sábado, 26 de setembro de 2009

Imbróglio Político-Diplomático

Quando, em 28 de junho passado, o presidente Manoel Zelaya foi tirado da cama, escoltado, levado preso, embarcado num avião, de pijamas e jogado na Costa Rica, ficou claro que houve um sujo golpe de estado, na pobre e pequena República de Honduras, da América Central.
Neste humilde espaço de comunicação manifestei meu espanto e temor, claro, porque esse poderia ser mais um sinal de retrocesso político na América Latina, a exemplo de outros, de algum modo, já esboçados no passado recente.
Para meu alívio, vi as mais importantes nações do mundo repudiar e penalizar os golpistas, entre os quais os Estados Unidos, de Obama e o Brasil, de Lula. O governo golpista não teve, até hoje, nenhum reconhecimento político. Está isolado e sem crédito na comunidade internacional. Cooperações financeiras estão suspensas e embaixadores antes acreditados foram chamados de volta aos seus países de origem, incluindo o brasileiro.
Lembro também que fiz uma importante ressalva, ao abster-me de fazer qualquer julgamento a respeito dos argumentos dos golpistas. Ao contrário, foquei, tão somente, o episódio do golpe. Se Zelaya tinha ou não intenções chavistas de se perpetuar no cargo de presidente, não me interessou na ocasião. O golpe, sim, é que não tem cabimento.
O tempo passou, a mediação do Presidente da Costa Rica, Oscar Árias, foi infrutífera, a condenação da comunidade internacional não foi ouvida pelos golpistas, a investida de Zelaya para retornar ao país e retomar o comando não surtiu efeito e a coisa parecia cair no esquecimento, pelo menos pela mídia.
Esta semana, porém, a situação recrudesceu e mudou de figura, quando Mel (apelido que ele tem) Zelaya – um tipo raro, imagem meio mexicana, meio texana, bigodão e chapelão branco – apareceu de surpresa em Tegucigalpa (nome mais estranho), a capital de Honduras e, abrigado na Embaixada do Brasil, cobrou de volta a cadeira de presidente. Veja só, abrigado na Embaixada Brasileira. Cá pra nós, isto é o que classifico de hóspede indesejado. E, muita atenção, ele tem sido sempre considerado um hóspede. E isto, na minha opinião, tem forte relação com a operação política que se realiza em território oficialmente brasileiro. Fosse um exilado político a coisa seria diferente: teria que estar calado, recolhido e protegido. Não é o que vem acontecendo, nem é o que ele, Zelaya, deve querer. Com esse expediente e o beneplácito do Governo Brasileiro ele transformou a embaixada verde-amarela numa plataforma política, o que é uma atitude insólita e sem precedentes. Configura-se, para mim, como uma intervenção brasileira na vida interna de Honduras, o que é muito perigoso. Difícil é acreditar que o Itamaraty esteja alheio a toda essa manobra que trouxe o homem de volta.
Mas, seja lá como for, imagino que esta situação vem criando um sério problema para a diplomacia brasileira. O homem aboletou-se, com mais trinta auxiliares, na Embaixada Brasileira – meio desativada, sem o titular, que foi chamado de volta ao Brasil, após o golpe – de onde comanda uma verdadeira operação de retorno ao poder.
Ora, mesmo sem saber o que pode estar por trás disso tudo, nem até que ponto o governo brasileiro vai sustentar a situação, acho que melhor seria que o Brasil estivesse fora desse episódio. Por que o Brasil? Por que não a Venezuela? Ou os Estados Unidos, por exemplo, que tem uma forte tradição de “ajudar” nas coisas alheias? Será que temos competência para uma empreitada dessas? Nas últimas estocadas que levamos da Bolívia, Equador e Paraguai, saímos encolhidos. Perdemos todas. Pensando que com Honduras temos tênues relações políticas e econômicas, o que é que estamos fazendo ali? Sinceramente, é péssimo! Condenar o golpe, tudo bem. Mas, se envolver de cara no processo de restauração da ordem interna hondurenha, não é um bom papel.
O Presidente Lula vem conclamando as organizações internacionais no sentido de, numa intervenção pacífica, resolver o problema hondurenho. Tomara que ele seja ouvido, caso contrário, o Brasil corre sério risco de sair arranhado desse imbróglio político-diplomático, de uma autêntica republiqueta de bananas. Vale à pena?
Aguardemos o desenrolar da história.
Nota: Foto obtida no Google Imagens

9 comentários:

Corumbá disse...

