terça-feira, 17 de junho de 2008

PASSAGEIROS DO KASATO MARU

Nesta semana comemora-se, no Brasil e no Japão, o centenário da chegada do primeiro contingente de imigrantes japoneses, de uma grande série – apoiado por um acordo bilateral entre os governos dos dois países – que trocaram a terra do sol nascente pelo calor dos trópicos, numa saga de imensos desdobramentos para eles próprios e para o Brasil, um país jovem, pleno de oportunidades e em construção.
Quando, no dia 18 de Junho de 1908, 781 japoneses, após 50 dias de viagem, desde o Porto de Kobe, desembarcaram do navio Kasato Maru (foto ao lado), no Porto de Santos, em S. Paulo, nem eles mesmos tinham idéia de como viveriam dali para frente. A única coisa que desejavam era trabalhar muito, fazer o que no Brasil chamamos de um “pé de meia” e voltar à terra natal, com melhores condições econômicas e carregando a esperança de encontrar o país natal em melhores condições de vida. Ou seja, não vieram para ficar e sim para passar uma temporada.
Para os brasileiros esses imigrantes eram vistos, apenas, como mão-de-obra direcionada para a lavoura do café, à época mergulhada numa imensa crise de mão-de-obra, devido ao fim do regime forçado da escravidão, secundado pela necessidade de atender a crescente demanda pelo produto no mercado mundial. Esse adicional contingente de força de trabalho, portanto, chegava numa boa hora.
Até o início da 2ª. Guerra Mundial, desembarcaram no Brasil, algo em torno de, 190.000 japoneses! Desses, apenas 10% retornaram ao Japão.
Ficaram aqueles que, após anos de sacrifício, muitos no árduo trabalho da agricultura, isto é, no êito da enxada, construíram uma vida estável e profícua. Criaram raízes, constituindo famílias, miscigenadas com brasileiros, num mosaico racial de rara beleza. Os nipo-brasileiros são, geralmente, indivíduos de porte esbelto e de especial charme, que fazem sucesso, inclusive, na terra dos seus ancestrais.
Ao se radicarem no Brasil construíram, então, uma das mais sólidas amizades binacionais que se tem noticia no mundo. Vivem hoje, no Brasil, aproximadamente, 1,5 Milhão de descendentes, além de alguns remanescentes, ainda, do fluxo migratório. O Brasil tem a maior comunidade nipônica fora do Japão.
São brasileiros de olhos apertadinhos que vêm dando uma inestimável contribuição ao desenvolvimento do Brasil – nos mais diferentes domínios sociais e econômicos – e nosso país, indiscutivelmente, não seria o que está aí, não fosse a presença do imigrante nipônico.
Tradicionais produtores agrícolas, no Oriente, introduziram novas formas de cultivo da terra e uma imensa gama de novos produtos entre grãos, frutas e hortaliças, antes desconhecidas. Devemos a eles, por exemplo, a introdução da soja na agricultura brasileira, que atualmente responde por 20% das nossas exportações agrícolas.
A eles devemos, também, uma imensa variedade de hábitos alimentares, pratos e especiarias trazidas do Oriente, que mixados com produtos brasileiros adicionaram um toque especial ao que já se denomina gastronomia nipo-brasileira. A culinária japonesa tomou conta de expressiva fatia do mercado de restaurantes, no país inteiro, com uma impressionante aceitação, sobretudo entre os clientes mais jovens.
Mas, não fica por aí. Nas artes – cinema, literatura, jardinagem, pintura, cerâmica, escultura e arquitetura – na ciência e tecnologia, no esporte, entre outros domínios, inclusive na política e administração pública, a presença dos nissei (2ª. geração), sansei (3ª. geração), yonsei (4ª. geração), gosei (5ª. geração) , rokusei (6ª. geração) é, indiscutivelmente expressiva.
A concentração dos imigrantes está no estado de São Paulo. Na capital paulista, ruas, vilas e bairros, como o da Liberdade (vide foto ao lado), denunciam de forma efetiva a presença nipônica no Brasil.
Além de São Paulo, os imigrantes japoneses e seus descendentes marcam presenças em vários outros estados do País, entre os quais Paraná, Pernambuco, Pará e Bahia.
Em Pernambuco, onde vivem aproximadamente 2.000 nipo-descendentes, o destaque vai para a Colônia do Rio Bonito, no município de Bonito, que é um belo exemplo da presença japonesa, entre nós. A Colônia completa 50 anos, coincidentemente, este ano. Graças a eles Pernambuco é hoje um dos maiores (alguns garantem que é o maior) produtores de inhame do país, com imensa valorização no mercado internacional, dadas as propriedades, inclusive medicinais, do produto. Lá é também produzida uma colorida variedade de flores que adornam a vida de pernambucanos e nordestinos.
Tenho uma aproximação muito grande com a comunidade japonesa local, pelo fato de ser ex-bolsista no Japão e presidir a Associação Nordestina de ex-Bolsistas e estagiários no Japão – ANBEJ. Por quase três meses estive, nos anos oitenta, na Terra do Sol Nascente, participando de um programa de capacitação técnica, ocasião em que, por sorte, terminei conhecendo a maior parte do país. Foi uma experiência fantástica e, sobretudo, inesquecível. Viajei pelo arquipélago japonês de Norte a Sul e de Leste a Oeste. Provei de um mergulho cultural que, de modo definitivo, marcou minha vida. Falarei, disso, numa próxima oportunidade.
Neste centenário da imigração japonesa, nossas homenagens e agradecimentos a esses sagazes irmãos, pela contribuição ao desenvolvimento sócio-econômico brasileiro.

