quarta-feira, 26 de maio de 2010

Sabatina no Planalto

Não foi um debate. Os organizadores do evento de ontem (25.05.2010), na sede da Confederação Nacional das Indústrias – CNI, em Brasília, preferiram chamar de sabatina. Comemorava-se na ocasião o Dia da Indústria. A troca do formato, de debate para sabatina, foi resultado de uma exigência da equipe de campanha de Dilma Roussef. Com razão, a ex-ministra, em minha opinião, não está preparada para enfrentar um confronto público e diante de uma platéia tão seleta. Mas, dessa ela não vai escapar. Nem que seja na última hora. Eu estava por lá e o que assisti foi uma prévia do que poderá ser a campanha das eleições de outubro próximo: muita emoção. Até porque vai ser mesmo um confronto polarizado entre Dilma e Serra e, sobretudo, disputado taco-a-taco. Pelo menos à luz das pesquisas recentemente publicadas. A CNI convidou os três pré-candidatos à presidência da República: José Serra, Dilma Roussef e Marina Silva. Cada um teve um tempo de 25 minutos para expor suas respectivas plataformas de governo, seguidos de questões previamente preparadas pelos empresários industriais de vários pontos do país. A rigor nenhum deles apresentou plataforma. Os discursos giraram em torno das idéias que norteiam as posições partidárias. A única que disse estar preparando um plano de governo foi Marina. Procurei assistir tudo com a maior das imparcialidades possível, achando que a situação, como hoje se apresenta, exige cautela na escolha.
Dilma Roussef me pareceu uma candidata ainda muito verde, para o embate político ao qual se submete. Sem experiência em urnas e com um discurso batido – só fala em PAC e em feitos do Governo Lula – terminou frustrando a platéia que esperava ouvir propostas. No seu tempo de fala e respostas à questões que lhe foram dirigidas, o que se salvou, como novidade, foi assumir o compromisso de proceder a tão esperada Reforma Tributária e promover uma intensa política de Educação, contemplando não apenas a educação de base, mas também a formação superior e a de doutores, a exemplo da Índia e da Coréia. “Não se admite que, na era do conhecimento, haja tão poucos PHDs para um país, como o Brasil, que tem a pretensão de se tornar em pouco tempo uma das quatro maiores economias do planeta” enfatizou a candidata. Ainda, relativamente, insegura diante do microfone, com baixa verve e recorrendo sem cessar a um roteiro escrito, Dilma não me convenceu.
Depois dela, foi a vez de Serra que surpreendeu com um discurso descontraído, eu até diria em tom carismático e, surpreendentemente simpático. Verdade! Reclamando do formato do evento, porque ele queria o confronto, ou seja, o “bate-rebate” com a candidata do PT, o homem estava muito à vontade. Fez um discurso bem estruturado, inteligente, sem script e cheio de dados tirados da própria memória e análises lógicas pinçadas, uma-a-uma, da “imensa bagagem” que carrega, prova de uma longa vida política. É inequívoco afirmar que o cara deu um show. A platéia vibrou, por exemplo, ao escutar dele, entre outras, as criticas sobre a baixa taxa de investimento que se pratica neste país, o loteamento que se fez dos cargos públicos no Governo Lula e a gastança desmedida da máquina. “Há uma verdadeira obesidade na gestão do Estado” disse Serra, esfregando as mãos e prometendo fazer cortes, sem dó, dessas gorduras. Outra coisa interessante que ouvi dele foi enfatizar a falta de planejamento econômico na gestão de Lula. Acho que foi a primeira vez nesta pré-campanha em que o candidato do PSDB bateu forte. Os recentes resultados de pesquisas podem ter determinado essa nova atitude. Economista cepalino (refere-se à formação que teve na ONU/Cepal, em Santiago do Chile, enquanto refugiado político), especialista em planejamento industrial, Serra falava para uma platéia adequada, isto é, os lideres do setor industrial nacional. Eu só sei que o homem respondeu com segurança todas as perguntas que lhe foram dirigidas e, ao fim do seu tempo, foi aplaudido de pé.
Já era de tarde quando Marina Silva entrou em cena. Simples como ela só, com uma voz mansa e aparentando ternura, a candidata do PV foi uma surpresa para mim. Na verdade, nunca me detive em observá-la. Achei que ela foi arrumada na fala, idéias organizadas e críticas sutis, embora que fortes de conteúdos. Um discurso redondo. Numa tirada de esperança, na sua mensagem final, Marina se saiu com uma máxima: “no primeiro turno a gente vota na escolha do coração e no segundo a gente procura escapar do pior”. Achei ótima. A mulher é filósofa e fala com tom professoral. Ela é professora. Certamente não vai ganhar esta eleição mas, sem dúvida, cumpre um papel importante, que é o de neutralizar, de algum modo, o processo eleitoral polarizado que muitas correntes políticas desejam. E, a propósito disso, ela ainda teve tempo de lamentar a “interdição” de Ciro Gomes, afirmando que o processo seria muito mais rico e mais legitimo. Eu concordo. Gostei da maguinha.
Para finalizar, um palpite pessoal: tenho pra mim que Dilma vai ganhar. O povão vai elegê-la, como se votasse em Lula. Que ocorra o melhor para o Brasil.
Nota: A foto foi tirada do Google Imagens

