Passada a noite de folguedos restou-me circular pelas redondezas e rever a paisagem e a gente dos nossos antes. Oi, Dona Hilda! Como vai Seu Mané? Dona Rosa, a Senhora tá boinha? Tô sim sinhô! Vou levano, né?! É uma graça.
Mas, a parte mais divertida e imperdível é ir ao Brejo da Madre de Deus, 20 km. à frente, no sábado, quando é dia de feira. Nos interiores do Nordeste, dia de feira é dia de festa. O povo se arregimenta e vai às ruas para vender, comprar, fazer o footing e debulhar as fofocas mais fresquinhas. É sempre um alvoroço. Principalmente como no Brejo, que é uma cidade sem muito “o que fazer”. Tem menino, correndo pra todo lado e entre as pernas da gente, tem jovens e velhos, mocinhas casadoiras, vitalinas (donzela velha) atrás dos bestas encalhados que se habilitem a fazer uma caridade e marmanjos paquerando as menininhas saracuteadas, cada vez mais numerosas, nos dias de agora. Fala-se de uma vitalina que faz a feira, propriamente dita, ao raiar do dia e volta prá casa, toma banho, se perfuma, bota pó e rouge e corre prá feira, no auge do movimento, para cometer a incansável caçada.


Acompanhado de um irmão, com imenso prestigio político no pedaço, fui parando a todo instante, que nem cavalo de bêbado. “Cuma vai Doutô? Deixe eu passar a mão nas sua costa...” “Oi meu fio” – falando comigo – “esse seu irmão é uma benção de Deus cá prá noisi. Veja só, eu inté aliso as costa dele pra mode me sentir mió...” Parei e fiquei admirando a pureza daquela gente. E orgulhoso do irmão...
De repente, vejo-me diante de um cidadão metido num macacão sujo de tintas de todas as cores, simpático e muito falante. Meu irmão me apresenta e diz que se trata de um dos mais atuantes vereadores da cidade. Claro que fiquei surpreso. Um vereador, com trajes de trabalhador! Quem já viu? Vestido daquele jeito... Manifestando prazer em me conhecer, foi logo me dizendo que era especialista em alongar os Jipes Toyotas, para transformá-los em potentes lotações, muito comum naquelas bandas. “E como você exerce o papel de vereador? O salário de vereador, não é o bastante?” Perguntei curioso. “É simples doutô: eu ganho Cinco
Mil por mês na Câmara Municipal e gasto o dobro com meus eleitores... Não posso deixar de trabaiá meus toyota... num vou morrê de fome, né”
Mais adiante fui apresentado a um velho político que, em dois minutos, deu a receita infalível de como fazer política no interior. Aliás, lembrou muito meu avô, antigo chefe político da região, ao afirmar que “quem não aparece, desaparece”, ao criticar o sumiço de um dos mais fortes candidatos a prefeito da cidade. “O povo quer esse homem, mas, ele parece que não quer o povo!...”
No final da circulada escutei de um popular uma verdadeira bomba, ao afirmar que correm rumores de um mensalão brejense. Já pensou?! O vereador da oposição que, na Câmara Municipal, guardar silêncio e não perturbar o atual prefeito ganha – por fora – o tanto que ganha por dentro. Pelo visto, a paisagem matuta não está tão matuta assim... Êita, que tá tudo estragado...
NOTA: Fotos do Blogueiro
2 comentários:
Girley amigo, gostei demais dessa postagem. Deliciosa sua maneira de descrever a paisagem interiorana nordestina. Achei otima a do mensalão. KKKK
Abraço,
Eduardo Marques
Também senti o nosso ambiente (ainda) interiorano, apesar de maculado pela presença dos "importados".
Girley, também gostei das fotos. É a veia artística que conheci bem...
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