sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Zilda Arns: Um tipo inesquecivel

Ainda abalado com os acontecimentos, no seio familiar, nos primeiros dias deste 2010, fico mais pensativo do que nunca, quanto a vulnerabilidade do ser humano. Viver é uma aventura.“Para morrer basta estar vivo” sentencia um velho e popular aforismo. De fato, basta estar vivo! É a inexorável pré-condição que a malvada exige do ser humano.
Pus-me diante da TV, esses últimos dias, e tudo que vi passava por catástrofes e miséria. As imagens – nítidas e digitais – nos transportam de modo cruel às recentes cenas da destruição. Chocante o desastre do paraíso de Angra dos Reis. Quantas vidas foram ceifadas num abrir e fechar de olhos com o deslizamento daquele morro, em pleno réveillon. Meu Deus! Que horror! No Sul do país cidades inundadas, com prejuízos de vida e materiais. Morte, desespero e impotência humana.
Como se tudo isso fosse pouco, eis que explode nas telas da TV a noticia do terremoto no Haiti. Sinceramente, é preciso ser muito frio para não se emocionar diante daquilo tudo. “Fechou-se o tempo” e não se ouviu outra coisa a não ser os relatos assombrosos da situação no pequeno e paupérrimo país caribenho. Quase não consegui conciliar meu sono pensando naquela gente pobre, frágil em todos os sentidos e açoitada pela mãe natureza. Que tristeza! Que clamor!

O Haiti é famoso por ser uma nação esfacelada pela pobreza renitente e imaturidade política. Oprimida pela presença estrangeira, travestida de apaziguadora e com índices de qualidade de vida assustadores, resulta num dantesco e comovente drama. O que será dos haitianos depois dessa catástrofe? Há pouco tempo, vi numa reportagem a incrível imagem da mulher produzindo biscoitos de barro, para alimentar a família e vender na praça. Eles comem barro! (leia mais clicando na foto desta postagem) Meu Deus, tende piedade dessa gente! O país mais pobre do Ocidente, com 70% da população vivendo abaixo da linha da pobreza, entra o ano arrasado. Imagine que eles sobrevivem com menos de US$ 1,00 por dia. E isto é uma média. Imagine aqueles que estão abaixo dessa média. Inacreditável, que ocorra tudo isto ali bem perto de nós e em pleno século 21.
Certamente que já era uma dose muito forte, para quem, como eu, anda sob efeito de um episodio traumático de morte em família. Mas, outra notícia mais surpreendente estava por acender diante dos meus olhos: Dra. Zilda Arns foi vitima fatal do terremoto do Haiti, li num informativo pela Internet. Fiquei perplexo. Como? O que estaria ela fazendo por lá, justo naquele dia? Que coisa mais insólita! Por que meu Deus? Na condição de ser humano, senti-me frágil, minúsculo e ameaçado... É, foi isto mesmo. Os tais desígnios de Deus são muitas vezes intrigantes e cheios de por-quês. Viver é uma aventura, pensei outra vez e de imediato. Mas, que destino esse da Dra. Zilda! Ihhhh! Nem quero entrar nessa discussão de destino.
Conheci a Dra. Zilda Arns, aqui mesmo no Recife, num belo encontro do Rotary International, do qual faço parte com muito orgulho. Fiquei encantado com aquela Mulher (com M maiúsculo) brava e idealista, fundadora da Pastoral da Criança e responsável direta da surpreendente redução das taxas de mortalidade infantil, neste imenso Brasil. Sem muito alarde, com sua voz mansa, suave e convincente a Dra. Zilda, utilizou de métodos simples e econômicos para montar a maior rede de solidariedade, com trabalhadores e trabalhadoras voluntárias, salvando um imenso contingente de brasileirinhos ameaçados de morte pela desnutrição e doenças infantis, particularmente a diarréia. Cheia de projetos e imensa juventude aos 75 anos de idade, a guerreira Zilda tombou sob os escombros da destruição do Haiti. Guardarei sempre a imagem dessa Mulher. Um tipo inesquecível, que partiu sem tempo de beijar ou dar até logo às criancinhas que adorava e aos milhões de brasileiros que a reverenciava por onde passava. Pena que morreu sem que a víssemos com o Nobel da Paz ao qual foi candidata, na década que se finda. Mas, seu trabalho já se reproduz nas Américas, África e Ásia.
O Brasil vai sentir sua falta. O Mundo vai sentir, também. Desejemos que a estrutura por ela montada continue e reproduzir seu trabalho, sua missão. Morreu uma guerreira brasileira, em pleno combate. E morreu porque estava viva.
Nota: Fotos obtidas no Google Imagens

AGRADECIMENTO:

Aos amigos, de varias partes do mundo, que me apresentaram votos de condolência, na semana que passou, o mais sincero dos meus agradecimentos. Nessas horas de tristeza é bom saber que temos amigos e que eles se manifestam solidários com nossa dor e tristeza.

11 comentários:

Edvaldo Arlego disse...