6 comentários:

Hugo Caldas disse...

Vira essa boca pra lá, Girley! Pé de pato mangalô 3 vezes!
Hugo

Mauro Gomes disse...

Caro Girley,
Como sempre seu artigo foi muito esclarecedor e sinalizou bem o que vai ser a campanha deste ano.

Mauro Gomes

eduardo mota disse...

CARO GIRLEY, GOSTARIA MUITO DE ESTAR PRESENTE NESSA OCASIÃO, MAS, INFELIZMENTE NÃO PUDE.
SEUS COMENTÁRIOS ESTÃO MUITO BEM COLOCADOS E SEM PAIXÕES, EU O CONHEÇO E SEI QUE ISSO É VERDADEIRO.
COM CERTEZA FOI UM MOMENTO MUITO GRATIFICANTE,ESCLARECEDOR E OPORTUNO, PROMOVIDO PELA CNI,
ESTAMOS TODOS DE PARABÉNS PELO DIA NACIONAL DA INDUSTRIA.

EDUARDO MOTA

Marco Petkovic disse...

Girley,

Temos de trabalhar para que, seja qual for o vencedor desta disputa, esteja comprometido com o a geração de empregos no país, a utilização de conteúno nacional nos contratos e a criação de riqueza no Norte e Noredeste.

Um abraço!

Maria Regina Pinto Ferreira disse...

Caro Girley: gosto de ouvir suas opiniões. Sensatas. Você tem razão, temos muito o que ouvir. E eles muito o que falar. E em relação ao promessas de campanha, reformas, etc, estas devem ser anotadas por todos os eleitores, para conferirmos, para a REELEIÇÃO, se merecem receber nossos votos, ou não. Meu abraço, Regina Pinto Ferreira.

Rinalva Silveira disse...

Caro Girley:
Lamento discordar de você quando se diz imparcial nas suas colocações. É evidente a sua preferência. Estava presente ao encontro e posso afirmar que todos os candidatos tiveram um bom desempenho. Enquanto Serra limitou-se única e exclusivamente a criticar o Governo, aliás, covardemente porque Dilma não estava presente para se defender,
Dilma usou o seu tempo para expor o que já foi feito e o que ela pretende fazer.
Quanto a ser aplaudido de pé, não foi exclusividade de Serra, todos gozaram do mesmo privilégio e Dilma foi bem mais aplaudida.
Claro que torço por Dilma, principalmente pelas pessoas que estão com ela: Lula, Eduardo Campos e tantos outros políticos dígnos da minha admiração.
Rinalva Silveira