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sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Nem tudo são flores

Quando chega esta época do ano, aqui no Recife, os ipês da Avenida Agamenon Magalhães, se assanham e presenteiam o recifense com suas florações coloridas – amarelas, rosadas e lilases – anunciando que é primavera, mesmo com o intenso calor tropical local. A cidade fica mais bonita e festeja. Ganhando os interiores do estado, a cena se repete, seja nos vestígios de Mata Atlântica ou nas manchas úmidas dos Agrestes e Sertões. Nas terras dos meus antanhos, por exemplo, o cenário é semelhante e os ipês festejam do mesmo modo a estação. Lá, aliás, ganham outra denominação: Craibeira e têm direito a poemas e canções. Parece que estou vendo meu tio Luis Mendonça, nos idos da minha infância, dando uma de galã/cantor entoando “Craibeira, flor amarela/Quando te vejo/Me lembrou dela...” Admire as fotos a seguir.

Nesse misto de ar primaveril e reminiscências, ao volante do meu carro na Agamenon, ligo o radio e escuto abismado um polêmico debate sobre a situação de miséria dos garotos que mergulham no Canal do Arruda, zona quase central da cidade, para catar lixos e ganhar o pão.  Tudo por conta de uma espantosa foto, publicada na primeira página de um jornal local, de grande circulação, onde aparece um garoto catando latas vazias para vender no peso, atolado até o pescoço na podridão do canal. Sem dúvida, um escândalo. Triste sina desses garotos (Vide fotos a seguir). Impactado, pensei nesse outro lado da cidade, com triste paisagem. Recife, lugar onde “nem tudo são flores!”  Pasmo com o noticiário, imagino que o que se denomina de primavera deve ser uma coisa abstrata ou algo que esses garotos nunca ouviram falar. Dá uma tristeza...

Pelo debate radiofônico fiquei sabendo que a dita foto correu o mundo. A foto publicada foi a de cima. Da Europa ao Oriente. Da Austrália ao Canadá. Daqui para muito longe, a imagem gerou um escândalo. Uma amiga na Itália, assustada com a repercussão negativa da foto, apressou-se em sugerir o tema como pauta do Blog. Muitas vezes evito essas coisas, no Blog, porque expõem e depõem ainda mais o País da Copa e, sobretudo, o Recife. Mas, diante da repercussão... Imaginem que até na Tailândia a foto chamou a atenção. Sem comentários.
Perguntas que não calam: onde estão nossas autoridades que não tiram essas crianças das ruas? Onde está essa Prefeitura que prometeu tanto e ainda não conseguiu limpar nossos canais, herança indecente da PTralea? Onde estão essas mães que recebem o Bolsa Família e não leva seus filhos para a escola? Tem escola, segundo dizem, que atesta falsa frequência... Taí o resultado: catar lixo no canal podre, para sobreviver. Segundo minha secretária doméstica, que mora na mesma região do Arruda, jogam até cadáveres nesses canais. Quanta indignidade com o cidadão! Este assunto martelou-me a cabeça o resto do dia.
Dia seguinte, reuni-me com um amigo para tratar de negócios e ele me trás outro fato negativo. Decepcionado, me confessa que nunca mais volta ao Parque Dona Lindu (bairro de Boa Viagem-Recife), muito menos para assistir a alguma apresentação cultural. Motivo: o local está tomado por praticantes de skate e vendedores ambulantes oferecendo churrasquinhos, queijo assado e outros itens populares. A recente apresentação da Orquestrada Sinfônica Brasileira (patrocinada por importante empresa construtora) foi em meio a uma bagunça – no dizer do meu amigo – devido aos praticantes do skate, em evoluções tipo zig-zag , pondo em risco e tirando a atenção dos espectadores. Para completar, o ar empestado de fumaças e aromas dos assados que, seguramente, incensaram maestro e instrumentistas da Orquestra. Vejam  vocês, que coisa desagradável! Um espetáculo, como aquele, merecia melhor atenção das autoridades municipais. Se houve, ninguém sabe, ninguém viu.
Não foi a primeira vez que ouvi criticas àquela praça. Os praticantes de skate têm seu espaço próprio, mas, insistem em usar a área total. Os churrasqueiros merecem um lugar ao sol, é verdade. Mas, precisam ter ordem.  Também, falta naquele local mais gramado e mais árvores. Aquela parte pavimentada (diante do palco aberto), por exemplo, é grande demais e estimula ao uso como pista de skate e ciclovia. (Vide foto a seguir). Como nosso povo não tem noções de ordem e respeito ao próximo, dá nisso.
Diante de fatos como esses,  insisto: como faz falta uma real decisão política para dar um choque de Educação e Cidadania neste Brasil! Lástima que ainda exista governos que nem se tocam.  É duro viver num ambiente onde nem tudo são flores. Assim mesmo, salve a primavera recifense!

NOTA: Fotos do Blogueiro (caso dos Ipês) e no Google Imagens.

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Por razões profissionais tive boas oportunidades de vivenciar e interagir com o meio diplomático brasileiro, bem como de outros países com o...