Penso exatamente assim. Descobri até que, pela Constituição Hondurenha, Zelayae teria que deixar o posto mesmo pois não é possível mudar ou se insurgir contra seus princípios. E foi isso o que Zelaya fez.
Publiquei várias postagens a respeito tanto no "Blog do Corumbá" quanto no "Análises do Corumbá".
Torço para que ainda existam diplomatas competentes no Itamaraty. Éramos bons nisso!
Agora, saímos de uma situação de mediação para uma situação de intervenção.
Aguardemos e torçamos.

Ogib disse...

Caro Amigo, como sempre seu blog está formidável e aborda as situações atuais com muita propriedade. O Brasil entrou de gaiato porque é orientado por um mandatário com o perfil muito parecido e ambição suficiente para fazer uma loucura dessas. A sorte dele foi que a nossa história nos ensinou que esse caminho pode ser muito perigoso e ele teve mais juízo. Se ele tentasse fazer o mesmo que o Zé Laya tentou fazer lá, estaríamos numa situação muito parecida. Talvez por isso, ele tenha dado tanto apoio ao ditadorzinho chavista-lulista hondurenho

Adierson disse...

Prezado Girley,
Creio que todos nós vimos o "golpe" em Honduras pelo mesmo prisma! Era "golpe" mesmo! Só que ao contrário do que imaginávamos, estudo da respeitadíssima Biblioteca do Congresso americano, analisando a estrutura constitucional hondorenha, concluiu: "A remoção de "Zé Laia" do poder foi legal". Veja a trilha abaixo.
http://www.luxlibertas.com/congressional-research-service-zelayas-ouster-legal-under-law-of-honduras/
Meu amigo, o imbroglio é muito grande. Todos os noticiários já detectaram que o Brasil, feito marido traído, foi o último a saber. Seu Zé Laia tramou tudo com Chavez e escolheram nossa embaixada para abrigar o verdadeiro golpista de Honduras.
Justo quando tudo caminhava para uma solução. E, qual é a solução lógica? Simples, a realização da eleição presidencia prevista para novembro. Mas, porque Ze Laia não aceita isso? Também muito simples: Aceitar as eleições significa, primeiro, o respeito às atuais normas constitucionais de Honduras que não prevê reeleição e, segundo, o reconhecimento (embora que indireto) que o governo atual foi reconhecido pela comunidade internacional.
Isso é o que está impedindo o retorno dele ao Poder. Ze Laia, até agora, nunca aceitou retornar ao Poder e conduzir as eleições já marcadas pelas atuais regras que ele jurou cumprir. Ou seja, se ele volta, de imediato, cancela as eleições ou as realiza com ele concorrendo à reeleição (inconstitucional).
Enfim, o mundo está assistindo a um sujo falando de um mal-lavado. O governo dito golpista, está tentando realizar eleições pelas regras atuais que Ze Laia queria rasgar com apoio de Hugo Chavez. O presidente deposto, está tentando voltar para perpetuar-se no poder. E, nesse meio, o Brasil, com menino de recados, com um hospede incomodo, assumindo de vez um papel que não lhe cabe, o de intervencionista nos assuntos dos outros.
Abraços, Adierson

Jorge Morandi disse...

Caro Girley:

Tú sabes cuál es mi posición frente al golpe en Honduras. Simplemente lamento que continúe existiendo una desinformación generalizada, como la del amigo Adierson, que citando fuentes norteamericanas y una serie de afirmaciones inexactas, en un pase de magia llega a la conclusión que lo de Honduras no fue un golpe.
Felizmente no piensan lo mismo la mayoría de los gobiernos y los pueblos de casi todo el mundo y especialmente los de latinoamérica, muy especialmente los del MERCOSUR, inclusive aquellos insospechadamente de derecha, como el caso de México.
Si decimos estar a favor de la DEMOCRACIA no deberían tener cabida egoistas especulaciones diplomáticas, sino hacer efectiva acciones de solidaridad y de apoyo, porque como lo expresé en otro comentario, no se trata de defender a Zelaya sino a un sistema´de gobierno que nos costó mucho sufrimiento construir. Caso contrario, podríamos llegar a la conclusión que las dictaduras son malas, sólo algunas veces, pero son "aceptables" cuando nos convienen o cuando "ponen en riesgo" la acartonada formalidad de las diplomacias.
Abrazo

Jardyson disse...

