segunda-feira, 15 de junho de 2015

Trambolho Internacional

O Mercosul já foi por diversas ocasiões tema deste Blog semanal. Vez por outra ocorre um episódio político ou econômico que me chama atenção e vejo-me provocado a retornar com a pauta. O estimulo é consequência das recordações que guardo dos tempos em que o Bloco  começou a ser arquitetado, durante o Governo Sarney, e da forma como pessoalmente me envolvi. Naquela época ainda na ativa como funcionário da SUDENE e exercendo cargos compatíveis com o assunto, entre os quais o de Coordenador de Cooperação Internacional, assumi missões que me conduziram a vivenciar o processo na sua efervescência inicial e cheia de entusiasmo. Foi, sem dúvida, uma das minhas melhores experiências profissionais e enquanto funcionário do Governo Brasileiro.
Tudo andou muito bem até que a atual onda populista tomou conta das repúblicas envolvidas no Grupo, desorganizando uma iniciativa que prometia fazer sucesso no mundo globalizado. Uma lástima... Mesmo porque para parceiros como Argentina e Brasil seria uma excelente estratégia para enfrentar o avassalador esquema de economias sem fronteiras, imposto pelos organismos internacionais, sobretudo os de comércio. Muitos percalços já foram observados no Bloco, sendo os econômicos e os políticos aqueles que, a meu ver, vêm engessando o Acordo. Leia mais em: www.gbrazileiro.blogspot.com/2013/06/mercosul-engessado.html   
As repercussões no Brasil têm sido desastrosas: refém do Tratado de Assunção (26/03/91) o país vê-se obrigado a “rodar feito peru” em torno de decisões antes adequadas e que, agora desvirtuadas, o impede de realizar bons negócios com os signatários do Tratado e de firmar acordos de comércio com economias mais dinâmicas e estrategicamente mais vantajosas. A coisa é simples e, para mim, está clara: são, na prática, países que pouco oferecem e, mais do que isto, atrapalham o crescimento e o desenvolvimento da economia brasileira. Justo quando, mais do que nunca, o país precisa desenganchar da crise com a qual se envolveu. Ideal seria que o país pudesse descolar rapidamente desse trambolho internacional, no que se transformou o Mercosul.  Nossos parceiros mercosulinos são muito frágeis e têm estruturas político-econômicas inseguras. A salvação seria uma Argentina forte, equilibrada economicamente e estável de ambiente político. Isto, porém, tem sido impossível. O país dos hermanos vive mergulhado numa tremenda recessão sem tempo para acabar e, além disso, sob a alegação de proteger sua produção industrial impõe ao Brasil cotas de exportação de produtos, quando na verdade devia observar o acordo da livre circulação de bens e serviços entre os dois países. Uruguai, Paraguai e Venezuela, nem se fala... Os dois primeiros são economias pequenas e pouco dinâmicas e a última, que até poderia ser uma boa parceira, não fosse a barafunda sem limites que vive. Resumo da ópera: estamos atados e sem futuro com esse Grupo.
Mas, o que me provocou para esta postagem foi exatamente a questão Venezuela, que em minha opinião ingressou no Mercosul por uma porta entreaberta, numa manobra política discutível até hoje. Minha indignação do momento: entrevistada por uma agencia de noticias alemã, semana passada, nossa Presidente, D. Dilma, saiu pela tangente, com respostas evasivas, ao ser questionada sobre seu silencio diante da insegurança política da República Bolivariana de Maduro e a falta de um pronunciamento do Bloco, particularmente do líder Brasil. O mundo está de olho naquela situação de indiscutível desequilíbrio político, repressões à liberdade de expressão e o caos de desabastecimento que vivem os venezuelanos. Esses são motivos que ferem claramente os princípios do Acordo do Bloco, conforme previsto no Protocolo de Ushuaia (24.7.98), que exige compromisso democrático no Bloco. D. Dilma fazendo “vista grossa”, respondeu de forma equivocada, com uma declaração de que não se achava no direito de interferir na política interna daquele país. Ora, ora, este comportamento é bem diferente do adotado no episódio de impeachment do Fernando Lugo, no Paraguai, em 22.6.12. Aquilo lá, além de ser visto, até hoje, como um golpe de estado, foi aproveitado como sendo uma insegurança para o Bloco e o Brasil liderou a suspensão temporária do país, sob a égide do tal Protocolo de Ushuaia. Na verdade, foi tudo apressadamente orquestrado para facilitar a entrada da Venezuela de Hugo Chávez no Grupo, o que, com razões de sobra, vinha sendo questionado sistematicamente pelo Presidente Lugo, usando o argumento da insegurança democrática no país de Chávez. Como é que um procedimento legítimo e corretivo, aplicado no Paraguai, pode ser motivo de veto, enquanto que as atrocidades que vêm sendo cometidas na república chavista, cada vez mais aMadurecida em regime ditatorial, podem ser consideradas práticas normais e sem consequências maléficas para o Bloco?
Vá querer entender essa política externa petista. Francamente.

