terça-feira, 10 de junho de 2008

UMA PARADA NA PÁTRIA-MÃE

O que, em principio, sugere ser um incômodo, a parada em Portugal – na ida ou na volta – termina sendo um agradável momento para quem sai do Recife com destino a qualquer ponto da Europa. É, sem dúvidas, a mais confortável maneira de chegar ao Velho Continente. São apenas sete horas de vôo até Lisboa e, depois, poucas horas para a maioria das grandes cidades européias. Geralmente com imediatas conexões.
Mas, tendo tempo, o melhor mesmo é ficar por lá um ou dois dias e curtir as belezas de um país, que, por óbvias razões, recebe de modo especial a nós brasileiros.
Portugal está debruçado sobre o Atlântico nas beiradas do Continente, razão pela qual foi, durante muito tempo, tido como sendo o fim do mundo. Dali prá frente tinha-se apenas uma imensa e misteriosa massa d´água salgada recheada de lendários monstros e ondas revoltas, pondo medo a todos os seres vivos que até ali chegavam. A coisa somente mudou de figura quando Cristovão Colombo e um destemido navegador português, Pedro Álvares Cabral, avançaram mar adentro e o portuga, numa lufada de sorte e feliz acaso, deu de caras com a Terra de Santa Cruz, depois denominada Brasil. Esta é a história oficial. Há controvérsias. Mas... Deixa pra lá.
A brisa do Atlântico varre o país por inteiro e semeia nele um clima arejado e de suave frescor.
Lisboa, a capital do país, é uma das mais agradáveis cidades que conheço. Por sorte, estive por lá duas vezes, nos últimos seis meses.
O centro histórico da cidade pega qualquer visitante tupiniquim pelo pé. Pensando bem, para entender melhor a história do Brasil é muito interessante ver e visitar pontos históricos de Lisboa. Não faz muito tempo comentei sobre o livro 1808, que conta a chegada da família Real Portuguesa ao Rio de Janeiro e a transformação do Brasil num Reino Unido a Portugal. Passando, pelo cais de Belém, nas margens do Rio Tejo, que nasce na Espanha e lava Lisboa, lembrei-me da fuga de D. João rebocando a rainha mãe, D. Maria I, a Louca, toda atrapalhada, segurando os trapos reais e reclamando da correria, na cabeça dela desnecessária, “porque, afinal, ninguém está a fugir, pá!”. E, as tropas de Napoleão na cauda do manto real.
No mesmo cais de Belém, uma parada diante do Monumento aos Navegadores para lembrar que dali partiu Cabral. Mais adiante, uma parada diante do cartão-postal símbolo da cidade, a Torre de Belém. Entre esses dois pontos, lembrar de Gago Coutinho e Sacadura Cabral, diante do hidroavião com o qual fizeram a primeira travessia aérea do Atlântico, partindo daquele ponto e vindo parar no Recife, no cais de Santa Rita, em 1922.
Dali, é chegada a hora de degustar os famosos Pastéis (de nata em massa folhada) de Belém, produzidos há mais de um século. (Vide foto ao lado) Isto é uma tradição de um pedaço da cidade que guarda outras jóias históricas como o belíssimo Mosteiro dos Jerônimos e o precioso Museu dos Coches. Imperdível.
História à parte, ocorre-me lembrar o prazer de caminhar pela bela Lisboa.
Para muitos o coração da cidade está na rotunda do Marques de Pombal. E não estão errados. Estrategicamente situada, semelhante ao Arco do Triunfo, em Paris, a Rotunda do Marques é ponto de partida para os quatro cantos da cidade, com amplas e pomposas avenidas. A sua retaguarda, o Parque Eduardo VII oferece ao lisboeta e aos visitantes um dos mais belos jardins da Europa, plantado num terreno que se eleva na medida em que se afasta da Rotunda, proporcionando em qualquer das duas extremidades paisagens de beleza singular.
Na direção do Tejo, para onde o Marques está a olhar permanentemente, abre-se a mais larga avenida da Europa, a Avenida da Liberdade, com suas construções neo-clássicas, de altura uniforme, reunindo um conjunto arquitetônico dos mais elegantes. Descer caminhando esta avenida é, indiscutivelmente, um grande deleite para o turista, observando as lojas e magazines, bancos internacionais, hotéis de luxo, restaurantes, clubes noturnos, entre outros. A Liberdade vai terminar quase num gargalo que dá acesso à Praça do Rossio, centro histórico da cidade, onde quem pontifica é a estátua de D. Pedro IV, que não é outro senão nosso D. Pedro I, que substituiu, no trono do Reino de Portugal, seu pai D. João VI. Nessa praça (Foto lá de cima), a sociedade portuguesa se encontra – ao final da tarde – para um happy-hour ou um agradável café, em tradicionais e seculares confeitarias. Dali, saem ruas de comércio da Baixa, todas muito “portuguesas com certeza”, seja pelo aconchego do lay-out, quanto pela gentileza dos comerciantes e comerciários. Rua Áurea, Rua da Prata e entre as duas a bela Rua Augusta, com seu belíssimo portal que dá para a ampla Praça do Comércio. Portas de Santo Antão e Rua dos Sapateiros, subidas à Cidade Alta feita por bondes, à moda antiga, por um lado, que levam aos bairros boêmios da Alfama e Mouraria e, por outro, que dá acesso aos Armazéns do Chiado e arredores, pelo elevador de Santa Justa. O elevador é tombado pelo patrimônio histórico e está sempre muito concorrido, sobretudo com turistas que acodem ao seu irrecusável chamado, para ver a cidade lá do alto. Nada mais agradável do que, lá em cima, tomar um drink no barzinho, chamado Céu de Lisboa, apreciando a paisagem da cidade, o Castelo de São Jorge, a Praça do Rossio e os telhados dos prédios seculares.
Mas, Lisboa se desdobra em muitas outras atrações, como o moderno Parque Expo, local da Exposição Mundial de 1998, com seu conjunto de equipamentos turísticos, incluindo o mais moderno dos oceanários do mundo, um teleférico, centro de compras, hotéis etc. Ao fundo a moderníssima ponte Vasco da Gama.
Por fim, uma referencia à mesa portuguesa, pois! Neste item, o bacalhau (Vide foto ao lado) é a melhor pedida. Deus me livre sair de Portugal, sem curtir esse sabor. É o melhor deste planeta. Noutros, não sei, porque nunca lá estive. O assado na brasa, acompanhado das típicas batatas aos murros, regado com azeite d´oliva e arredondado com um bom vinho nacional, claro, é de comer ajoelhado. O preparado pela Marisqueira Santa Marta, eu garanto. Desse modo, a parada na Pátria-Mãe é providencial e sempre oportuna.

