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terça-feira, 20 de agosto de 2024
A vida é um Sopro
Quando criança, uma das minhas rotinas semanais, tardes de sábado, era frequentar a Escola de Catequese que funcionava na capelinha da Pequena Cruzada de Pernambuco, localizada no bairro da Tamarineira, aqui no Recife. Era divertido. Além do catecismo, havia recreação e lanches apetitosos. Desse tempo, guardo uma memória que sempre me deixou curioso e, até mesmo, intrigado ao lembrar-me que as catequistas que se revezavam nunca perdiam oportunidade de narrar, com muita segurança, que Deus, quando criou o mundo em sete dias, transformou – com um sopro – um boneco de barro dando origem ao primeiro ser humano (Adão?) e de uma costela dele criou a mulher (Eva?). Ouvindo aquilo, sempre imaginei a dor que o sujeito sentiu. Essa historia do sopro era um mistério danado na minha cabeça de criança. Nem preciso dizer que tentei dar uma de Criador – não sei se com respeito ou medo – soprando um boneco de barro que engendrei nas bandas de Fazenda Nova (PE), durante as férias, na casa dos meus avós. Acredito que fiquei decepcionado ou aliviado, com o resultado. Sei lá... Depois que cresci e que tomei conhecimento das origens e evolução do ser humano, o Homem de Neandertal etc, e tal, senti no intimo algum alivio. Saudades do inocente que fui e dos tempos bons de criança. Passou...
Curioso é que essa ideia de sopro povoou, de repente, minha cabeça de cidadão idoso, nesses últimos dias, diante de episódios que foram noticias em todas as mídias do país. O acidente aéreo no interior de São Paulo e as mortes repentinas de conhecidos levaram-me a concluir que a vida é um sopro.
Acidentes acontecem de modos dos mais diversos. Seja lá como seja, a realidade é dura e cruel. Um acidente aéreo, como o da semana passada, é sempre muito comovente, dado o número de vitimas que provoca. Acompanhei com imenso pesar todas as reportagens da tragédia e senti como se fossem pessoas conhecidas. Habituado a voar por toda minha vida e tendo filhos que vivem no ar (um deles viajou, dia seguinte, numa aeronave idêntica ao do acidente em São Paulo e outro já voou, até poucos meses, mais de um milhão de quilômetros), batem forte na minha cabeça de pai e avô dedicado. Dói-me lembrar que, como num sopro, aquelas pessoas que faleceram no acidente sentiram, seguramente e com pavor, o fim da vida num instante. Assim como num sopro. Simples e doloroso. Quantos sonhos e projetos foram deletados naquele sopro. O que dizer do jovem casal que se dirigia a um longo estágio num país da Europa? E do casal de idosos que iam visitar um neto recém-nascido no Rio de Janeiro? Da professora que retornava de uma missão no interior paranaense? Não há respostas! Muito difícil de entender. Falha humana é o que alguns dizem. Nesses casos a culpa tende ser sempre do piloto. Maldade. Foi desse modo que concluíram o processo sobre o avião da Air France que mergulhou na costa brasileira, anos atrás. O profissional, por mais competente que haja sido considerado em vida, termina sempre sendo apontado como culpado. Parece ficar bem mais fácil, para os legítimos culpados, do que procurar apontar os verdadeiros responsáveis. Pior ainda quando já surgem narrativas mais honestas e dão conta de que a empresa aérea paulista não vem procedendo as revisões e manutenções regulares das suas aeronaves. A primeira versão, inclusive, de congelamento da fuselagem prejudicando a sustentabilidade do voo pode, muito bem, ser considerada como uma prova dessa má administração da empresa. Os inocentes pagando com suas vidas a incapacidade de manter uma empresa no ar. Mundo cão!
A vida não passou de um sopro, também, para meu amigo que se engasgou com algum alimento, no café da manhã de ontem, vindo a óbito ali à mesa. Pense na situação. Cidadão vivo e bulindo e, num átimo, ser dado como morto. Desesperador. Pior foi saber que muitos são promovidos à eternidade desse modo. Recordo que há dois anos perdi outro amigo na hora que jantava. Esse desabou da cadeira e já caiu morto. Assustador. Já outro faleceu enquanto dormia. Com todo respeito foi daqueles casos que o povão sai dizendo que “fulano acordou morto”. A esposa desse caso, embora dormindo ao seu lado, nada percebeu e só descobriu ao tentar acordá-lo para tomar o desjejum. Feliz, mesmo,foi Silvio Santos que partiu na calma de um hospital, rodeado de familiares, nadando em dinheior e abalou o Brasil. Como diz o ditado popular “para morrer basta estar vivo”. Deus nos dê boas horas finais. Amém.
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