segunda-feira, 11 de julho de 2011

Brasil Desindustrializado (Breve)

Na semana passada vi num jornal de economia, editado em São Paulo, uma noticia muito preocupante: os metalúrgicos das grandes montadoras de veículos brasileiros cruzaram os braços por dois dias. Dessa vez, não estão querendo aumento de salários, redução de jornada ou algo corriqueiro. Pasmem, estão reivindicando algo inusitado: o fortalecimento da indústria nacional. O argumento tem sua lógica e decorre do visível processo de desindustrialização do país. A moçada do chão de fábrica, no ABC paulista, está se pelando de medo de que as montadoras resolvam mudar, de vez, suas plantas para a China, onde o custo da produção é infinitamente menor. Segundo o noticiário, um líder sindical paulista, que voltou recentemente de uma visita a matriz da Wolkswagen teme que a empresa passe a importar invariavelmente itens produzidos na China. “Um terço da produção mundial da Volks já está na China e a tendência é chegar rápido à metade”. O tal sindicalista vaticinou que “aí, não sobrar sequer parafusos pra gente apertar”. O rapaz tem toda razão e o Governo brasileiro precisa abrir os olhos. D. Dilma tem que agir rápido.
Uma das coisas que constatei, numa recente viagem à China e visitando a monumental Feira de Cantão, é que os chineses estão empenhadíssimos em duas coisas: primeiro, acabar de vez com a péssima fama de que todo produto chinês é mal-acabado de baixa qualidade e, em segundo lugar, estabelecer parcerias com empresas estrangeiras para produzir na China. Claro que por trás disso está o compulsivo objetivo de vender, cada vez mais. Eles têm a “faca e o queijo” nas mãos, por conta dos assombrosos baixos custos da produção. Haja competitividade. Não é mesmo? E, para competir com eles, só a eles se juntando. Meio mundo já descobriu esse “pulo do gato”.
Na indústria automobilística essa coisa está dando certíssimo. É impressionante, por exemplo, a beleza e qualidade dos veículos da Great Wall. Parei diante do estande da empresa, na Feira de Cantão, e mal pude acreditar. Pense num troço deslumbrante. O acabamento interno do modelo exposto, em couro branco e madeira, era de babar. E, agora, saiu um modelo denominado Brillance 530 (dê uma espiada na foto a seguir), fabricado por uma montadora chinesa em parceria com BMW que é simplesmente espetacular. Não podia, creiam, ser diferente porque os desenhos dos carros chineses estão sendo bolados, na maioria das vezes, em parceria com quem sabe fazer a coisa, no Ocidente, que no

final das contas é o melhor mercado dos produtos chineses. Os italianos estão dando banho de design nas terras de Mao. Para completar, todo dia estou sendo impelido, a bordo do meu sofá, pelo Faustão na TV, me aconselhando comprar um automóvel JAC, completo, sem essa de opcionais à parte e com inacreditáveis seis anos de garantia. Desse jeito, não tem quem segure. Fico olhando a revestrés ... e já me balancei pelo negócio. No futuro, quem sabe?
Tudo isso, minha gente, expõe de modo assustador a ameaça que, atualmente, sofre a indústria brasileira em geral, não apenas a automotiva, de ser abatida por um franco processo de desindustrialização. Não é à toa o que os metalúrgicos do ABC estão fazendo e que essa discussão cresça, rapidamente, no meio empresarial brasileiro.
Diante disso só nos resta fazer coro com os que cobram as reformas tributária e trabalhista tão demandadas pela Nação. Será que essas gente dos legislativo e executivo não enxergam o perigoso e ameaçador fosso que se abre na trajetória da indústria brasileira. Ou vão, mesmo, deixar a coisa ser reduzida ao plano das commodities? Será esse o papel que estão reservando para o Brasil? Eu toparia fazer uma distribuição de lentes corretivas para essa miopia política, nas entradas do Congresso Nacional e nas portas dos prédios da Esplanada dos Ministérios.


NOTA: A foto do Brillance 530 foi obtida no Google Imagens.

9 comentários:

Anônimo disse...

É isso aí meu amigo Girley. Temos que ficar de olho aberto. O Brasileiro compra compulsivamente produtos de baixo preços, nos quais os chineses são mestres. O design dos produtos chineses conseguiram melhorar de forma radical se nivelando com os produtos de primeira linha classe mundial. A qualidade ainda é um problema a ser resolvido. Os fabricantes chineses são importados por diversas empresas e apelidados com marcas diferentes, mas a qualidade ainda deixa a desejar. Porém quando o produto é produzido na China por uma empresa multinacional ou de grande porte, esta passa a ter o controle de qualidade, cuidando para manter os seus padrões habituais, reduzindo o risco de comprarmos gato por lebre. Ao meu ver o Brasil tem que agir rápido para não sucatear o seu parque industrial: trabalhando internamente para reduzir tributos e impostos visando tornar os nossos produtos mais competitivos em preços; passar a trabalhar a comunicação de forma institucional para criar um selo de garantia da indústria nacional de qualidade à exemplo do café da Colômbia; ou se juntar ao "inimigo", passando a produzir na China, como fez a Tramontina e centenas de outras empresas, beneficiando-se do baixo custo de produção, além de cuidar atentamente da qualidade dos seus produtos. Para finalizar, o caso da JAC Motors é muito bom, mas não adianta dar 6 anos de garantia, se os automóveis passarem a maior parte do tempo na oficina autorizada para troca de peças. Porém se isso não acontecer e os carros da JAC Motors, ajudado pelo aval do Faustão e da Globo, realmente forem bons, estaremos mais uma vez assistindo um novo player conquistar a liderança de mercado na venda de veículos automotivos, como fizeram os Alemães, os Japoneses e os Coreanos no mundo. Agora é a vez dos Chineses.
Artur Reis
artureis@oi.com.br

