sábado, 19 de janeiro de 2013

Competência Oriental

Se me surpreendi em Seul, mais ainda fiquei no interior da Coréia do Sul. Cumprindo a programação da missão empresarial, na qual estive incluído, desloquei-me com o grupo (12 pessoas do setor empresarial de Pernambuco, focando no segmento da Construção Naval) para o extremo sudeste do país, centrando na cidade de Busan (também conhecida por Pusan).  Distante da capital, cerca de 800 km. O meio de transporte que escolhemos foi o trem bala dos sul-coreanos. Um primor de trajetória, feita em pouco mais de três horas. Inacreditável se pensarmos que do Recife a Salvador ou Fortaleza com distâncias idênticas, ainda se leva, pelo menos, meio dia de viagem, por rodovias precárias.
A ideia de todos da comitiva era a de que iríamos chegar a uma cidade industrial – afinal, ali se encontra o pólo naval do país, o maior construtor de navios do mundo atual – poluída e de aspecto pesado, habitada por trabalhadores metalúrgicos, ocupados dia e noite, num afã de vencer na vida a todo custo e levar o país adiante. Ambiente lúdico nenhum. Afinal de contas, um lugar que só ouvimos falar ao preparar aquela programação de visitas. Em suma, outra surpresa nos pegou de cheio, porque Busan, uma imensa cidade de 4 milhões de habitantes, desde o primeiro momento se revelou como um lugar de extraordinária beleza, banhada pelas águas do Mar do Japão e com belíssimas praias, que a transforma num dos mais prestigiados balneários daquela região asiática. É, inclusive, uma das quatro cidades do mundo mais requisitadas para sediar congressos, seminários e feiras, excluídas as capitais de países. O movimento turístico é surpreendente e os incontáveis hotéis de luxo plantados, sobretudo, na praia de Haeundae, onde nos hospedamos, chama a atenção para quem, como eu, fui até lá para garimpar negócios com os coreanos. A estrutura urbana é sensacional e o skyline, com linhas futuristas é arrebatador, aos olhos do visitante. Vide fotos a seguir. 


O comércio é vibrante e, só para resumir, manifestando minha grande admiração, fui encontrar, nessa cidade tão pouco conhecida no nosso meio de mundo ocidental, a maior loja de departamentos do mundo, a Shinsegae, certificada pelo Guiness Book. Vide fotos a seguir. Ou seja, outra grande surpresa sul-coreana.



Se, como cidade, Busan surpreende, de incrível é como classifico a pujança da indústria naval encontrada em sites nos seus arredores. Tivemos oportunidade de visitar os maiores estaleiros do país, quiçá do mundo: Hyundai, Samsung e STX, embora sabendo que haja outros, de menor porte, no país. Neste aspecto, a Coréia do Sul é imbatível. Não e à toa que se tornaram os mais competentes e primeiros no rank da construção naval mundial. Imagine o que seja colocar ao mar três navios por semana.
O estaleiro da Hyundai, por exemplo, fundado em 1972,  fechou 2012 com entregas de 93 navios! Em 40 anos esse estaleiro já construiu 1.200 embarcações dos mais variados tipos. É um espetáculo de produção. As instalações da empresa ostentam números inacreditáveis: são 11 diques secos, onde trabalham 24 mil empregados. Existem 55 refeitórios, nos quais são consumidas – por dia – 11 toneladas de arroz, 45 bois e 115 porcos. Todas as refeições são produzidas internamente. Nada terceirizado. Haja competência. Trabalham apenas oito horas por dia e os sábados e domingos são de descanso. Férias? 14 dias por ano. Nem é bom comparar com o que se vê no Brasil.
O Samsung, menor do que o Hyundai, pelo menos três vezes, foi outra boa visita que fizemos. Surpreende qualquer visitante, particularmente, se oriundos das bandas do mundo ocidental. Foi fundado em 1974 e tem capacidade de entregar 70 navios por ano, embora estejam construído, no momento, apenas 50, em 7 diques secos, com 20 mil empregados. Lá são construídas 44% das plataformas de petróleo do mundo. Em 2011 tiveram um faturamento de US$ 13,0 Bilhões. Pretende ser o maior do mundo em 2015. Somente de projetistas a empresa mantém 3 mil técnicos. É uma fábula, sem dúvidas. A visão do parque de construções é, certamente, a mais notável dos que visitamos. Vide a foto a seguir.

Outro aspecto a destacar é o que diz respeito ao esmero com o qual esses estaleiros coreanos tratam o entorno das suas plantas. Tudo perfeitamente urbanizado, parques e jardins deslumbrantes, conjuntos residenciais dignos para todos, centros sociais e de esportes para lazer, escolas, hospitais, centros comerciais, enfim, tudo quanto se faz necessário para uma vida digna. A Hyundai mantém, ainda, no seu sitio de produção, um belíssimo hotel da categoria cinco estrelas para receber seus convidados. Vide a foto, a seguir.

Prezado leitor ou leitora, faça suas próprias comparações com o que temos aqui no Brasil. Não chore, por favor! E, indo à Coréia do Sul, não deixe de ir a Busan.

NOTAS:
1. O Blogueiro visitou a Coréia do Sul, compondo uma Missão Empresarial organizada pela CNI/BID/Fiepe-IEL e SIMMEPE.
2. As fotos são da autoria do Blogueiro
   

 

4 comentários:

Celso Cavalcanti disse...

