segunda-feira, 3 de junho de 2013

Votar sem Trégua

Este meu país é mesmo exótico. Não achei outro adjetivo para explicar o que quero dizer. Todo ano, todo dia se fala em eleições. Ora, com este sistema eleitoral o país inteiro é levado a isto. Senão, vejamos: a cada dois anos são realizados pleitos eleitorais. Quando um acaba, já se começa a falar no próximo. Depois que se elege um Governador ou Presidente da Republica, proclama-se o vitorioso ou vitoriosa e, imediatamente, explode a pergunta: será que ele vai ganhar as eleições municipais?  E quem será o próximo governador? E quem vai sentar, dentro de quatro anos, na cadeira da presidência no Planalto? E do trabalho, ninguém fala... É uma coisa incrível. O povo pode até ficar saturado, mas, os políticos acendem a chama. Em alguns lugares a coisa pega fogo, como num rastilho de pólvora. Quase sempre o pau come e são bem comuns as disputas armadas, quatro anos antes. Tive um ancestral que foi assassinado em praça publica, no Recife, porque se manifestou interessado em dar as cartas desde o Palácio do Campo das Princesas (*).
Para completar existem os casos dos fichas sujas eleitos, cujos mandatos são cassados e as localidades são obrigadas a realizar novas eleições. Aí é que o povão adora. Nos interiores isso é “prato cheio para muitos dias”. Aqui no estado de Pernambuco são vários casos. Basta abrir os jornais e conferir. Tem mais do que se imagina.
É doloroso ver esse processo. Quando se trata desses fichas sujas, na maioria das vezes, o que rola por trás são verdadeiras vergonhas. Enquanto contingentes populacionais se encontram na miséria, sem educação, saúde ou segurança, os (ir)responsáveis se locupletam das verbas publicas, saqueam os cofres das municipalidades lavando o dinheiro ao promover badernas mascaradas como eventos culturais. Quando não é isso, surrupiam sem cerimônias somas vultosas para suas próprias contas pessoais. Pegos pela vigilância dos opositores, loucos para tomar seus postos, são derrubados e obrigados a se submeter a novos pleitos. Só, que isso demanda tempo – que vale ouro – e muita grana. Quanto prejuízo... e os excluídos sociais morrendo a míngua, impotentes e sem condições, até, para participar do processo. Há contingentes e mais contingentes de brasileiros anestesiados pelo esquema e pouco se incomodam com essas tramoias e protocolos politiqueiras.
Neste momento em alguns municípios pernambucanos estão ocorrendo novos e extemporâneos pleitos eleitorais para escolhas de novos prefeitos em substituições aos desonestos eleitos em outubro passado. Divertido e intrigante são alguns nomes registrados. Pense ser governado por um cidadão conhecido como Pão com Ovo? E Biu do Gás? Existe, sim! Certa feita houve um tal de Cuscus. Francamente. Imagino o nível. Nada contra os apelidos. Mas, tinha que ser assim? Por que não o nome de registro civil? Outro dia, achei muita graça, quando me disseram que há uma cidade do interior do estado que vai ser administrada futuramente por um cidadão mais conhecido por Carga Pesada. Pode uma coisa dessas? Carga Pesada vai ter que andar na linha... porque com um apelido desse vai ser uma parada.
Sou da opinião que deviam mudar o sistema eleitoral brasileiro e instituir eleições gerais a cada cinco anos. Sim, mandatos de cinco anos para todos os eleitos. Sem direito à reeleição.    O custo com os pleitos seria reduzido e o povo agradeceria. Tenho amigo político que me contesta nessa ideia. Segundo ele, seria a maior confusão, porque a maioria dos eleitores teria dificuldade em votar. “A turma é muito ignorante e analfabeta, meu caro. Vão fazer o maior rolo, na hora de registrar o voto na urna eletrônica”. Fiquei na minha e falei para meus botões que na verdade a ignorancia e o analfabetismo faz a alegria dos políticos. Ah! A outra coisa que meu amigo lembrou foi do caso para renovação do Senado. “Como fica o mandato de Senador?” Me perguntou com os olhos bem abertos. Para ele, ampliaria para dez anos. Pode até ser. Mas, seria algo para uma boa discussão. Isto sem falar que poderia se instituir o voto distrital. Aí, sim, a conversa iria ampliar muito.
Enfim, acho que uma reforma eleitoral seria muito bem vinda. Enquanto ela não chega (será que vai vir?) vamos embriagar os eleitores com Copas de Futebol e Olimpíadas. 

(*) Assim se chama o Palácio do Governo de Pernambuco.

3 comentários:

Jussara Monteiro disse...

Girley,

Sua coluna é sobre reforma política e por isso voce tocou em tantos temas conectos. Vou me concentrar na anestesia popular. Só são anestesiados aqueles que estavam acordados. E grande parte do eleitorado, sequer ainda percebeu sobre seu papel, direitos e deveres na sociedade. E mais que isso a função e deveres do estado brasileiro. Por isso mesmo escolhem sem a responsabilidade devida os condutores da política brasileira. Errar ou acertar nas escolhas faz parte da vida. O problema é nem saber pra que e por que fazem escolhas.

Sequer vivemos num estado de ignorância coletiva. Se fosse caberia a interrogação. Importante a ? no processo civilizatório. Estamos mesmo é nem aí, como diz a música. Aí quando surgem os absurdos e erros na nossa frente, disparamos prá todos os lados em busca dos culpados sem buscar as causas e dirimi-las.

Jussara Monteiro
Recife.Pe.Brasil

José Carlos Lucena disse...

"É isso meu primo Girley Brazileiro. Muito bom! Concordo com os 5 anos e sem reeleição. Agora......reforma eleitoral com este congresso (minúsculo mesmo) aí.......nem pensar. Forte abraço."
José CarLos Lucena

Maria Helena disse...

Primeiro,Girley,quero me solidarizar com você com seu luto...irmão é algo tão perto da gente, em termos de herança genética, e de ambiência social e afetiva... mas siga com sua energia, e fidelidade aos que gostam de ler suas postagens no blog.
Realmente, somos um povo muito focado em eleições, mas cada dia mais e mais, o falar do povo parece não ajudar na melhoria das escolhas dos candidatos e muito menos das escolhas que nos é dado fazer pelo voto...Um abraço, e meus sentimentos, Maria Helena