, pedindo desculpas, ao meu amigo, pelo fiasco do nosso tour. Interessante é que, retornando ao ponto do estacionamento, observei outras pessoas – com ares de turistas – buscando visualizar e conhecer a famosa Rua do Bom Jesus. Tenho certeza que saíram, também, decepcionadas
É isso aí minha gente. O que vimos ontem é o retrato fiel de um Recife abandonado. Nossa bela cidade sofre pela irresponsabilidade dos administradores de plantão, que, ao invés de administrar a cidade, se dedicam de corpo e alma às futricas politiqueiras, esquecendo a responsabilidade que têm, enquanto governantes. O povo precisa ver isto, meu Deus!
É inadmissível o que se fez com o Recife Antigo. Como pode um projeto tão bem sucedido ser asfixiado, por uma determinação política espúria calcada num principio estúpido, que reina neste país, de paralisar ou destruir qualquer iniciativa de um ex-executivo opositor, ainda que provado e aprovado como bem sucedido. Foi isto que levou ao fim, o projeto do pólo turistico e valorização do conjunto histórico da Rua do Bom Jesus.
Fico admirado com a falta de sensibilidade e competência desses nossos administradores municipais, embora não cause surpresa para a maioria esmagadora dos munícipes, haja vista para o estado geral da cidade, nos itens, limpeza, mobilidade, saúde, segurança, entre outros aspectos. O abandono do capitulo turismo é, apenas, um detalhe a mais.
Já ouvi, várias vezes, conhecidos de outras cidades brasileiras criticarem a falta de atrações noturnas no Recife. As culturais existem. Mas, são mal cuidadas e a noite o turista fica sem opção de diversão. Emendam lembrando que nas outras capitais nordestinas – todas, sem exceção – existem bares e restaurantes, inclusive na orla marítima, próximas a rede hoteleira. Muitos desses com apresentações de shows com valores locais, rendendo significativos resultados para os nativos e incrementando o sucesso do turismo. Em Fortaleza, por exemplo, os humoristas fazem a festa dos visitantes. Às vezes são coisas batidas ou sem expressão, mas, mantêm suas casas cheias. Bom para eles e para o visitante que chega sempre catando atrações. Já no Rio G. do Sul ninguém sai sem comer um bom churrasco ao som das rancheiras e danças típicas. No Recife, porém, o visitante entra e sai sem encontrar um lugar para comer um arrumadinho, assistindo a uma boa demonstração de frevo e maracatu. Quanta burrice...
Atenção pessoal! 2012 é ano de eleições. Vamos mudar para ver se aparece alguém com melhor noção das coisas. Atualmente, Recife é “a mala pesada” de um turista.
NOTA: Fotos obtidas no Google Imagens

4 comentários:

Baiano disse...

Amigo Girley,
Em outra publicação de seu Blog você disse algo com "cachaça e puta não combinam com os novos tempos".... Não me lembro direito da frase mas referia-se a decadência do Recife Antigo e dos frequentadores antigos do bairro.
Não sei se é só isso mas, estive recentemente em Salvador, minha cidade natal, com todos os meus filhos. Passeamos bastante indo aos locais mais tradicionais de visitação turística: Farol da Barra, Porto da Barra, Pelourinho, Elevador Lacerda, Mercado Modelo, etc. Em todos eles, vi, para minha alegria, um traço comum: Salvador sabe e está estruturada para receber o turista melhor que Recife.
Ainda está a quilômetros de distância que vi em Londres, ainda falta muito mas, comparado ao Recife, está muito melhor.
Mas não é só o Recife Antigo que está abandonado e sem vida noturna. A Av. Boa Viagem também está. Os famosos "barzinhos" da orla acabaram todos. Me refiro, ao Castelinho, ao Barril, e, principalmente, ao Veleiro.
Na minha visão, a decadência da vida noturna do Recife tem elementos de solução pública como incentivos fiscais, iluminação, policiamento ostensivo, estacionamentos seguros e adequados e, principalmente, educação para o turismo.
Só assim, o Recife Antigo e outros locais voltarão a ter o glamour de antigamente.
Abraços,
Baiano

Assunção (Sunça) disse...

Girley, boa tarde-
Li o excelente texto sobre Recife: Mala Pesado e o partilhei com
pessoas amigas, que inclusive, trabalham no processo decisorio da
Municipalidade.
Compartilho com a sua frustacao e em particular, com expectativa
frustada do nosso amigo. A saida e leva-lo no Bar Marola em Olinda,
Creperia, Bar do Veio , dentre outros.
E no Baile do Eu Acho e Pouco, ele vai esquecer o passeio da sexta
feira pp. Vai absorver a alegria e o colorido que o nutrira durante
a sua estada e por muitos meses apos o seu retorno.
Grande abraco com o meu carinho extensivo aos que estao bem juntinhos de voce.
Sunça.

Joe disse...

Falta de política pública e péssima atuação dos empresários que ficaram na mesmice, se repetindo nos tira gôsto e nos preços caros. Além disso só bar não sustenta um local por muito tempo. Acredito que a breve inauguração do Centro Cultural da Caixa, junto com o Instituto Santander e com o Centro dos Correios vá dar uma outra vida a Rua. Tem ainda a reforma dos armazéns do Cais. Museu do Artesanato, Centro Cultural etc possa reverter a nossa tristeza atual.
Pra beber no Recife Antigo só na rua da Moeda.
Um abraço Joe

Ataliba Gonçalves disse...

Prezado amigo Girley
A comprovação do que você apresenta em seu Blog eu, na prática, já tive algumas vezes não com Argentinos, mas com um casal francês e outro de Portugal, além de familiares de Porto Alegre ´RS - que se hospedaram em minha casa e, claro, quizeram conhecer as "belezas do Recife".
Fui salvo por algumas praias e pela beleza do que os Brennand oferece (devo ter ido umas 15 vezes aos castelos). Claro que não descemos do carro no Recife Antigo nem em outros lugares da cidade em que predomina o abandono e o lixo, pois não queria passar aos meus hóspedes essa imagem que você falou.
Conversando com uma pessoa muito interessante e que me lê em cópia, o qual conheci no último evento empresarial do GERE, e que é Gestor de Educação Ambiental e Agenda 21 - Secretaria Estadual do Meio e Sustentabilidade - SEMAS - dizia a ele da minha preocupação quanto á Copa do Mundo aqui, principalmente quanto à recepção dada aos turístas pelo povo em geral e pelo que poderíamos oferecer.
Preocupa-me sim a falta de educação que atinge grande parte da população, independente de grau cultural ou status financeiro, eis que canso de ver pessoas de posses em seus carrões do ano colocarem nas avenidas lixo puro, atirando de seus carros copinhos, material plástico e até latas de bebidas como uma que atingiu a lateral do meu carro na Av. Agamenon, isso para não falar dos flanelinhas que sem nenhum aviso prévio v~em jogando água no parabrisa do seu carro, esteja ele limpo ou não...Incrível que isto ainda exista em pleno 2012.
Bem, isso preocupa e, sem dúvida, como já disse em um "poema" intitulado - Ode ao Recife - "Recife é uma linda mulher apenas maltratada por alguns que nela vivem e cujo trato mereceria maior carinho pelo poder público."
Enquanto isso ficarei a mostrar algumas belas praias e as obras de Brennand com seus lindos castelos e, no outro lado, a arte das esculturas das Oficinas Brennand.
Abraços
Ataliba Gonçalves