quarta-feira, 8 de abril de 2009

Antigamente, era muito diferente...

Antigamente, era muito diferente... a gente já deixava de ir a escola na 4ª. Feira, ninguém trabalhava, o comércio fechava, porque a partir do meio dia, já começava o retiro espiritual da semana santa. Dali em diante até a sexta feira, outro sinal muito efetivo vinha pelas ondas dos rádios – então muito prestigiados – que só colocavam no ar músicas clássicas e que todo mundo chamava de música fúnebre. Fazia-se um silencio no meio do mundo, que chamava a atenção de nós, meninos irrequietos, loucos que passasse aquela época tão monótona. Claro! Não se podia cantar, gritar ou fazer algazarras. Arengar com um irmão, seria um pecado mortal.
Paralelamente, a minha casa era invadida pelo cheiro do pescado e do bacalhau que era consumido durante três dias. Para acompanhar havia o feijão e o arroz de coco, verdadeiras delícias, completados pelo o bredo, ao molho de coco, também. Naquela época eu não era muito fã de peixe. Achava insuportável ter que fazer a abstinência de carnes vermelhas por três dias seguidos. Era um sacrifício.
Certas horas, havia o capitulo de ir à Igreja. Lembro da cerimônia do lava-pés, da celebração relembrando a instituição da eucaristia e da procissão do Senhor morto. Beatas choravam, com o terço na mão e beijavam o Cristo na cruz. Era um clima de puro féretro.

Apesar da austeridade exigida, havia duas coisas bem profanas e divertidas, que terminavam quebrando o clima pesado do retiro: a noite do serra-velho, acho que na 4ª. Feira e a da malhação do Judas, na 6ª. Feira. Não estou muito seguro desses dias. A primeira até hoje não entendi. Escolhiam um cidadão ou uma cidadã de muita idade e, de modo geral, antipatizado pela comunidade e simulavam sua morte. Munidos de um serrote, roçando numa lata velha, produzindo um barulho desagradável, alta madrugada e, na porta da vitima, tratavam de fazer um inventário e “distribuição” dos bens do “morto” entre os promotores da provocação. Tinha nego que ficava tiririca e reagia, muitas vezes, a fogo. Quando a arma cuspia balas, os “herdeiros” corriam com os pés nas costas. Quanto a história do Judas, lembro que escolhiam um cidadão, malquisto pela comunidade, para ser “julgado”, em praça publica, através da figura de um boneco em tamanho natural. Era a maior desfeita. Os promotores da malhação, muitas vezes, conseguiam, nunca se sabe como, algumas peças de roupas do cara, produziam um boneco recheado de trapos e folhas de bananeira (eu ajudei a fazer um) e penduravam num poste, bem debaixo da luz pública. O sujeito quando via aquele boneco com suas próprias roupas, era capaz de se suicidar. No fim da noite o boneco, digo o Judas, era derrubado e surrado aos gritos da cambada. Neste caso, estava claro, que se fazia uma relação com a figura do Judas, o traidor de Cristo.
Quando, finalmente, chegava o sábado havia uma explosão de alegria. As rádios, em vez de musica fúnebre, atacavam de frevos e marchinhas de sucesso do último carnaval. Os clubes sociais promoviam os chamados bailes de aleluia. Era o maior carnaval do mundo, numa única noite. Aleluia, aleluia, Cristo ressuscitou!
Hoje é tudo muito diferente. Católico de nascença, fico meio desconcertado, quando vejo a programação dos dias da semana santa dos meus filhos, dos filhos dos meus amigos e dos próprios amigos. Definitivamente, acabaram com o clima de retiro e respeito à Paixão de Cristo.
No lugar das chamadas músicas fúnebres, a programação das rádios não muda em nada e se ouvem as costumeiras batidas do rock, os pagodes e sambas, ou coisas parecidas. Nas estâncias de férias, promovem-se monumentais festivais de músicas, nos quais a moçada se esbalda e extravasa seus instintos mais obscenos. Pra começar, as bandas, vejam só, levam nomes muito esquisitos, tais como Biquíni Cavadão, Garota Safada e Calcinha Preta, entre outros. Isto não casa com nada de bom senso, principalmente o religioso. Pense pular ao som da banda de Ivete Sangalo, em plena noite da 6ª. Feira Santa. E comer churrasco de picanha no meio da festa! Acontece, sim. Não é um horror? Se minhas avós, por um milagre que fosse, voltassem ao mundo dos vivos, davam uma marcha à ré e, fazendo o sinal da cruz, deitavam e morriam, outra vez. Eu nem choraria. Conformado, entendia que não lhes restava outra coisa.
Não! Não é saudosismo, nem beatice, nem falso moralismo. É desconforto espiritual. Acho que um retirozinho, uma pausa para meditar, pode fazer muito bem a essa juventude inquieta de hoje.