Grande Girley Brazileiro!
Já faz dois anos em que nos conhecemos na missão empresarial em Den Haag, lembra?
O tempo passa muito rapido.

Pois bem, só gostaria de comentar que sempre que posso estou por aqui, apreciando seus textos que, como já comentei por telefone, são bastante atrativos, informativos e de ótima leitura.

Estou me desligando do Estaleiro Santa Cruz (H. Dantas) no próximo mês e gostaria que você atualizasse meu e-mail pessoal, para que eu sempre possa receber suas newsletters.

No mais, saúde e paz para todos!

Sds,

Jardyson Melo
Aracaju-SE
jardyson @ gmail . com
79 9979-9740

Mucão disse...

Fico triste ao ver constituições de países democráticos serem constantemente distorcidas para serem descumpridas sob o argumento de "defesa da pátria".
Sou defensor da alternabilidade do chefe de Estado para garantia da democracia e também não concordo com o Itamaraty.
Mas ver tal golpe prosperar e ter que concordar com o argumento que não foi um golpe, isso não posso fazer.
Acredito que sempre há as vias legais, o processo de Impeachment para responsabilizar o presidente por atos infracionais.
Já ver o exército se por às ruas com suas armas em uma primeira oportunidade e crer que isso é normal, parece-me até um ato de "ignorância".
Gostei muito do texto, Girley. Veio muito ao encontro de algumas idéias minhas, apesar de eu discordar de algumas partes.
Parabéns.

Anônimo disse...

Muita retórica e blá-blá-blá, na imprensa nacional e internacional. Deixemos de ser hipócrita e politicamente correto. O “golpe” hondurenho, nada mais foi do que “CORTAR O MAL PELA RAIZ”. O que deveria acontecer em vários recantos desse planeta (estão criando cobra!).
Ainda reclamam que Manoel Zelaya saiu de pijama. Com aquela consulta/proposta indecente, ele deveria ter sido defenestrado nu, amarrado pelas bolas.
O que Lula (presidente de alguns brasileiros) deseja? Apóia a “democracia bolivariana”, a “democracia” de Evo Morales, a “democracia de Zelaya”, a ditadura cubana e quer ser amigo de Ahmadinejad.
Eu fico matutando, por que estas coisas não acontecem no Canadá, Suíça, Suécia, Noruega, Dinamarca e Finlândia?

Marcos Aurélio

Marcos Aurélio disse...

Muita retórica e blá-blá-blá, na imprensa nacional e internacional. Deixemos de ser hipócrita e politicamente correto. O “golpe” hondurenho, nada mais foi do que “CORTAR O MAL PELA RAIZ”. O que deveria acontecer em vários recantos desse planeta (estão criando cobra!).
Ainda reclamam que Manoel Zelaya saiu de pijama. Com aquela consulta/proposta indecente, ele deveria ter sido defenestrado nu, amarrado pelas bolas.
O que Lula (presidente de alguns brasileiros) deseja? Apóia a “democracia bolivariana”, a “democracia” de Evo Morales, a “democracia de Zelaya”, a ditadura cubana e quer ser amigo de Ahmadinejad.
Eu fico matutando, por que estas coisas não acontecem no Canadá, Suíça, Suécia, Noruega, Dinamarca e Finlândia?
Marcos Aurélio

Susana González disse...

GIRLEY:

Pienso igual que tu amigo Moradi,al igual sin apoyar a Zelaya, es a las Instituciones a las que se tiene que apoyar. Zelaya no conoce muy bien la diplomacia, y creo que es donde esta mal. Sin embargo, su política social iba por buen camino, desde luego esto no le puede gustar a los dueños de ese país. Toda dictadura es un error, pero no es el caso, ni de Lula y menos dea Evo Morales, un hombre que lucha por su pueblo oprimido durante siglos. Besos