sexta-feira, 9 de março de 2012

Por trás da Fachada Atraente

Os tempos mudam, as pessoas e nações se transformam, a Economia gira e é esta, particularmente, que vive nos surpreendendo. Nesta minha recente viagem à Europa (17 a 29 de fevereiro) pude observar coisas muito interessantes e, até mesmo, nunca imaginadas. Mergulhado nunca crise econômica sem tamanho, fruto de uma estratégia, provavelmente apressada, de estabelecer uma União imatura, o Velho Continente vive dias de sufoco. Desemprego em larga escala, produção em baixa, consumo engasgado, greves, protestos populares (Vide fotos a seguir, na França e Portugal), viradas inesperadas nas urnas eleitorais e nações desejando se afastar da dita União. Coisas surpreendentes para um mundo que sempre serviu de modelo.
Analisando os acontecimentos recentes, acredito que alguns países, ao entrarem no Bloco, esqueceram que eram pobres e como tal deveriam continuar se portando, pelo menos até que a maturidade sócio-econômica fosse atingida. Grécia, Portugal, Irlanda e Espanha são bons exemplos da imaturidade que falo. Mas, não. Euros nos cofres, via ajudas financeiras importantes dos mais ricos, para aparelhá-los infra-estrutural, financeira e administrativamente falando, encheram-se de vaidades e soberbas, “atolaram o pé na jaca”, e hoje penam pela gastança perdulária. Não entenderam que as ajudas cedidas tinham como objetivo nivelá-los aos mais desenvolvidos (Alemanha, França, Itália...). O modelo mostrava-se perfeito. O resultado, porém – sobretudo após a crise de 2008, nos Estados Unidos, respingando sem pena sobre o sistema financeiro da Zona do Euro – foi o que não se esperava. As economias européias, sobretudo as mais frágeis, sofreram fraturas, até agora não consolidadas. Vejam a situação da Grécia que não sai do noticiário mundial, ameaçando contaminar o restante do Bloco. A luta para sustentar o Euro tem sido insana. Os lideres europeus não conseguem dormir em paz, há meses! Frau Merkel e Monsieur Sarkozy dão tratos às contas, sem parar. E, nas ruas, já é comum dar de cara com pedintes dramáticos, principalmente onde circula o turismo, como na Champs Elisées. Tem pessoas dormindo ao relento, mesmo com os entornos congelados pelas ondas de frio. Não me lembro disso, no passado. A propósito, tomei o flagrante a seguir (Vide Foto), no sitio histórico das ruínas do Fórum Romano, em Roma, no dia 26.02.12. A postura deles chama a atenção de quem passa. Não pedem, nem atacam. Ficam como estátuas esperando a esmola. Mas, o mais interessante, para nós brasileiros, é a situação confortável que estamos experimentando nesse novo cenário. Durante minha viagem percebi o quanto somos bem vindos e bem recebidos onde quer que cheguemos. Tratados como ricos! É muito engraçado, para quem, como eu, teve muitas vezes o cuidado de não declarar a procedência, pois podia ser olhado com desprezo. Lembro que fiz uma postagem, aqui no Blog, comentando esse tipo de experiência. Pois bem. Agora a coisa mudou de figura. Com a economia brasileira em franca expansão – inclusive no Nordeste! – mercado de trabalho aquecido, brasileiros imigrantes desejando voltar depressa e os europeus “matando cachorro a grito”, receber com distinção os “ricos” tupiniquins virou coisa de bom tom, no outro lado do Atlântico. Imagine que em muitos estabelecimentos comerciais já faturam o cartão, diretamente, na moeda brasileira. O Real passou a ser respeitado, forte e valorizado no mercado de cambio internacional. É a moeda de uma economia pujante, de um país politicamente seguro e, inclusive, classificado como a 6ª. Economia do Mundo.
Essa coisa, porém, não deve ser motivo de muitas comemorações. Vamos com calma com esse andor... A situação tem seus limites bem delineados. Cuidemos com cautela do nosso quadro. D. Dilma está ciente disso. Nós dependemos muito dessas economias européias. Elas são nossas importantes parceiras comerciais. Muita coisa aqui produzida deve continuar sendo consumida por eles. Bem como precisamos comprar deles, inclusive bens de capital. Crise na Europa pode repercutir severamente no Brasil. E para o resto do mundo. O mercado europeu é muito importante para o giro sadio da economia mundial.
Uma coisa é certa: por enquanto, o turismo tem contribuído para sustentar a situação. Como eles têm MUITO que mostrar, mesmo num inverno rigoroso, a coisa não está perdida de tudo. Os brasileiros, por exemplo, aproveitando a apreciação do Real, o acesso ao consumo no nível da Classe A e B e o bom momento geral da economia, não têm deixado por menos. Estão lotando todos os vôos com destinos aos mais atrativos lugares turísticos do mundo. É impressionante como se esbarra com brasileiros pela Europa. Cardápios em português, garçons se esforçando a falar português, entre outras cositas. Estamos vivendo outros tempos. Fiz muito turismo, mas observei, como pude, o por trás da fachada sempre atraente da bela Europa.
NOTA: Fotos são da autoria do Blogueiro

5 comentários:

Ina Melo disse...