Nota: Fotos do Google Imagens

9 comentários:

Cristina Henriques disse...

Girley:
Seu comentario no blog reflete o pensamento de milhares de cristãos católicos e protestantes.
Liberdade demais vira anarquia e invade o espaço do outro. Viva o saudosismo e a volta dos valores. Mas isso se ensina em casa, para que nossos filhos cobrem nas escolas e cidades.
Formemos cidadãos, eles consertam a rota.Cristina Henriqeus

simone Lustosa disse...

Excelente artigo Girley.
Feliz Páscoa a você e sua família.
Abraços,
Simone Lustosa

ROBSON SANDRO disse...

Amigo Girley,

Lendo seu texto, concordo plenamente com sua observação. Digo mais, acredito fortemente que esse desconforto espiritual é vivido por todos nós. Estamos vendo praticamente o fim do mundo com tanta violência e essa violência vem com certeza dessa descrença religiosa que está acontecendo.
Amigo, um forte abraço e parabéns pelos textos, sempre bem escritos e oportunos.

astrodobrasil disse...

Oi, Girley:
Realmente você tem razão, os jovens tomam uma atitude insólita, no setido de abusiva e louca.
O seculo XX foi o século da vaidade a mãe de todos os vícios e na atualidade criou-se um sub produto da vaidade que se chama PERMISSIVISMO, o importante é está numa boa... ou os jovens não absoveram um pouco dos principios morais e religiosos de seus pais ou os pais não souberam transmití-los. A verdade é que os mais vividos estão perplexos e a vida continua pela aceitação de tudo ou a falta de controle de tudo, permite-se em qualquer lugar na praça na TV em casa e na consciencia de cada pessoa e este virus do PERMISSIVISMO vai continuar até a dissolução, caso não haja uma reação de grupos que procurem sustentar esta barra.A Igreja o Rotary e outros.
Feliz Pascoa!!!
Mario e Cida

Edvaldo Arlego disse...

Caro Girley, parabéns pela crônica, não só quando ao estilo como também quanto a propriedade do tema. Concordo com o amigo em gênero, número e grau. Abraços e Feliz Páscoa. Arlégo

Susana González disse...

En mi país, siempre más mestizo se conservan muchas tradiciones y la semana santa es entre el pueblo mexicano muy importante, pero con sus matices profanos. Se conservan las procesiones, visitas a iglesias, pero desde luego que mucho menos religiosos. Nuestra religión esta muy mezclada con la indígena, por lo que somos menos apasionados que los brasileños en cuanto al fervor,siempre y cuando no se trate de la Virgen de Guadalupe, la cual también tiene detrás una historia prehispánica que los españoles quisieron ocultar. Se dice que los mexicanos somos más guadalupanos que católicos romanos.

A continuación comparto contigo un artículo sobre una de las tradiciones mexicanas en semana santa:


Los españoles trajeron a México la costumbre de “quemar a Judas”, el hereje por excelencia. Se dice que la Inquisición los quemaba, en representación de los prófugos de su justicia, quienes a pesar de haberse salvado de las llamas físicas, las recibían en el cuerpo del muñeco y en el fuego que los esperaba en el infierno al que estaban condenados por la Eternidad. El Judas o el Juan Carnaval son muñecos que, generalmente, parecen diablos. La quema del Judas representa la limpieza que se obtiene mediante el fuego y prepara para iniciar un Año Nuevo, que cualquier campesino sabe que empieza con la primavera, cuando la naturaleza se renueva y se preparan las siembras; es decir, en las fechas en las que se celebra la Semana Santa. En algunas comunidades indígenas, como entre los huicholes, en lugar de la quema del Judas, brincan por encima de una valla de fuego hecho con zacate ardiendo. Algunos Judas eran muñecos que representaban a personajes poco queridos de la vida pública. Esto era tan popular que el dictador Santa Ana publicó el 17 de marzo de 1853, un decreto que lo prohibía: “[…] ni se quemarán o venderán los muñecos que vulgarmente se llaman Judas, siempre que tengan algún vestido o distintivo con que se ridiculice a alguna clase de la sociedad o a alguna persona determinada...” En las calles de Tacuba y San Francisco, ahora Madero, de la ciudad de México; se quemaba un tipo especial de Judas. Sus cuerpos estaban rellenos de zapatos, ropa, etc., que caían al estallar el muñeco a causa de las llamas. La gente festejaba y se peleaba por recoger lo que podía. Los Judas son trabajo de artesanos. Los hacen con armazones de carrizos que forran con papel y cartón, y los decoran con pintura comercial, generalmente de colores rojo y negro brillante; sin embargo, la fabricación y quema de los Judas puede ser diferente de un pueblo a otro: por ejemplo, en la Costa de Barlovento, estado de Veracruz, el Judas que se quema el Sábado de Gloria, se hace de paja y zacate seco.

