segunda-feira, 9 de abril de 2012

Um Tipo Inesquecível

Agora que acabou a temporada da Paixão, os cenários são desmontados, o guarda-roupa fica esperando a próxima encenação, os iluminadores recolhem seus spots e o foguetório cessa, levando a vila de Fazenda Nova ao seu silêncio habitual, como se hibernasse até que chegue a próxima semana santa. Nos pacatos arruados e nas casas da maioria dos habitantes a vida volta à velha rotina, com o sustento garantido para os próximos doze meses. A base econômica daquela gente gira em torno da paixão da Nova Jerusalém.
Quando, no bem distante 1950, o chefe político e comerciante local, Epaminondas Mendonça, (Foto ao lado) teve a idéia de encenar com seus familiares, a vida, paixão e morte de Jesus Cristo, tinha por trás desse insight duas intenções bem claras: preservar uma tradição familiar de levar àquele povo humilde, iletrado e crente o conhecimento da história, através do teatro, como sempre fazia e, ao mesmo tempo, vislumbrar bons lucros financeiros para sustentação dos seus negócios, à época, centrados num hotel integrado à fonte hidromineral de propriedades medicinais, ali existente.
A primeira encenação ocorreu em 1951, inspirado num outro espetáculo levado, a cada 10 anos, na cidade de Oberammergau, na Alemanha. Naturalmente que não tinha a grandiosidade da produção que é levada atualmente dentro das muralhas da cidade-teatro. Ao contrário, era bem rudimentar, com cenários nada parecidos com o que se vê agora e aproveitando locais e imóveis da vila. O guarda-roupa era de verdadeiros arranjos – os mantos das mulheres de Jerusalém, por exemplo, eram os lençóis do Hotel Familiar, de propriedade dos Mendonça – os mobiliários e cenários eram toscos e de pouco efeito cênico, se comparado com os atuais. Enfim, era um espetáculo extremamente amador que, graças ao enredo e o apelo emotivo que despertava naquele público caipira, se firmou desde o primeiro momento. A partir da segunda edição, no ano seguinte, a coisa foi se consolidando e depois de seis décadas se transformou nessa monumental produção que vem atraindo espectadores do Brasil e do mundo, tendo sido assistido por mais de um milhão de pessoas.
Falar sobre o processo de desenvolvimento do projeto, de como se transferiu das ruas de Fazenda Nova para dentro das muralhas da cidade-teatro não é bem o foco deste meu comentário. Ao invés disso, minhas observações giram em torno daquela segunda idéia de Epaminondas Mendonça, ou seja, a “sustentação econômica dos negócios”.
De fato, o velho chefe político e comerciante teve uma brilhante idéia ao desenhar o projeto. Se vivo fosse estaria “colhendo louros” e navegando num mar de prestigio e popularidade que poderia gozar em meio aos seus conterrâneos que, por fim, eram seus eleitores. Ele foi prefeito, vereador, fez dos filhos deputado, prefeitos e vereadores e sempre esteve muito bem situado nas esferas políticas local e estadual.
Isto é provado porque em cada temporada da Paixão de Cristo a população de Fazenda Nova aproveita para fazer seu fundo de reserva financeira que, para muitos, é a única fonte anual, com o qual suporta seu meio de sobrevivência. Conversei, certa feita, com uma moradora local que me confessou ter no apurado de cada semana santa sua forma de subsistência anual. As pessoas, nessa época, se mobilizam para vender artesanatos, hospedar visitantes, fornecer refeições, cobrar por banhos ou uso do banheiro da casa, alugando seus cavalos e bicicletas, entre outras formas de “fazer dinheiro”, que, no final da temporada, é guardado e sacado aos poucos, quando necessário pelos meses seguintes. “Sem esse dinheirinho da Semana Santa eu já tava pelas portas pedindo o de comer” disse Dona Quitéria (nome fictício). Além desses tem também aqueles que são ocupados no espetáculo, propriamente dito. São muitos. Quase mil pessoas entram em cena e atuam nos bastidores. Os figurantes, por exemplo, que são mobilizados nos pés de serra e comunidades anônimas da região, vivem dias de regalia, com uma refeição que lhes é servida antes de entrar em cena (são aproximadamente 500) e com um cachê de figurante, saindo no final com condições de investir em sementes e seus simples implementos para lavrar a roça. E assim vão se sustentando. Ou seja, tem no espetáculo teatral criado por Seu Nondas (como era chamado, na intimidade), há 60 anos, uma solução de vida. Muitos nem sabem quem foi esse homem de visão... Interessante que, por outro lado, o modelo de Fazenda Nova é seguido por um sem número de outras paixões que, aos poucos, começaram a surgir noutras cidades do interior do Nordeste. Entusiasmados com a encenação da Nova Jerusalém, atores amadores saíram montando seus teatros, arrebanhando espectadores e vendendo emoções para uma interminável população cristã. São tantas as paixões de Cristo em Pernambuco, que o Governo do Estado já tem seu programa turístico intitulado de Pernambuco das Paixões.
Numa região carente e pobre como é, ainda, o Nordeste brasileiro essas iniciativas são sempre bem-vindas e devem ser incentivadas. E o nome de Epaminondas Mondonça não pode ser esquecido, por ser um tipo inesquecível. Ele viverá sempre enquanto paixões forem encenadas.



NOTAS: 1 - As fotos foram obtidas no Google Imagens. 2 - O Blogueiro é neto de Epaminondas Mendonça.

3 comentários:

Prof. Artur Reis disse...

Amigo Girley,

É muito bom lembrar e fazer jus a quem realmente iniciou tudo isso que hoje chamamos de espetáculo.
Na verdade, por trás de todo grande projeto de sucesso, até mesmo de um produto, teve alguém que criou e acreditou na idéia, tendo bastante determinação e perseverança para fazê-la acontecer, embora com ferramentas simples e rudimentares. Mas, essa pessoa teve a visão do futuro e foi capaz de iniciar tudo. O resto veio com o tempo e com o próprio desenvolvimento do projeto. O mundo está cheio de pessoas que têm milhares de idéias todos os dias, mas poucos conseguem fazer essas idéias florescerem. Parabéns pelo seu artigo e parabéns ao velho Epaminondas Mendonça pela ousadia criativa.

Geraldo Eugênio disse...

Amigo Girley,
Sempre um grande prazer contar com seus textos e a comunhão de lugares, pessoas, momentos.
Parabéns.
Geraldo Eugênio

Bruno Moury Fernandes disse...

Excelente o texto, Dr. Girley!
Parabéns!!!

Bruno Moury