Caro Girley,

Excelente seu relato.
Considerando-se que em 1972, ano de fundação do estaleiro da Hyundai, o PIB e a renda per capita da Coréia do Sul, eram uma fração dos números brasileiros (olhe que já nos considerávamos como o país do futuro), tenho muita curiosidade em conhecer as ações práticas implementadas pelos coreanos que possibilitaram que eles hoje (apenas duas gerações após), tenham uma renda per capita e um nível de vida muito superior ao nosso, mesmo não tendo recursos naturais e extensão territorial, manutenção de um permanente estado de guerra com seus irmãos do norte, etc.
Taí um bom desafio para um blogueiro muito competente que eu conheço.....
Um abraço,
Celso Cavalcanti


Girley Brazileiro disse...

Amigo Celso,
Após a Guerra da Coréia, os sul-coreanos desenvolveram um intenso programa com vistas ao crescimento economico do país, que obteve sucesso graças a estreita relação entre governo e o setor privado. Grandes incentivos e subsidios foram concedidos, além de uma maciça linha de crédito, intensa proteção às empresas nascentes, além de investimentos em educação e capacitação tenlogica.
Nada disso ocorreu no Brasil! A educação e os investimentos em C&T ficaram sempre para segundo (ou outros!) planos.
Acho que foi esse o segredo do sucesso dos sul-coreanos. Junto com Taiwan, Hong Kong e Cingapura, eles ficaram conhecidos como os Tigres Asiáticos na década de 80. Lembra?
Obrigado pelo elogio. Não mereço tanto... Volte sempre ao Blog.
GB

Regina Dubeux disse...

Prezado Girley!

Li vários textos do seu blog. Gostei bastante. Seus textos são muito verdadeiros, relatando com elegância o que você vê. Aquele sobre a prostituição foi impactante. Não sabia que o SESI tinha um trabalho tão meritório de combate a essa triste realidade social.
O texto sobre a cidade de Bonito, aqui em Pernambuco foi um alívio, após o retrato apresentado do Recife, e da vergonha que você sentiu ao levar um amigo estrangeiro para passear no centro da cidade, dada a sujeira, o mau cheiro e as desfiguradas e bizarras prostitutas da Praça Joaquim Nabuco.
Que diferença das cidades que você visitou, na Coreia do Sul e em outros lugares do mundo!
A gente está tão acostumada a ver blogs que privilegiam recursos visuais da informática mais que o conteúdo, que quando se depara com um blog assim, como o seu, de conteúdo real e sincero, vale a pena ler, e fica-se satisfeita.
Ontem, 21/01/13, tomei conhecimento de que o Governador de Pernambuco e o Prefeito recém eleito estão criando uma campanha para elevar a autoestima do recifense. Isso é bom. Mas melhor ainda será cuidar da cidade, porque fazer propaganda com uma cidade como está o Recife, é querer tapar o sol com a peneira, além de soar falso. Em um dos seus artigos, você fez lembrar uma campanha, aquela do Sugismundo, lançada no tempo da ditadura, e que apelava para o dever cível do cidadão de manter a cidade limpa. Talvez fosse o caso de se pensar em algo semelhante. Porque o povo, de fato, é extremamente mal educado, indisciplinado e rude. Não há investimento público que dure muito tempo com um povo como o nosso, jogando lixo nas valetas, ocupando espaços destinados a pedestres, urinando nas calçadas... aff! Eu não acharia nada ruim que uma campanha civilizatória fosse engendrada via televisão e rádio por, digamos, uns seis meses, avisando que depois viria a instituição de multas a sujões. Não sei como seriam cobradas essas multas, mas alguma coisa tem que ser feita. O centro, e muitos bairros de Recife estão uma calamidade. E ainda tem essa coisa horrorosa e pavorosa que é tal da poluição sonora, uma aberração sem precedentes. O difícil é que uma campanha como essa deveria ser endereçada, também, aos próprios vereadores da cidade. Participei de várias reuniões no chamado Plenarinho da câmara municipal, quando um promotor público encetou uma campanha contra a poluição sonora da nossa cidade, e pude constatar que há uma visão deturpada, por parte de muitos vereadores, sobre a ocupação do espaço e a produção de sons, por entenderem que 'o povo precisa ganhar dinheiro, sustentar suas famílias', coisas desse tipo, um 'argumento' baseado em visão distorcida dos direitos e obrigações dos cidadãos. Ninguém questiona o ganha-pão dos cidadãos, o que se pretende combater é o abuso e a falta de educação.
Obrigada por levantar essa discussão, em um espaço tão simpático e digno de ser lido.
Cordialmente,
Regina C. Dubeux. rcdubeux@gmail.com
Por oportuno, informo: Trabalhei no antigo CONDEPE e foi então que lhe conheci, na SUDENE, no tempo em que se fazia um trabalho de Acompanhamento do Plano Nacional de Desenvolvimento-PND/PE.

Edna Claudino disse...

Amigo,

Parabéns, mais uma vez pela postagem.
Bem sei como é difícil trazer inovação para nosso Estado.
Desde a Fimmepe, onde a Sua Solda apresentou um equipamento de weld training, assisto Arminio tentar mostrar a tecnologia inovadora para treinamento de soldadores aos agentes responsáveis e o assunto ser tratado com descaso.
É lamentável, mas enquanto as relações público privadas não avançarem, como você bem falou, o desenvolvimento estará transitando num campo frágil.
Abraços
Edna Claudino