Nota: Dedico este artigo ao atuante Cônsul Geral do Japão, no Recife, Toshio Watanabe e sua delicada esposa, a Sra. Keiko, que coordenam com competência os festejos do centenário no Nordeste, entre o Ceará e a Bahia.

As fotos foram obtidas no Google Imagens, salvo a da barquete com iguarias japoneses, que é da autoria do blogueiro, tomada em um restaurante tipico da Liberdade, em S. Paulo.

7 comentários:

Antônio disse...

Girley: Faça uma reflexão. Enquanto toda a nação brasileira vibra e com o maior afeto festeja os 100 anos da imigração, a imagaem dos USA piora cada vez mais. Isso em face do Baby Bush e sua degenerada politica e tendência para a guerra, humilhando as nações, achando pouco a surra vergonhosa imposta pelo Vietnam. Mas o Iraque está aí, bravo, valente, nada de terrorista.Porque terrorista é o país que atravessa os oceanos, invade covardemente o Iraque, destroi monumentos de cinco mil anos de história... tudo exclusivamente por petróleo... A humanidade odia, mais e mais, os americanos. Vamos ver se essa gente não aprende, deixando de escolher Obama para permanecer no degenarado instinto bélico com o McCain... Viva o Japão, gente aguerrida, que conquistou o mundo. Outra: criei um slogan: cada ianque abatido no Iraque... é um Baby Bush a menos no mundo...

maria guimarães sampaio disse...

Girley,
gosto sempre de seus artigos e/ou crônicas.
Talvez você possa me dizer... a única colônia de japoneses que "não deu certo" foi a colônia JK na Bahia. É verdade ou lenda? Lembro que se ia lá comprar verduras e folhas frescas - muitas novas para a Bahia (há milênios, eu erta criança).
Você leu o ombudsman da Folha domingo? Dando pau no próprio jornal por não ter dado a devida cobertura e repercussão à vitória de Pernambuco no campeonato.
Beijos
Maria

Helio Moreira disse...

Muito bom artigo! vamos prestigiar Watanabe e os demais representantes da comunidade niponica na homenagem q o caxanga agape lhes presta hoje no boi preto as 12h.

Helio Moreira disse...

Companheiro Girley,
muito bom artigo,parabens, hoje o Caxanga Agape com certeza estara mais alegre com a homenagem prestada a esta gente de valor!