Amigo Girley,


Como sempre és um excelente comentarista econômico e político. Deves mandar o Blog Danuza Leão para que ela aprenda como se deve observar, criticar, mergulhar nos pontos negativos, sem arrasar uma cidade e/ou seus visitantes. Parabéns. Bom domigo.
Ina Melo

Canojones disse...

Caro Girley
Penso que esta sua análise, bem elaborada, peca, todavia, pela ausência de abordagem das verdadeiras causas desta hecatombe económico-financeira em que nos encontramos.
O paradigma desta Sociedade permitiu que a ganância duma atividade que se deveria dedicar à captação de depósitos para o financiamento (leia-se Banca) direcionasse as suas liquidezes para o lucro fácil e rápido, em vez de as canalizar para a real Economia.
Óbvio que a busca dos resultados, face aos salários dos seus administradores definidos com base em objetivos predefinidos, por um lado, e a preocupação primeira de distribuição de bons dividendos aos acionista, por outro, teve como consequência, face à falência do Lehman Brothers e subsequente arrastamento em cascata do mundo financeiro estado-unidense e posteriormente de todo o resto do mundo, que a Banca ficasse com papeis nas mãos de valor zero ou próximo disso e sem possibilidade de se refinanciar entre si porque a exaustão foi total, uma vez que as suas aplicações foram feitas preferencialmente em operações de Bolsa.
Esta postura só existiu porque os responsáveis da Banca tinham/têm consciência que nenhum Governo, seja ele qual for e de que país for, poderá deixar que o seu (do país) sistema financeiro fique paralisado, dado que seria a implosão absoluta da respetiva Economia.
Chegámos, portanto, a este ponto não porque os povos, falo dos europeus, vivessem acima das suas possibilidades, como é propalado pelos Media - por razões facilmente entendíveis -, mas sim pela usura, imprudência/irresponsabilidade conscientemente insancionada dos administradores. Na Islândia há já julgamentos, mas são exceções.
Em Portugal, outros fatores cumulativos também deverão ser considerados, como, por exemplo, o financiamento a empresas que se vão instalar no estrangeiro, noutros continentes; as agora famosas PPP (Parcerias Público-Privadas) - começam aí agora no Brasil, segundo li -, que sugam o erário público até ao tutano; a quase falência, fraudulenta, do BPN-Banco Português de Negócios (há já vários arguidos e até gente presa) em que o Estado já lá “meteu” milhares de milhões (bilhões, como se diz aí), para evitar o efeito cascata; o “Buraco da Madeira” cujas Contas Públicas estavam falseadas e só o Tribunal de Contas o detetou à posteriori.
Por tudo isto, estamos agora nós a penar, com cortes em tudo o que é social, e digo nós, não só os portugueses, mas sim todos em geral. Alguém ganhou com isto, até porque o dinheiro não foi nem para Marte nem para Neptuno. E dinheiro não falta, só que nas mãos “dos mercados”, pois quando é preciso os Estados se financiarem – o que fazem regularmente, como sabe – os investidores aparecem.
O problema maior não é o Défice Orçamental, mas sim a Dívida, sendo que esta tem a sua quota de leão assente na Dívida Particular (não pública).
Falta um braço forte político, pois medidas políticas acertadas e concertadas resolveriam a situação, mas os interesses de uns são incompatíveis com os de outros. Por que será que a Alemanha tem superavits astronómicos? E por que se opõe à emissão de Obrigações Europeias? [Euro Bonds]
O Brasil que se cuide, porque os efeitos do Terramoto vão inexoravelmente chegar. Vai beneficiar de ter mais tempo para se preparar …
Esta matéria daria para uma Tese, portanto, não é possível explanar exaustivamente um pensamento num assunto de grande abrangência num simples Comentário.
Mas aqui fica uma Dica.
Um abraço amigo e fraterno
Carlos Jorge Mota

Adilson Carneiro disse...

EXCELENTE ANALISE SUA GIRLEY. VOCE PODERIA FAZEER UMA EXPECTATIVA DA VINDA DE TURISTAS DESSES PAISES PARA A COPA.?
ADILSON. eu acho que virão apenas mil turistas por pais. e voce?

Pedro Roberto Rivera disse...

Acho que os brasileiros são recebidos como pessoas agradavels e de muita simpatía......em todo o mundo.Pedro Roberto Rivera (Chile)

Germano Travassos disse...

Caro Girley !
Desculpe o silêncio. É que tive uma semana agitada e sobrecarregada também.
Gostei do seu Blog e vou acessá-lo, na medida do possível.
Sobre o seu artigo, é curioso pensar que a Irlanda era tratada, até pouco tempo, como o "Tigre Celta". A Espanha, era apontada como exemplo pois, 20 anos após a queda do franquismo, modernizou-se e entrou efetivamente para o primeiro mundo ( !!! ). Não foram poucos também os articulistas especializados que falaram do "ciclo virtuoso da economia americana", qdo agora já se sabe que era apenas uma bôlha imobiliária.
Como seu ex-aluno e leitor (moderado) de jornais e de entrevistas, acho que esta crise ainda poderá ter desdobramentos imprevisíveis. Nada comparável ao crack dos anos 30 mas, ainda vai passar muita água por baixo da ponte. Espero apenas que o modelo econômico capitalista aprenda a lição e supere a crise com mais ferramentas de controle da economia e do bem estar social.
Grd abç
Germano Travassos