domingo, 5 de abril de 2015

Antigamente era muito diferente...

Antigamente, as celebrações da Semana Santa eram muito diferente... a gente já deixava de ir a escola na 4ª. Feira, ninguém trabalhava, o comércio fechava, porque a partir do meio dia, já começava o retiro espiritual da semana. Dali em diante, e até a sexta feira, outro sinal muito efetivo vinha pelas ondas dos rádios – então muito prestigiados – que só colocavam no ar músicas eruditas e que todo mundo chamava de música fúnebre. Fazia-se um silencio no meio do mundo, que chamava a atenção de nós, meninos irrequietos, loucos que passasse aquela ocasião tão monótona. Claro! Não se podia cantar, gritar ou fazer algazarras. Arengar com um irmão, seria um pecado mortal.
Paralelamente, a minha casa, por exemplo, era invadida pelo cheiro do pescado e do bacalhau que eram consumido durante três dias. A mesa era farta e nem condizia com a ocasião. Pecava-se pela gula!Para acompanhar o peixe havia o feijão e o arroz de coco, verdadeiras delícias, completados pelo bredo, ao molho de coco, também. Naquela época eu não era muito fã de peixe. Achava insuportável ter que fazer a abstinência de carnes vermelhas por três dias seguidos. Era um sacrifício.
No meio disso tudo, havia os momentos de ir à Igreja, inclusive para se confessar em preparação para a comunhão no domingo. Aff, aquilo era um terror. Qual será a minha penitencia? Lembro, ainda, da cerimônia do lava-pés, da instituição da eucaristia e da procissão do Senhor morto. Nesta, beatas choravam, com o terço na mão e beijavam a imagem do Senhor morto. Era um clima de puro féretro.Apesar da austeridade exigida, havia duas coisas bem profanas e divertidas, que terminavam quebrando o clima de pesado retiro: a noite do serra-velho, acho que na 4ª. Feira e a da malhação do Judas, na 6ª. Feira. Não estou muito seguro desses dias. A primeira, escolhiam um cidadão ou uma cidadã de muita idade e, de modo geral, antipatizado pela comunidade e simulavam seu funeral. Munidos de um serrote, roçando numa lata velha, produzindo um barulho desagradável, alta madrugada e, na porta da vitima, tratavam de fazer um inventário e “distribuição” dos bens do “morto” entre os promotores da provocação. Tinha "defunto" que ficava revoltado e reagia, muitas vezes, a bala! Geralmente uma espingarda. Quando a arma cuspia fogo, os “herdeiros” corriam com os pés nas costas. Quanto a história do Judas, lembro que escolhiam um cidadão, malquisto pela comunidade, para ser “julgado”, em praça publica, através da figura de um boneco em tamanho natural. Era a maior desfeita. Os promotores da malhação, muitas vezes, conseguiam, nunca se sabe como, algumas peças de roupas do cara, produziam um boneco recheado de trapos e folhas de bananeira (eu ajudei a fazer um) e penduravam num poste, bem debaixo da luz pública. O sujeito quando via aquele boneco com suas próprias roupas, era capaz de se suicidar. No fim da noite o boneco, digo o Judas, era derrubado e surrado aos gritos da cambada. Essas noites eram conhecidas como as da malhação de Judas, referindo-se à figura do Judas, o traidor de Cristo.
Quando, finalmente, chegava o sábado havia uma explosão de alegria. As rádios, em vez de musica "fúnebre", atacavam de frevos e marchinhas de sucesso do último carnaval. Os clubes sociais promoviam os chamados bailes de aleluia. Era o maior carnaval do mundo, numa única noite. Aleluia, aleluia, Cristo ressuscitou!
Hoje, porém, é tudo muito diferente. Católico de nascença, fico meio desapontado, quando vejo a programação dos dias da semana santa dos jovens. Definitivamente, acabaram com o clima de retiro e respeito à Paixão e Morte de Cristo.
No lugar das chamadas músicas fúnebres, a programação das rádios não muda em nada e se ouvem as costumeiras batidas do rock, dos pagodes e sambas. Nas estâncias de férias, promovem-se monumentais festivais de músicas, nos quais a moçada se esbalda e extravasa seus instintos, inclusive os mais obscenos. Pra começar, as bandas, vejam só, levam nomes muito esquisitos, tais como Biquíni Cavadão, Garota Safada e Calcinha Preta, entre outros. Isto não casa com nada de bom senso, principalmente o religioso. Pense pular ao som da banda de Ivete Sangalo, em plena noite da 6ª. Feira Santa. E comer churrasco de picanha no meio da festa! Acontece, sim. Se minhas avós, por um milagre que fosse, voltassem ao mundo dos vivos, davam uma marcha à ré e, fazendo o sinal da cruz, deitavam e morriam, outra vez. Eu nem choraria. Conformado, entendia que não lhes restava outra coisa.
Não! Não é saudosismo, nem beatice, nem falso moralismo. É desconforto espiritual. Acho que um retirozinho, uma pausa para meditar, pode fazer muito bem a essa juventude inquieta de hoje.

