sábado, 16 de maio de 2009

COMEMORANDO O INCABÍVEL

Eu já havia iniciado um comentário critico sobre a situação da violência urbana no Recife, quando notei que, na mesma ocasião, festejavam os dois anos do programa Pacto pela Vida, do Governo estadual. Isto foi no inicio desta semana. Propaganda em jornais, sessão especial na Assembléia Legislativa do estado e outras comemorações mais.
Surpreso com um “foguetório” incabível, fui buscar explicações nas matérias e estatísticas publicadas.
Lembrando que Recife já foi “eleita”, poucos anos atrás, a cidade mais violenta do Brasil, a primeira coisa que me ocorreu foi passar pela Rua Joaquim Nabuco, bairro das Graças, no Recife, e conferir o contador de homicídios – imenso painel luminoso que informa, sem pena e de forma constrangedora, o número de assassinatos cometidos no estado de Pernambuco, no ano, mês, semana e dia – maneira estranha, fria e chocante de chamar a atenção publica para um dos mais aberrantes problemas sociais do Recife, Pernambuco e do Brasil. Aquela contagem lá, não pára de crescer. Observo-o sempre de modo incrédulo.

Por outro lado, descobri um dado estarrecedor: no primeiro trimestre deste ano foram cometidos 1.238 assassinatos, em Pernambuco. E, veja bem, são dados da Secretaria de Defesa Social do Estado. Isto representa quase 5% a mais do que o mesmo período, no ano de 2006. O mesmo informe dá conta que o mês passado foi o mais violento do ano com 473 execuções. E o Governo que aí está garante que a coisa está melhorando e que a situação é bem melhor do que a do governo passado. Futricas políticas. Sei não... Deus que me livre, e a minha família, de uma dessas tragédias.
Fruto de uma impunidade desmedida, os assassinatos são cometidos a toda hora, em todos os espaços e sem ter nem para quê. Dolorosa situação para uma sociedade que, cada vez mais, prefere viver “aprisionada” em casa, temendo sair com qualquer que seja o propósito, temendo não retornar. Hoje em dia, sair à noite é, para mim, um dos maiores sacrifício. Tenho medo, sim.
Na prática nossa policia tem se revelado incapaz, insuficiente e, particularmente, incompetente. Os investimentos, que dizem são feitos, parecem ser sempre insuficientes e não conseguem mudar a situação. É uma calamidade. Assaltos são cometidos a toda hora, muitos são latrocínios, assassinatos nos âmbitos domésticos e sem motivos concretos, estupros seguidos de assassinatos, infanticídios bárbaros, enfim uma violência desmedida e crescente. É verdade que se trata de um problema nacional, mas no Recife o problema aparenta ser insolúvel. É demais.
Por tudo isso, acho um desplante desse Governo promover uma comemoração dos dois anos de sucesso do citado programa. Melhor seria calar. Para que comemorar em Palácio, se na praça a violência impera?
Minhas criticas poderiam ter ficado por aqui. Mas, acontece que duas coisas me surpreenderam e abalaram no decorrer da semana. Merecem ser registradas, para ilustrar minha revolta. A primeira, aconteceu no auge das comemorações do Pacto, foi o bárbaro assassinato do jovem Igor Siqueira Duque, em pleno meio dia, numa das avenidas mais movimentada da cidade. Jovem de 28 anos, cheio de vida e projetos, ex-colega do meu filho, na escola secundária. Igor voltava do trabalho para casa e, a menos de 500 metros do seu destino, teve a vida roubada com uma bala mortífera no pescoço. Os assassinos fugiram e só Deus sabe o paradeiro. Dizem que a policia anda no encalço dos dois. Como o rapaz era filho de uma juíza de Direito, pode ser que a coisa tenha resultado. Foi uma coisa muito triste e muito próxima de nós. Para mim, que tenho um filho na faixa etário de Igor, é um verdadeiro sufoco ver meu filho sair de casa para trabalhar, se divertir ou qualquer outra coisa. Peço a Deus que o proteja e louvo-O quando o vejo de volta.
A outra coisa que me deixou revoltado, desanimado e profundamente decepcionado foi a matéria de ontem do jornal britânico The Independent, denunciando a matança de seres humanos no Recife. Isto é péssimo! Para mim que tenho orgulho de falar sobre as belezas e atrativos turísticos do meu estado e da minha cidade, nas minhas andanças mundo afora, foi como uma ducha bem gelada. Estremeci e enchi-me de tristeza. O jornalista Evan Williams chamou o Recife de “capital brasileira dos assassinatos”. O repórter passou pelo Recife, impressionou-se com a situação local e destacou no jornal londrino o número absurdo de assassinatos, o perfil das vitimas e, o pior, a participação de frios policiais em grupos de extermínios. É de lascar... Ah! Fez, também, um registro para o estranho painel, no meio da cidade, que indica o número de assassinatos, por freqüências.
Meus amigos, sinceramente, é certo comemorar esse tal de Pacto pela Vida, no meio de tantas barbaridades? Melhor seria trabalhar em silencio e não gastar dinheiro publico com propaganda enganosa, incluindo participação de ator global. Pobre Recife...
Nota: Foto obtida no Google Imagens