Girley Brazileiro disse...

Minha cara amiga Maria Sampaio,
Eu não tenho noticias sobre esta Colonia JK... Na verdade, é a primeira vez que ouço falar. Agora, em Juazeiro (ali ao lado de Petrolina) tem uma imensa colonai japonesa de imenso sucesso. Maior do que a de Bonito (PE.
Quanto a Folha de São Paulo não dar cobertura a vitória pernambucana (do Nordeste, aliás!)na Copa do Brasil, não se constitui em surpresa. É velho preconceito, minha filha! E agora, pasme, vi ontem a noticia de que Corinthias vai mover ação no Tribunal de Justiça Esportiva para anular os jogos com o Sport e reiniciar a disputa. Argumento: Jogaram fora de casa, no Morumbi! pode? desespero de perdedor.
Obrigado pela interação.
GB

Leninha Brasileiro disse...

Oi Girley!
Li a matéria no seu Blog sobre a Imigração Japonesa,
mas... faltou vc falar sobre a vinda -com esses
imigrantes - do Budismo, para o Brasil e alguns paises
da América Latina.
Aqui chegando, já em seguida eles sentiram falta do
convívio q tinham no Japão com os Templos, q além de
dar o embasamento espitual através da transmissão dos
Ensinamentos em forma de Aulas e Ritos, também ali
eles encontravam um convívio social, pois além de se
reunirem para os ritos fúnebres e "in memorium",dos
parentes falecidos - q vão até os 49 anos após a morte
dos mesmos - nos Templos do Japão, eles também
promoviam Quermesses para angariar fundos para
manutenção dos mesmos, Aulas de Artes Marciais, Yoga,
Ikebana, Massagem e Acupuntura, Cerimônia do Chá,
Culinária Japonesa, etc. contexto esse que prosseguiu
nos Templos aqui inaugurados, e persiste até hoje.Como
podemos ver,os Templos, também funcionavam lá no Japão
e até hoje, também aqui, como uma espécie de local
para eventos das Colonias, espalhadas em nosso
território, onde eles podiam matar as saudades da
terra natal.
Sou Monja do Higashi Honganji, que pertnce ao Nambei
Honganji Brasil Betsuin, e vejo tudo isso no nosso dia
a dia. Acrescente-se hoje nos Templos,contexto também
existente no Japão moderno, os Yotiens, (Escolas para
crianças Brasileiras e Descendentes )onde elas estudam
até os 10 anos e depois entram no Colégio. E...essas
aulas são dadas em Japonês.
Então, chegando aqui e sentindo a falta de tudo isso,
os imigrantes, apesar de ganharem pouco dinheiro, se
uniram e investiram na construção dos Templos, de
várias escolas Budistas, que são verdadeiras réplicas
dos Templos japoneses, espalhados pelo Sudeste do
Brasil -principalmente SPaulo e Paraná- nos quais ao
entrarmos nos sentimos como se estivéssemos no Japão.
E quando pensaram na construção, eles pediram ao
Japão para enviar os Monges missionários. Foram esses
Monges que começaram a difundir o Budismo no Brasil,e
continuam vindo até hoje.
Temos oito Escolas Budistas registradas na
Confederação das Escolas Budistas do Brasil, entre
elas a minha, Jodo Shin Shu (Templo Higashi Honganji),
assim como a Soto Zen, Nitiren,etc.
Acredito que sem a Imigração japonesa o Budismo
dificilmente teria adentrado a América Latina. Temos
que agradecer a esses pioneiros e seus descendentes,
os esforços empenhados na difusão da Luz do Oriente
nas nossas paragens, assim como o empenho que existe
até hoje para manter essa chama acesa.
Leninha Brasileiro

Girley Brazileiro disse...

Leninha. minha irmã querida,
Fico feliz pela complementação que vc fez à matéria, no Blog. De fato, foi um esquecimento lamentável. Mas, quem tem uma irmã budista não erra totalmente. Obrigado.
Um beijo,
Girley