La tradición de la quema de Judas, es una festividad que ronda entre el catolicismo y el paganismo, ya que por un lado representa la quema del traidor de Cristo y por otro lado al realizar imágenes de personas de la vida común, principalmente políticos que a consideración del pueblo han traicionado a las personas que depositaron su confianza en ellos, o simplemente personas que se les considera sobresalientes en la sociedad por tal o cual motivo y se le realiza su representación bajo la técnica de la cartonería, lo cual convierte este acontecimiento totalmente pagano, ya que, antes de detonar la pólvora, se le dice a cada uno de ellos una lista de vituperios a forma de juicio.

México es un país sumamente rico culturalmente, tenemos gran diversidad de tradiciones que convergen diariamente en el devenir del desarrollo de las personas que habitamos el territorio nacional, muchas de esas tradiciones están en peligro de extinción, sin embargo muchas otras están en plena ebullición y siguen siendo un hervor en las poblaciones rurales principalmente, si, en las comunidades más alejadas es donde la tradición sigue vigente como parte de la cotidianidad y es que el estar fuera de las modas que atrae la modernidad, de los prejuicios y estereotipos que genera y alimenta la televisión, e incluso estar desconectados del Internet, estas sociedades rurales mantienen vivas las tradiciones, siguen de pie luchando con lo único que seguiremos como pueblo; nuestras raíces que en las ciudades se han visto en intento de ser sepultadas vivas por el cambio por otras de procedencia extranjera.

Para satisfacción nuestra, en San José, existe EXE NOCIÓN, que es una asociación que está luchando por rescatar algunas de las muchas tradiciones iturbidenses que parece están pérdidas, cuando menos no del todo, este grupo de artistas locales se han empeñado en buscar esa parte que nos identifica como pueblo, por ejemplo, durante algunos años le han vuelto a dar vida al día de muertos en noviembre, donde afortunadamente a mi se me ha invitado a realizar las tradicionales calaveras literarias, y en estas fechas después de la semana santa, esta asociación intenta rescatar la tradicional quema de Judas, la cual la realizamos en esta plaza de las Atarjeas donde con antelación los señores Hernández, artistas de la pirotecnia dieron principio a esta bonita fiesta y que hoy todos nosotros estamos disfrutando.

Pedro Rivera disse...

Estimado amigo e companheiro Girley, gosto muito de suas mansagem, de suas blogs, mas nâo falo porque meu portugués nâo é forte, nâo é fluido, nâo é superior. Sim dúvida mais adiante falerei de seus interesnates palavras e mensagem.
Um grande abraço pra vc e sua linda familia
Pedro Rivera
Santiago - Chile

Wilma disse...

Primo Girley,

Concordo totalmente com suas palavras.Engraçado é que a semana passada estava conversando com umas amigas,lembrando e comentando como era uma 6a.feira santa no passado; lembro que mamãe não deixava que se varreese a casa,banho de lavar a cabeça,nem pensar....Nas rádios só tocavam de fato as músicas,como vc mesmo falou,que chamávamos de fúnebres.Veja que hoje,aqui mesmo em Pernambuco,Gravatá anuncia um verdadeiro desfile de cantores que atrai multidões!
Mesmo em Nova Jerusalém,onde estive semana passada,na Arena da Paixão,já existe um palco onde artistas fazem shows e multidão dança a vontade.
Realmente,os tempos mudaram,e como mudaram....
Grande abraço e boa páscoa prá vc e família.

Wilma.

Rosa Maria disse...

Prezado Girley
Dentro do espírito de seu artigo posso encaixar a observação da minha neta de tres anos, o qual, apesar de divertido por se tratar de uma criança tão pequena, pareceu-me ser um autêntico "sinal dos tempos". Ela me disse bem séria: "vovó, a páscoa é o natal do coelhinho!"
Apesar de engraçado, fico pensando: o que estamos fazendo com nossas crianças? A semana santa virou festa do chocolate? E coelhinho bota ovo?
Rosa Carneiro