4 comentários:

Glauce Chagas disse...

Então vá ouvir a palestra de Escobar na Jornada- A violência Silenciosa (quando ele me disse o nome, eu transcrevi (eu, não, meu inconsciente: A Liberdade Licenciosa!). E a gente (a plebe rude) não vê os comentários no seu blog? Ainda não pesquisei). Glauce Chagas.

fernandoi da costa carvalho disse...

Caro Girley

Endosso seus oportunos e excelentes comentários, embora em um assunto e fato tão triste quanto deprimente. Continue neste seu valioso trabalho, que além de vigilante,e é o que falta em nossos Três Poderes, é acima de tudo um alerta para uma realidade cada vez mais sombria, para nós Brasileiros, notadamente os Pernambucanos.
Acho que existe uma forma impeditiva em que isto vá mais adiante....Mas o farei pessoalmente quando tiver o prazer e alegria de revê-lo.Assim prefiro para não ser malentido com o que penso.
Forte abraço. Sucesso cada vez maior neste seu BLOG, que admiro, gosto e aprecio sobremodo. Não poderia se de outra forma. Quem lhe conhece sabe de sua capacidade e desenvoltura.

Atenciosamente,

Fernando da Costa Carvalho

Clara Calado disse...

É verdade Girley
Vivemos já ha muito tempo uma guerra civil.
Não ha vencedores, só vencidos.
Nós, pela insegurança, pela violencia, pelo descaso, pelo desrespeito, pela desesperança.
Os outros, onde talves estejamos tambem incluídos, pela ausencia do estado, pela falta de educação, de cidadania, de ética, de perspectivas, de respeito, de família, de DEUS.
Vivemos hoje uma sociedade em que falta familia, escola e igreja, tres pilares da sociedade. E olhe que não faço parte da antiga TFP ( tradição familia propriedade). Na grande maioria dos casos, a família não cumpre seu papel e como falta família, falta tambem religiosidade. A escola por sua vez não se considera comprometida em educar, em faser cidadaos e deu no que deu. Vivemos essa guerra.
Precisamos descobrir qual o nosso papel.
O que podemos fazer para mudar esse quadro.
Que contribuiçao podemos dar. Essa é e deve ser nossa missão, na condição de membros desa sociedade doente.
Grande abraço.
Clara Calado

phcosta disse...

Amigo,

É cada um por si e Deus por todos. Não há o que fazer - é viver ou morrer!

Quem tiver seu blindado pode circular com alguma segurança. Nós, simples mortais, vamos tocando a vida da forma que dá.

Um dia desses li uma EXCELENTE definição da diferença entre POLÍTICOS E BANDIDOS - A diferença é que OS POLÍTICOS, nós os escolhemos e os BANDIDOS, eles nos escolhem!

Seria hilário se não fosse triste, mas é nossa realidade.

Resumo com um conhecido jargão: "De Gaulle tinha razão. O Brasil não é um país sério." Esta frase, cunhada pelo ex-presidente da França, Charles de Gaulle, há décadas retrata bem nossa realidade política e social.

Forte abraço,

Philipe