sexta-feira, 8 de maio de 2009

Attenzione, i brasiliani sono prossimi!

Com pouco mais de vinte anos de idade fui, pela primeira vez, à Europa. Em Florença, na Itália, assisti a uma cena inesquecível: integrante de um grupo grande de brasileiros, em excursão pelo Velho Mundo, ao entrarmos no famoso Mercado da Palha, local de grande atração turística, houve como um corre-corre dos comerciantes. Ouvi claramente de uma velhota: Attenzione, i brasiliani sono prossimi! Traduzindo: Atenção, os brasileiros estão chegando! Surpreso com aquele vexame, perguntei ao Senhor Barros, nosso guia português, a razão daquela coisa. A resposta: “Muitos brasileiros que visitam este mercado roubam mercadorias dos comerciantes”. Aquilo foi como um soco na boca do meu estômago. Todas as vezes que voltei por lá, lembro desse episódio. Digamos que, virou trauma.
Esta é uma das coisas que jamais compreenderei. Fico muito incomodado com essa fama de ladrão do brasileiro. É impressionante. Que DNA mais desgraçado!
O tempo passou e, de fato, as coisas, a meu ver, não mudam. Em pleno século 21, o Brasil assiste, diariamente, ao vivo e a cores da TV, o progresso da gatunagem. E parece que agora está como nunca. Ou mais divulgado, talvez. A toda hora, aparecem ladrões vindos de todas as classes sociais. Com gravatas, sem gravatas, sem camisa ou vestido, homem, mulher, crianças, cínicos, disfarçados, tranqüilos e serenos, como se nada houvessem feito.
Pior é que o modelo maior está lá em cima. Misturado com os três poderes! Haja vista para episódios como mensalão, sangue-suga, farra de passagens aéreas, operações satiagraha e castelo de areia, dólares na cueca, depósitos nos paraísos fiscais, caixa 2, superfaturamento de obras, propinas, tocos, saldo de campanha, além dos “fichinhas” que são os assaltos a bancos e ao cidadão indefeso, roubos pela internet, seqüestros, batedor de carteira e muitas outras modalidades. Todo dia aparece uma nova. A zorra é tão grande que já tem ladrão roubando ladrão, que corre na Policia para registrar um BO e é “convidado a ser hóspede” lá mesmo, atrás das grades.

Francamente, é uma lástima viver num ambiente desse. A coisa parece que está, mesmo, no sangue. Facilitou, o sujeito é roubado. A coisa já, digamos, ficou banal!
Outro dia, minha empregada, há dez anos, toda confiante enquanto servindo meu café da manhã, teve a petulância de declarar que “acha bonito o pobre roubar do mais rico”. Dei um pulo na cadeira, passei-lhe um especial e ameacei demiti-la. Ela ficou sem jeito, gaguejou, pulou de um lado pra outro e tentou se “explicar melhor”. Não adiantou, a besteira havia sido cometida. Não demiti, mas ando com a “pulga atrás da orelha!” Coçaaaaando...
Mesmo saturado, habituado e cansado de acompanhar a bandalheira do patropi, fiquei pasmo com o noticiário de ontem, sobre as fraudes no Bolsa-Família. Foi demais... Imagine que, como se não bastasse o fato de que o Governo venha consolidando uma sociedade paternalista, quando “dá o peixe, ao invés de ensinar a pescar”, o Programa de Combate à Pobreza anda alimentando – como pobres necessitados – um bando de ladrões, nos quatro cantos do país. Ficou provado em auditoria. Uma vergooooonha.
O Tribunal de Contas da União publicou, ontem, um relatório que traça o perfil da indecência do brasileiro comum. Uma verdadeira praga! Os benefícios do Bolsa-Familia foram pagos a 577 políticos eleitos nas eleições de 2004 e 2006, fora mais 39.937 suplentes; 3.791 mortos; 106.329 proprietários de automóveis, caminhões, tratores ou motos e mais de 1 Milhão de famílias com renda acima do permitido. Resultado é que 312.021 famílias estão recebendo ilegalmente recursos do Programa, dando um prejuízo mensal, aos cofres da União, no montante de 26,5 Milhões de Reais. Não é um abuso? Abuso não, é uma tragédia. E pensar que somos nós, os contribuintes idiotas, que pagamos essa pouca vergonha, é de matar do coração.
Tem jeito não. Eu cresci vendo meu pai reclamar da ladroeira que assolava o país. Ele me dizia que não alcançaria o país de vergonha que sonhava. Ficava para a minha geração... Coitado, que ilusão! Eu não tenho esperança nem para os tempos dos meus netos. Do jeito que a coisa vai, a farra vai, ainda, muito longe.
Nossa fama, no Mercado da Palha de Florença, dificilmente vai se apagar. Passará de geração à geração de comerciantes. Curioso foi que, em 2005, visitando o mesmo Mercado, junto com minha esposa, tomamos conhecimento, por um comerciante ítalo-brasileiro local, do episódio do ladrão político preso no aeroporto de São Paulo, com os dólares na cueca. Aquilo foi demais, para mim. Diga mesmo, não foi uma ironia?
NOTA: Charge obtida no Google Imagens

6 comentários:

Ana Maria Menezes disse...