Nota: Fotos do Google Imagens

5 comentários:

Vera Lucia Lucena disse...

Concordo plenamente com você Girley, os tempos mudaram e não foi pouco. Fico pensando: se meus pais fossem vivos, como iriam "encarar" esse MODERNISMO existente nos dias de hoje na Semana Santa? Os trens paravam e o comércio era fechado; hoje tudo funciona, trens, metrôs, Supermercados e as Praças de Alimentação de todos os Shopping Center's. Temos que aceitar!

Danyelle Monteiro disse...

Professor Girley Brazileiro e seu característico bom humor...era assim mesmo, já participei de vários serra-velhos no meu interior e era a maior farra, tinha um q pegava mesmo a espingarda...rsrsrs...mas não sem antes ter repartida a viúva e bens; mas também tinham os q abriam as portas e serviam vinhos ao grupo... bons e velhos tempos! No mais, estou abismada com sua modernidade, pegou o nome dessas bandas onde?! kkkkkkkkk... bem, como também sou pecadora e não nego, confesso que exagero mais nos chocolates no domingo e q umas cervejinhas fazem parte do período...antigamente minha mãe me chamava de herege e me forçava à ir pra missa do domingo de manhã, só o pó da noite anterior...kkkkkkkk. Adoro o Senhor, boa páscoa pra toda sua família!!!

Roselys Cristina Gomes disse...

Sr. Girley Brazileiro, lí no seu blog com sua permissão, "Antigamente era muito diferante..." Gostei muito! E não preciso dizer, que o senhor descreveu exatamente como era e só quem viveu na época, como eu, como o senhor é que poderá realmente entender, o quanto foi precioso para nossa formação religiosa. Ficávamos um pouco constrangidos com tanta intransigência e rigor da religião, dos nossos pais e mestres, mas acabávamos cumprindo e obedecendo o que se mandava sem revolta. Eu estudava em colégio de freiras das Irmãs Salesianas e sei muito bem como foram as Semanas Santas, da minha infância e da minha adolescência.Mas o que foi realmente qie mudou? Mudaram os hábitos, ou mudamos nós? Todo esse ritual da Semana Santa, acabou, só restando a malhação de Judas.... Fazíamos na Semana Santa, jejum..., um dia de silêncio quase total e o famoso Retiro... hoje em dia como nós vimos, até o Retiro está perigoso em fazer

Wilma Clélia Reis disse...

Quanta verdade nesse seu relato, Girley Brasileiro! Sempre comento aqui em casa como era antigamente. . Ninguém via tipo de comércio algum com suas portas abertas. Hj as calçadas dos bares ficam lotadas, pessoal enche a boca para falar que estão aproveitando o feriadão. Lembro que mamãe não drixava sequer passar uma vassoura na casa. Era muito respeito!

Norma Lucena disse...

Era bem assim!Até o ar era triste!Hoje em dia rola festas e bandas em plena sexta feira da paixão! Os tempos realmente mudaram!
Norma Lucena