Caro Girley, seu texto me emocionou e tenho certeza de que, se Dra. Zilda pudesse ler sua crônica, sem dúvida ressucitaria para vir agradecer-lhe as belas e justas palavras que você escreveu com maestria e sinceridade. Abraços, Arlégo.

Susana González disse...

Meditando en lo que dices, creo que a veces las cosas tienen que ser así, para que volvamos los ojos hacia aquellos que necesitan y los ayudemos. Además se agrega una persona como la que describes, haciendo una labor ejemplar, entonces la señal no puede ser más clara, tenemos que hacer lo que podamos por esa gente. No hay disculpa, aunque sea un poco es mucho para ellos, pero se tiene que hacer un esfuerzo, más alla de nuestra comodidad, no crees?. No cabe duda que puedes mover corazones, esto ya es una gran labor. Besos

Anônimo disse...

Belas palavras, companheiro. A tragédia do Haiti me deixa sem dormir. A perda de Zilda Arns nos deixa no dever de dar continuidade a sua obra da pastoral. Grande abraço.Isabella

Jussara Monteiro (Recife) disse...

Girley,
Dra. Zilda era mesma uma doutora em sua essência. Firme e terna.Representou na realidade o sentido simbolico que carregamos em nossos coracoes de um ser revolucionario. Nao precisou fazer nenhum esteriotipo de feminista, desde a sua postura politica ao seu vestir. Souber ser toda: filha, irma, estudante, esposa, mae e profissional. Esta é sensacao que tenho qdo a vejo por exemplo no roda viva. Que seu legado que continue a rolar pela vida. Ela deu tanto que, no fim Girley, náo precisava de tempo para beijar as criancinhas. As criancas e nós que deveriamos beija-la. Ja que nao mais pudemos, que beijemos os outros para presentea-la sempre.Ela é uma melodia que nos conforta e nos encoraja.
jussara monteiro recife.pe

Mônica Mercês disse...

Girley,

Viver,de fato, é uma aventura. A cada cena que vejo aumenta a minha perplexidade. Que possamos ser mais humanos e menos materialistas e entender definitivamente que nossa maior riqueza é a vida.Dra. Zilda nos deixa uma linda lição de que amar é possível.
Um forte abraço,
Mônica Mercês

Wilma disse...

Girley,

Para nossa grande tristeza, 2010 começou com muitas tragédias!!!!É angustiante assistir tudo isso e nos sentirmos tão impotentes! Que Deus tenha piedade de todo êsse povo que perderam famílias inteiras, daqueles que estão sem teto,sem comida, sem água.... Quanto a Dra.Zilda, foi uma perda irreparável! Que ela seja lembrada pela dedicação ao seu trabalho, que foi um ENORME exemplo prá todos nós.

Wilma.

Geraldo Leal de Moraes disse...

Caro Girley

Primeiro minhas condolências pela passagem de seu irmão.

Suas palavras retratam uma brasileira impar , única e verdadeira que a seu modo fez uma diferença neste Brasil e mundo mutante que vivemos.
É uma esperança, pois outras Zildas em suas formas diferentes estão atuando, mostrando que apesar desta podridão política e um discurso mentiroso se faz solidariedade e repeito social.
Que Zilda Arns seja um símbolo e exemplo de açao a ser seguido por todos nós.

Abraços amigo

Geraldo Leal de Moraes

Anônimo disse...

Dr Girley, parabens pelos comentarios.

Eu mesma fico sem dormir diante de tas tragedias, só muita fe em Deus para suportar tudo isso, mas o que vem la de Cima decifrar e entender é dificil, o coração(meu) está apertado. Doações de todos lugares chegam ao Haiti, e a outros lugares ate bem perto de nós, o Rotary Internacional ou a nivel distrital o que vão fazer?

Almir Reis disse...

Girley
Parabens pela mensagem relacioanda com a Dra. Zilda Ams. Vai ser difícil aparecer outra Zilda tão cedo.
Um garnde abraço - ALMIR REIS

Terezinha Gadelha disse...

Girley
Depois de tantas tragédias, existe ainda os que só pensam e fazem as guerras; Deus quiz nos mostrar que acima de todos os interesses existe a fraternidade e o amor, que ainda há soluções para um mundo melhor e mais justo.
Terezinha Gadelha

valdimir kiko forti disse...

Parabéns,maravilhoso artigo,companheiro rotariano.Eu espero que os exemplos do Haití e de nossa querida Zilda Arns sirvam de reflexão para todo mundo pois, as virtudes: caridade,solidariedade e fraternidade, quando praticadas de forma eficaz, por todo mundo - praticamente os povos de todo mundo estão ajudando os irmãos do Haití-ou por uma entidade chamada Pastoral da Criança, até então comandada pela Sra ZILDA ARNS - nos faz crer que somos, sim, capazes, de juntos contruirmos, muito mais rápido, um mundo melhor,sem guerras, sem pobreza,sem violência e até mesmo preparado para evitar as catastrofes que o ameaçam destruí-lo.Que assim seja.