Girley amigo, quanta verdade há em tudo que você escreveu. Por que nosso povo tem que ser assim? Anos atrás visitou-me uma amiga e conversando me disse "sabe na França eu não gasto nem um vintém com fraldas descartáveis. Como? perguntei curiosa pensando que os franceses tivessem um plano social de doar fraldas descartáveis a bebés. Ela me descreveu como fazia para ter fraldas "gratuitas". Ia com empregada ( veja bem tinha empregada na França) fazer supermercado. Na hora de pagar as compras colocava o pacote de fralda na parte baixa do carrinho e seguia para o último "check out" existente, justamente aquele onde não se tem outro funcionário do outro lado do seu carrinho. Iniciava uma conversa com a moça do caixa, a empregada que a acompanhava, retirava as compras "habilidosamente" do carrinho do supermercado para outro carrinho que habitualmente traziam para levar as compras pra casa e "voilá" saiam com as "fraldas de graça" Na hora eu acho que ela sentiu meu horror, porque perdí a cor e evidentemente a amiga. Outra "colega" certa vez me contava como vantagem, como ensinava a filha no supermercado a comer yogurte, bolacha, doces e ter cuidado para não ser vista jogando a embalagem no lixo ANTES de chegar à fila do caixa. Como vê meu amigo se passa de geração em geração esses exemplos desonestos como se fosse vantagem ensinar um filho a ser malandro, ladrão e usando o significado total da palavra safado. O que vale é que temos ainda um número grande de brasileiros amigos, sérios, honestos gente com que podemos contar e sentir neles a esperança de que mesmo vivendo como estamos vivendo, debaixo dessa anarquia dos nossos representantes, os ensinamentos éticos são respeitados e ensinados desde do berço. Ana Maria Menezes

Anônimo disse...

Foi mais ou menos nesta época, de sua viagem, que soube de uma estrepolia de brasileiros na Europa. Moldar ficha telefônica em gelo.
Legitimação de tal comportamento veio com a chamada Lei de Gerson. Relembrando: Gerson, ex-jogador de futebol, fez uma propaganda de cigarro, e dizia que fumava aquela marca de cigarro porque queria “levar vantagem em tudo”.

BRAVO Curso de Lingua e Cultura italiana disse...

Absurdo! Isso é uma verdadeira impertinência.

Na verdade não concordo com quase nada daquilo que escreve GB em seu BLOG. Detesto chavões que generalizam o nosso povo, até porque faço parte dele.

Além disso na maior parte das vezes a estória é contada de outro modo > "gli italiani sono tutti ladri". O que não concordo também.

Corrupção e gente de caráter duvidoso existem em todo lugar, não é uma questão de DNA e sim de educação doméstica.

Aprendi a valorizar o povo brasileiro com imigrantes italianos, meus pais, que jamais abriram a boca para falar um A do nosso povo, ao contrario, dizia sempre “i brasiliani sono tutti buona/brava gente”.

Incomoda-me sinceramente o fato de um brasileiro expor seu povo e desvalorizar sua gente por um fato sem a menor relevância. Afinal de contas, quem era essa tal “velhota italiana”, quem sabe uma demente. E quais os parâmetros utilizados para tal desatino, quem sabe ela própria tenha praticado algum tipo de furto e como diz o ditado: “quem disso usa disso cuida”. Quem poderia responder afinal de contas depois de tantos anos?

Não podemos valorizar fatos dessa natureza, seria uma total perda de tempo. É sabido que alguns italianos também se incomodam com estrangeiros em seus pais e falam mal, muito mal, das brasileiras. Não podemos nos contaminar, até porque cada um da o que tem, literalmente.

Boa semana e cordiais saudações... TatianaFlorentino

Wilma disse...

É Girley, é uma pena que o comportamento de alguns brasileiros se generalize. É mesmo uma vergonha!
Pena que o nosso País fica conhecido não pelas suas belezas naturais,mas pelo País dos ladrões, das falcatruas.
É triste saber que existem pais que incentivem filhos a cometer atos comportamentais errôneos achando que estão levando vantagens.... Mas é verdade que EDUCAÇÃO não se aprende na escola, ela vem de berço.
Grande abraço.
Wilma.

Anônimo disse...

Caro Girley

Sempre estive pelo velho continente e posso afirmar que nunca aconteceu comigo ou com alguem que eu conheça isso que voce narrou, principalmente na bela Itália, que não pode falar de ninguem. Para finalizar, concordo com o que escreveu Tatiana Florentino.

Girley Brazileiro disse...

Caros amigos, particularmente Tatiana Florentino e o Anônimo (pena que não se identifique,
Tenho dado muita atenção aos comentários que recebo. E, claro, faço questão de publicá-los no Blog, mesmo que não concorde com a opinião do leitor. Foi o que fiz neste caso.
Mas, a proposito do que escrevi, acho oportuno transcrever o que vi no Jornal O Globo, de hoje (15.05.09) uma noticia que me deixa mais indignado ainda. Diz o seguinte: nova campanha publicitária da rede americana Burger King veiculada na Inglaterra pode tirar muito carioca do sério. Entre os cartazes que divulgam a nova promoção está a seguinte frase: "One way ticket to Rio not necessary. You'll feel like you´re robbing us" (algo como "Não é necessário uma passagem só de ida para o Rio. Você vai sentir como se estivesse nos roubando").
Acho isto um desrespeito sem limite, ao povo brasileiro! Mas, corrobora com meu artigo aqui postado. INFELIZMENTE, somos vistos assim, mundo afora. Continuo lamentando.
Girley Brazileiro