Artur Reis disse...

É isso aí meu amigo Girley. Temos que ficar de olho aberto. O Brasileiro compra compulsivamente produtos de baixo preços, nos quais os chineses são mestres. O design dos produtos chineses conseguiram melhorar de forma radical se nivelando com os produtos de primeira linha classe mundial. A qualidade ainda é um problema a ser resolvido. Os fabricantes chineses são importados por diversas empresas e apelidados com marcas diferentes, mas a qualidade ainda deixa a desejar. Porém quando o produto é produzido na China por uma empresa multinacional ou de grande porte, esta passa a ter o controle de qualidade, cuidando para manter os seus padrões habituais, reduzindo o risco de comprarmos gato por lebre. Ao meu ver o Brasil tem que agir rápido para não sucatear o seu parque industrial: trabalhando internamente para reduzir tributos e impostos visando tornar os nossos produtos mais competitivos em preços; passar a trabalhar a comunicação de forma institucional para criar um selo de garantia da indústria nacional de qualidade à exemplo do café da Colômbia; ou se juntar ao "inimigo", passando a produzir na China, como fez a Tramontina e centenas de outras empresas, beneficiando-se do baixo custo de produção, além de cuidar atentamente da qualidade dos seus produtos. Para finalizar, o caso da JAC Motors é muito bom, mas não adianta dar 6 anos de garantia, se os automóveis passarem a maior parte do tempo na oficina autorizada para troca de peças. Porém se isso não acontecer e os carros da JAC Motors, ajudado pelo aval do Faustão e da Globo, realmente forem bons, estaremos mais uma vez assistindo um novo player conquistar a liderança de mercado na venda de veículos automotivos, como fizeram os Alemães, os Japoneses e os Coreanos no mundo. Agora é a vez dos Chineses.
Artur Reis
artureis@oi.com.br

Roberto Cavalcanti de Albuquerque disse...

Girley amigo,
O sistema capitalista, o melhor, sem dúvida, tem dessas coisas. A ânsia do lucrar mais, cada vez mais, é a meta principal dos que produzem e dos que comercializam. O tiro às vêzes sai pela culatra. As grandes empresas industriais multinacionais estão com fábricas próprias na China ou terceirizando suas produções com fabricantes chineses. Com essa atitude imediatista não pensaram,talvez que os parques industriais nativos iriam minguar por não poderem mais competir com a produção chinesa. Essa coisa de que produto chinês é ruim está sendo ultrapassada a largos passos. O que foi feito pelos empresários brasileiros e pelos nossos governantes? Quase nada, podemos dizer. A grande leitura do comando executivo é sempre a do crescimento das commodities, só pensando em ser o grande fornecedor mundial do etanol, de carnes e de grãos, afora o sonho do petróleo. Para esse crescimento e desenvolvimento ficam para trás até os problemas das agressões ao meio ambiente.
O Brasil pretende continuar deitado em berço esplêndido.

Roberto Cavalcanti de Albuquerque

José Artur Paes disse...

GIRLEY
VOCÊ VAI GASTAR UMA NOTA PRETA COMPRANDO LENTES DE CONTATOS CORRETIVA DE MIOPIA PARA OS CARAS QUE SÓ ENXERGAM ATÉ A LARGURA DOS BOLSOS DAS CALÇAS...
Lembra a piadinha com ADEMAR DE BARROS:
Num comício em SP ele bradou: Nestes bolsos nunca entrou dinheiro alheio...
E o pessoal: "Calça nova... Calça nova..."
Abraço,
José Artur Paes

Cristina Henriques disse...

Girley:
Além do delicioso e lucido texto crítico,'rolei' de rir com o comentário , de José Artur, que me permito replicar por ai:
Cristina Henriques

EDUARDO MOTA disse...