NOTA: Eu já não tinha mais intenção de falar de viagem, de Itália ou qualquer coisa relativa a esta recente viagem à Europa. Mas, o sucesso dessas matérias, entre os leitores e, a pedidos desses, escrevi sobre esta passagem por Portugal.
As fotos são do blogueiro.

8 comentários:

Anônimo disse...

Girley,

Estou saboreando um pedaço do seu bacalhau.
O sabor está de arrepiar os nossos cabelos.
Muito Obrigado,

Alberto Rodrigues

Ana Claudia disse...

Girley
Vc é muito chic. Tem seu próprio blog!
Adorei saber e vou passar de vez em quando pra ver seus artigos.
um cheiro,
Ana Claudia (Revista Cais do Porto)

fernandalnpires disse...

Caro companheiro Girley: Gostei muito do seu texto sobre Portugal. Aliás uma verdadeira e maravilhosa crônica! Sabia do seu ótimo desempenho como rotariano, mas não sabia dos seus dotes de escritor. Parabéns! Como conheço Portugal reviví muita cousa vendo o seu Blog. Um abraço FernandaPires

Anônimo disse...

Caro Girley, tenho caminhado tanto pela Europa através do seu blog, que já estou providenciando meu passaporte, a fim de evitar problemas com a aduana, tamanha é a capacidade de nos transportar que o seu maravilhoso texto tem. Parabéns. Quando for ao Egito, não esqueça de mim. Abraços, Arlégo.

Anônimo disse...

Gi,
Tenho amado ler seu blog. Os seus relatos de viagens sao adoraveis tanto pelo conteudo como pela sua maneira jocosa de escrever.
Ja levei meu laptop para a casa do papai so para mostrar os relatos aos irmaos.
lulu

Anônimo disse...

Girley, como sempre adoro viajar com você, amei Portugal e adorei saborear este bacalhau.
bjs, Clécia

Canojones disse...

Caro Amigo e Companheiro Rotário
Li a sua descrição sobre a passagem por Lisboa. Gostei, mas tenho sempre que referir, nestas situações, que quem passa por este cantinho europeu e não vem conhecer a sua região norte desconhece o que de mais genuíno caracteriza Portugal. No Norte está a génese da pátria, a verdadeira alma lusa, visível na afabilidade das suas gentes, nos seus monumentos, na arquitectura habitacional - tão semelhante à brasileira, principalmente à nordestina -, a sua cozinha tradicional, o vinho verde (só produzido no Minho), a sua etnografia, todo o pulsar autêntico de um povo que sabe receber e que cativa simpatia.
Espero, pois, que da próxima vez venha ao Porto. Teremos todo o prazer em o receber e de lhe mostrar este verdadeiro museu a céu aberto.
Carlos Jorge Mota / Inêz Paiva Mota

Girley Brazileiro disse...

Caro Companheiro Carlos Mota,
Devo lhe dizer que conheço bem essa sua região. Já andei varias vezes pela Terrinha. Adoro o Porto, além de Famalicão, Braga, Guimarães e outros pontos do Norte de Portugal. Na última vez, que por aí andei, aluguei um carro e subiu para o Norte, entrando na Espanha e indo até Santiago de Compostela. Parei em Vigo e curti a vida da Galicia, me esbaldando com tudo que vi, comi e bebi.
Breve retornarei e os procurarei.
Obrigado pela visita ao Blog. Volte sempre.
Especial abraço.
Girley Brazileiro