terça-feira, 7 de maio de 2013

Metrópole do Fim do Mundo

Desde que o Cardeal Bergogli se tornou Papa Francisco e, na sua primeira saudação ao mundo cristão, se referiu ao seu país de origem como um lugar no fim do mundo, a Argentina vem adotando esse novo clichê para tudo que vier e couber. Foi isto que observei no final de semana passado (1 a 5 de maio de 2013), quando estive circulando em Buenos Aires. Aliás, o Papa Francisco é motivo de tudo por lá. Santinhos, bandeirinhas, postais, broches, marcador de livro e toda sorte se sourvenirs. (Foto a seguir).
A cidade além das habituais bandeiras nacionais nas cores branca e celeste tem também as brancas e amarelas, cores do Vaticano. (vide Foto a seguir)
Outra figura igualmente festejada é a nova Rainha Consorte da Holanda, Máxima Zorreguieta, também argentina de nascimento. Ah! O Jogador Messi também. Os argentinos, muito nacionalistas, que sempre cultuam com muito orgulho seus personagens famosos estão, atualmente, em estado de graça com essas figuras de destaques no cenário internacional. “Pelo menos isso, já que aqui dentro, nos campos econômico e político estamos destroçados”, me afirmou um sisudo taxista. Cidadão na casa dos 50 anos de idade, aparentemente culto e de conversa muito bem articulada, fez severas criticas ao estado atual do país. Com tom de revolta meu interlocutor saiu-se com uma inacreditável: “isto aqui se transformou numa Venezuela e ultimamente a capital da Argentina é Caracas”. Não apenas no taxi, mas por onde andei verifiquei, facilmente, que a Presidente Cristina Fernández é alvo das mais duras reações. A inflação está campeando e os movimentos de protestos se multiplicam a cada dia. Vi alguns. Os argentinos são bem chegadinhos a esses protestos. Passeatas, panelaços e grandes comícios são as formas mais populares. (vide fotos a seguir) Já no Brasil, isso quase nunca acontece. Nosso povo não vai às ruas. Mobilizá-lo é coisa quase impossível.
Habituado a visitar e gostar muito do país hermano, confesso que não fiquei surpreso. Acompanho atentamente o noticiário e as análises político-economicas, através do que posso perceber o desgaste sócio-politico que vem ocorrendo.
Recordo que já estive na Argentina em situações das mais distintas. Quando jovem assisti o retorno triunfante de Juan Domingo Perón ao país, após longo exílio. Logo a seguir vi este velho caudilho assumir, com sua segunda esposa, Isabelita, na Vice Presidência, o comando da Nação, em meados dos anos 70. Vi a queda de Isabelita, com o golpe militar. Estive por lá após a Guerra das Malvinas e encontrei um país destroçado. Voltei durante a redemocratização, no Governo Alfonsín e conferi sem acreditar o drama da hiperinflação. Depois experimentei o clima da paridade dólar/peso no Governo de Carlos Menem, acompanhei a crise de governança do inicio dos anos 2000 e, por fim, já estive por lá na Era K (Kirchners), inclusive por três vezes com Cristina no poder. Por tudo isso, acho que conheço bem essas agruras argentinas. Aquele mesmo taxista acima citado, sem que eu perguntasse, asseverou que “lamentavelmente nosso país está condenado a viver uma crise político-econômica, a cada dez anos”. Lamentei junto com ele, paguei a corrida e desci no meu destino, desejando boa sorte.
Atualmente, nas principais vias da capital (Florida, Corrientes, Lavalle entre outras) é insuportável o assédio dos cambistas oferecendo a vantajosa troca de Dólar por Pesos com uma taxa inacreditável: o dobro do câmbio oficial. Nas lojas os comerciantes, sem cerimônia, dizem logo que recebem pagamentos em Dólar. Se a cédula for de 100 o cambio melhora ainda mais. Isso me remete à época da hiperinflação que todo argentino, até os mais pobres, acumulavam o quanto podiam a moeda norte-americana debaixo do colchão. Quando Menem assumiu acabou com o Austral, resgatou o Peso e equiparou-o ao Dólar. Os dólares acumulados saíram de debaixo do colchão e, com autorização legal, circulavam como o meio de troca aceito em qualquer transação comercial. Até uma corrida de taxi podia ser paga com Dólar. Atualmente, não sei o que pode acontecer, mas, alguns garantem que algo está por vir. E, por isso, melhor se garantir com uma moeda forte.
Apesar de tudo, continuo gostando muito de visitar a Argentina. Ali, sinto-me meio que em casa. Tenho amigos, curto o clima cultural buenairense, os cafés nas calçadas com ar parisiense, a gastronomia, o tango, a flegma do povo – eles sofrem, mas jamais perdem a pose – a beleza dos parques, as largas avenidas, o alfajor, as media-lunas!, as empanadas! O doce de leite!, o Tortoni, o bairro antigo de San Telmo (Vide foto a seguir), os bairros da Recoleta e de Palermo, entre muitas outras coisas que me arrebatam e dão prazer, a cada retorno. Deixo a cidade sempre com vontade de ficar. Refazer a mala e enfrentar a autopista que leva ao aeroporto é quase um sacrifício.
Cristina passa, o Peso se recupera, a economia volta aos trilhos, outros dez anos de tranqüilidade transcorrem, novos governantes aparecem e essa Metrópole do Fim do Mundo (Vide foto panoramica abaixo) será sempre um destino favorito na minha cabeça.

NOTA: As fotos são todas da autoria do Blogueiro, exceto a última obtida o Google Imagens.






5 comentários:

Cristina Henriques disse...

Foi para o FACE

Regina Dubeux disse...

Um tour pela Argentina, através da prosa e fotos de Girley, é compensador, educativo e... a gente se sente por lá. Amigo, és um argentinista! Agradáveis e instrutivas suas observações, parece que estou passeando pelos cafés e calles dos ermanos. Esse motorista sabe das coisas. Adorei tudo. E as fotos carregam a vantagem do instantâneo, de um cotidiano real e atual. Obrigada!

Tereza Barbosa disse...

Girley,
Uma excelente análise do cenário argentino. Parabéns!
Tereza Barbosa

maria helena disse...

Que propaganda bem feita da capital portenha!!!! Não vejo a hora de conhece-la!!! Maria Helena

Federico disse...

Excelente!
"Uma visão crua de uma realidade lamentavel".