CARO COMPANHEIRO GIRLEY!
VOCE TEM TODA A RAZÃO, AS NOSSAS INDUSTRIAS ESTÃO SE ACABANDO, ISTO É UM FATO.
O DESGOVERNO BRASILEIRO VEM DESDE HÁ MUITO,GETÚLIO VARGAS,SE APRIMORANDO EM FABRICAR PROTECIONISMOS PARA OS TRABALHADORES, FGTS, INSS, AVISO PRÉVIO, 13 SALARIO, FÉRIAS, DISPENSA GESTANTE,SALARIO FAMILIA, VALE TRANSPORTE E COMO SE NÃO BASTASSE INVENTARAM UMA JUSTIÇA DO TRABALHO TENDENCIOSA.
É MELHOR FICAR NA INFORMALIDADE E ESCAPAR DE TUDO ISSO.
AGORA AQUI EM PERNAMBUCO COMEÇARAM A MULTAR AS EMPRESAS QUE NÃO TEM NO SEU QUADRO LABORAL O EQUIVALENTE A 10% DE MENORES APRENDIZES.
É UMA EXIGENCIA ABSURDA PARA DETERMINADOS SETORES, COMO NA CONSTRUÇÃO CIVIL, QUE NÃO PODE ADMITIR MENORES, MESMO SE SABENDO QUE A IDADE PODE IR ATÉ 24 ANOS, QUAL A PESSOA DE 22 ANOS, POR EXEMPLO, QUE VAI SE SUJEITAR A RECEBER UM SALARIO DE APRENDIZ??
ONDE VAMOS ACHAR TANTOS APRENDIZES NA FAIXA DE 14 A 24 ANOS QUE ESTEJAM CURSANDO UMA ESCOLA TÉCNICA.
MAS, OS FISCAIS JÁ ESTÃO NAS RUAS PARA ARRECADAR AS MULTAS.
ESSA LEI ATINGE AS ESFERAS FEDERAL, ESTADUAL E MUNICIPAL??
NÃO SEI!
SE ATINGIR, PORQUE NÃO COMEÇAM A FISCALIZAR POR AÍ.
É REVOLTANTE!
É ABSURDO!
É VERGONHOSO!
VAMOS COMPRAR NA CHINA!
EDUARDO MOTA
É PRATICAMENTE IMPOSSÍVEL ADMITIR UM TRABALHADOR

Arnaldo Moura Leite Filho disse...

Parabéns Girley! Como sempre, suas observações sao oportunas e a situação cada vez mais preocupante. Há anos aguardamos a tão prometida reforma fiscal e tributaria, como também a desoneração sobre a folha de pagamento das empresas. Não sei o que será de nossas indústrias num futuro próximo, se os governantes não abrirem os olhos.

Danyelle disse...

Professor Girley
Desindustrialização não é? Já estou sabendo que o Sr. será o mediador do evento de hoje na FIEPE, a partir das 19:00 horas para quem desejar participar, será um show a parte...
De fato professor é preocupante a questão e está intimamente interligada à questão tributária, à questões trabalhistas, à competitividade...
Só para contextualizar melhor, vou contar uma conversa que tive com um taxista de São Paulo domingo passado; resumindo, o mesmo me informou que os taxistas tem incentivo fiscal para compra de veículos e um determinado modelo no qual qualquer um de nós pagaría 63 mil reais, ele comprou por 44 mil e essa diferença de 19 mil seria a fatia do bolo referentes aos impostos, que o governo pega e não investe, dificultando ainda mais a competitividade do setor; e com esse exemplo, ilustramos os demais subsetores industriais.
Tudo bem que a China seja o maior mercado consumidor do mundo, porém, na minha opinião o mundo deveria se unir para impor leis trabalhistas aos mesmos e não acabar com os direitos adquiridos dos trabalhadores. Se for uma ação conjunta de vários países talvez dê certo, pois quais seriam as retaliações ??? Vão suspender as compras de grãos do Brasil com seus respectivos custos ambientais ??? Eles precisam alimentar essa imensa população e precisam de mercado para seus produtos ...resumindo: reforma tributária urgente, imposição de leis trabalhistas aos chineses e seleção dos produtos chineses que poderão ou não entrar no país, de forma que não concorram com os nacionais ou que pelo menos concorram em igualdade de condições..
Grande abraço,
Danyelle Monteiro

Aristophanes disse...

Prezado Girley e demais bloguistas.
O seu comentário é oportuno e vale, por trazer o assunto a discussão, puxando outros. Entretanto, a “desendustrialização” brasileira, causada pelos chineses, não me assusta, por si só. É pontual e transitória. Considero, apenas, como um item a ser tratado, no capítulo das chamadas vantagens comparativas. Sempre existiram diferenças – momentâneas, ou duradouras – entre países e regiões. No caso Brasil vs China, eles são imbatíveis em alguns segmentos, enquanto nós somos em outros. Isso vale, também, para a Alemanha, para o Japão, ou para a Indonésia, num planetinha, pouco sustentável, que a cada dia diminui mais...
Felizmente, os problemas brasileiros são bons problemas, já identificados e equacionáveis: juros estratoféricos, infra-estrutura sucateada e insuficiente, recursos humanos despreparados, desarrumação fiscal e tributária, impunidade penal e, hors concours , a má qualidade de nossos homens públicos e seus partidos. Esses problemas não têm nada a ver com os chineses. São genuinamente brasileiros e só nós os resolveremos. Aos 80, são um otimista, pois já vivi tempos piores, mas tenho pressa. Abraço do companheiro de jornada Aristophanes Pereira.