5 comentários:

Eliana Pereira disse...

Girley Brasileiro: com um conhecimento de causa muito bom, você nos deu uma excelente aula e nos colocou por dentro dos inúmeros problemas referentes ao MERCOSUL e suas implicações "na atualidade dos tempos."
Texto de abrangentes conteúdos explicam o Título, Trambolho internacional, tão bem dado por você, como faz jus à sua intelectualidade e cultura.
Parabéns!!!! Muito bom!!!
Abraços,
Eliana Pereira

Giovanni Bosco disse...

Seus temas sempre interessam aos que se importam com o Brasil.
Giovanni Bosco

Girley Brazileiro disse...

De uma amiga querida da Venezuela recebi a seguinte mensagem: "... El gravísimo problema es que no se consiguen los productos básicos: Leche, harina, carne (tenemos 20 días sin comer carne), pollo, café, papel toilet, desodorante antitranspirante, jabón para bañarse, jabón para lavar la ropa, cloro ..... y la gente se aprovecha de esto; están haciendo un mercado informal donde revenden esos productos al triple del precio de su valor en su desesperación la gente los tiene que comprar al precio que sea!. No hay repuestos para los carros, yo tengo mi carro parado desde hace 1 año por falta de repuestos y gracias a Dios Lucho me los trajo de México y la próxima semana vendrá el mecánico a instalármelos. Todo está dolarizado....zapatos / ropa / línea blanca / y el sueldo mínimo no alcanza ni para un mercado semanal. La compra en los supermercados es por el último N° de la cédula. A mi toca comprar "los viernes" porque mi cédula "termina en 8" y solo ese día yo puedo ir a comprar en los supermercados. Entonces ese día voy a 3 supermercados y después de hacer varias horas de cola en cada uno, en ninguno consigo papel toilet, ni carne ni café ........ Te imaginas Girley? No, no creo que te lo puedas ni siquiera imaginar..."
Doloroso este depoimento.Já estive na Venezuela - inclusive em missão oficial do Itamaraty - e lembro do orgulho que aquele povo tinha de viver numa democracia plena, enquanto outros países latino-americanos viviam sob o rigor de ditaduras militares.
Girley Brazileiro

Susana González disse...

Me metiste el gusanito para investigar sobre este tema, con tus argumentos interesantes, siempre despierta en mi inquietudes, pues de no ser Chile, Panamá y Colombia y por supuesto Estados Unidos, pero es otra historia, los demás países se han mantenido al margen del gobierno de Maduro, esto merece una mirada!!
Susana González (Mexico)

Jorge Morandi disse...

Querido amigo Girley:

Como nos conocemos hace ya más de 30 años, sabemos de nuestras diferencias en lo relacionado con la política latinoamericana. Por esta razón, es obvio que no concuerdo con tu análisis porque evidentemente observamos el mundo desde perspectivas diferentes y participamos en experiencias de vida y de trabajo orientadas también con objetivos diferentes.
Seria muy largo extenderme en mis opiniones sobre el golpe de Estado contra Lugo en Paraguay y sobre la entrada de Venezuela al Mercosur. Lo que se vislumbra desde hace mucho tiempo, es la intención de los países centrales de debilitar la posición autónoma del bloque para abrir una grieta de entrada a los tratados de Libre Comercio y otras políticas del neoliberalismo, que a mi entender son las que nos han llevado a donde hoy estamos. Si nuestros países se encuentran endeudados, empobrecidos y sometidos, no es por el "populismo" de los gobiernos actuales sino por las políticas aplicadas durante más de 50 años, desde los acuerdos de Breton Woods.
Recomiendo leer el discurso del Papa Francisco en el cierre del Encuentro Mundial de los Movimientos Populares, realizado durante su visita a Bolivia, en Santa Cruz de la Sierra. Pienso que allí están las claves de la problemática actual de América Latina y del Mercosur.
https://www.aciprensa.com/noticias/texto-discurso-del-papa-el-encuentro-con-los-movimientos-populares-en-bolivia-80606/

Con el afecto y la admiración de siempre.