sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

É Fevereiro e tem carnaval

É fevereiro e, como todo fevereiro, tem Carnaval. Já fui um bom folião. Quando os clarins de Momo anunciavam a folia, eu já estava na rua saudando o frevo, como um bom pernambucano, e eventualmente o samba. Era uma festa que eu esperava ansioso. Curtia e, quando em desespero, pelo som da quarta-feira ingrata, chorava de tristeza. O dia seguinte era lúgubre, triste e com clima de velório. Como foi bom aquele tempo.
Hoje, porém, a coisa me parece como se houvesse vivido um sonho que passou. Vejo à distancia uma coisa que não me abala. É engraçado, como não alimento o mesmo entusiasmo e a mesma vontade do passado. Será a idade? Fico pensando. No que mudei? Penso novamente...
Na verdade, atribuo esse estado de espírito (é preciso tê-lo para brincar a folia) a uma serie de razões, sobre as quais já falei em posts neste Blog, em épocas de carnavais passados.
O Carnaval do Recife mudou muito. Virou um grande negócio comercial e político. O festão popular é coisa do passado. O que hoje se assiste, não emana das raízes populares. E quando me refiro a raízes populares não quero dizer do povão, somente. Quero dizer deste, com certeza, mas também das camadas sociais mais abastadas. Já não se vêem mais entusiasmos nas agremiações populares de Blocos de Frevo, Maracatus e Caboqulinhos, que são sempre relegados ao segundo plano. Os desfiles destes são em artérias sem luz, sem público e sem clima carnavalesco. Alguns já chegam cansados ao arremedo de passarela, não dançam, apenas caminham... As verbas governamentais de apoio são exíguas – todas dependem de um político! – e os grupos estão minguando a ponto de desaparecer num futuro próximo.  As tais verbas são na maior parte destinadas a pagar cachês a artistas de fora, a preço de ouro, e quando aos locais – que são muitos e de grande qualidade – são sempre minguados e difícil de chegar aos bolsos dos contratados. Nem preciso dizer, também, que boa bolada vai para o bolso dos políticos e seus prepostos no processo de contratação. Inegavelmente, nunca deixa de rolar um percentualzinho. Parece ser cultural...  É uma lástima, mas no país da Lavajato...  De uma coisa estou seguro: é o mais simples modo de acabar com as tradições pernambucanas.   
Quando me refiro às classes mais abastadas lembro-me dos tempos idos, quando os grandes bailes pré-carnavalescos pontificavam no calendário de janeiro a fevereiro no Recife da minha juventude. Saudosismo? Não. Elitismo? Também não! Nada disso. Qualquer sociedade se forma histórica e culturalmente de movimentos diversos sem que haja distinção de classe social. Cada um vive como pode e deseja compondo um mosaico de costumes e tradições. Alguns desses bailes – como o Bal Masqué e o Municipal ainda se repetem, mas, nunca jamais repetem o entusiasmo e o glamour dos anos 70 e 80. Hoje são festinhas corriqueiras sem presenças de destaque, exceto as dos políticos de plantão que, inclusive, testam suas popularidades. Nem de longe lembram as festas do passado. Outros, tão importantes quanto, simplesmente desapareceram da agenda carnavalesca. Quem, da minha época, não se recorda da tríade de festas do Cabanga Iate Clube: Carnaval em Preto e Branco, em Tecnicolor e Começa no Cabanga. Sumiram simplesmente. Acho que nem o Baile dos Casados, no Atlético Club de Amadores reunia elite e povão (mulherio) escrachado. Sumiram no tempo e no espaço.  
Não posso deixar de falar no monumental bloco do Galo da Madrugada. Claro que é uma recente iniciativa vitoriosa. Acho um verdadeiro furor. Mas, é preciso ter raça para enfrentar a avalanche de foliões. Coisa de milhões. O único jeito, para mim, é empoleirar-me (empoleirar é um verbo adequado neste caso!) num camarote e ficar pulando num quadradinho e vendo a banda passar. Mas, já acompanhei na rua. Quando era possível. E quando não deixava de pular o carnaval.
O Galo no seu apogeu do sábado de carnaval.
Bom, por outro lado, na atual conjuntura é impossível não fazer uma referencia à falta de segurança no ambiente de folia. No carnaval deste 2017, as perspectivas são das mais sombrias. Ouvi numa entrevista em emissora de rádio, esta semana, um sindicalista de polícia da capital dando conselho, no mínimo, intranqüilizante: “aconselho a sociedade ficar em casa, neste carnaval, porque a policia não está estimulada para o trabalho, vai fazer uma operação padrão e não pode dar conta da bandidagem”.  Como viver num tempo desses? Acho que mesmo no tempo do corso mela-mela não era tão inseguro.
Acredito que coloquei as razões da minha falta de entusiasmo. Resta-me apenas desejar um bom carnaval a todos e todas, que se livrem dos percalços e voltemos são e salvos para “iniciar o ano novo”, já que no Brasil o ano só começa depois do carnaval. Eu mesmo, como tenho feito no passado recente, vou prá longe.

NOTA: Foto obtida no Google Imagens 

3 comentários:

Danyelle Monteiro disse...

Prof. Girley Brazileiro, aconselho no próximo ano que o Sr. brinque as prévias, tem blocos tradicionais de bairros fazendo o verdadeiro e autêntico carnaval de rua, com as pessoas cantando as marchinhas, fantasiadas...
Danyelle Monteiro

Edna Claudino Diniz disse...

Caro amigo Girlei,

Faço minhas as suas palavras.

Abraços

O Edna Claudino

Susana Gonzalez disse...

La edad hace q veamos las cosas desde otra perspectiva, también las situaciones q nos rodean y además, todo evoluciona, valdría la pena q trataras de ver cómo vive la gente joven estas fiestas, puede recordarte aquellos tiempos.
Susana Gonzalez (México)