sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

A Erotização do Carnaval

As revistas semanais e, particularmente, as de fofocas da sociedade e da TV já estampam com destaques as figuras femininas que vão brilhar – com trajes reduzidos – na passarela do samba da Marquês de Sapucaí e em outros pontos carnavalescos do país.
Nessas horas, com certeza, as agencias de publicidades estão a postos para colher as melhores poses e fazer a promoção turística do Brasil, baseada nas beldades peladas, corpos exuberantes e a promessa de muita gandaia. Esta é, infelizmente, a marca registrada do nosso país, mundo afora: futebol e mulher sedutora e liberal.
Sem dúvida, como um bom brasileiro, encho a vista com as beldades que são mostradas na TV, vídeos e magazines impressos. A mulher brasileira é muito bonita, mesmo.
Mas, por outro lado, não gosto muito dessa marca brasileira. Estou cansado de ser saudado, no exterior, como um cidadão vindo do reino do futebol, samba e mulata. Acho que o Brasil tem muitos outros motivos para ser admirado.
Fico revoltado de ver em algumas cidades brasileiras, principalmente no Nordeste, as hordas de estrangeiros à cata das meninas carentes – muitas de menor idade – vendendo o corpo, sob o cúmplice olhar das autoridades.
E, quando chega o carnaval, a coisa se multiplica de modo assustador. Parece que o clima carnavalesco incita a mulherada. Haja bundas, pernas e peitos mais peitos, pernas e bundas, para a escolha do freguês.
Conta-se que a erotização do carnaval começou pelas bandas do Rio de Janeiro, no inicio do século passado, após o surto da gripe espanhola. Esta história vem bem contada por um estudo realizado pela Fiocruz, em 2006, sob o titulo O Carnaval, a peste e a “espanhola”, realizado pelo pesquisador Ricardo Augusto dos Santos. O relato é impressionante no que tange ao arrasador surto da famosa gripe, entre setembro e novembro de 1918.
Mas, o que mais me chamou a atenção foi a abordagem sobre o Caranaval. O texto é relativamente longo. Mas, uma das partes mais interessantes, foi quando da constatação de que, salvos da peste, os cariocas festejaram o reinado de Momo, de 1919, de maneira mais liberal, escancarada e cheia de malícias. Marchinhas e sambas foram compostos fazendo referencia à gripe, também conhecida como Peste Negra (os mortos ficavam pretos e sangravam) e incentivando o povo a curtir desbragadamente a vida. Uma dessas marchinhas dizia: Assim é que é! Viva a folia!/ Viva Momo – Viva a Troça!/ Não há tristeza que possa/ Suportar tanta alegria/ Quem não morreu da Espanhola,/ Quem dela pode escapar/ Não dá mais tratos à bola/ Toca a rir, toca a brincar ...
O mulherio carioca, a partir daquele carnaval, resolveu exibir as suas partes, até então, mais intimas, como pernas, e colo, num comportamento inusitado. As saias subiram, os decotes se aprofundaram e os machos enlouqueceram. Segundo o estudo, “começou o Carnaval e, de repente, da noite para o dia, usos, costumes e pudores tornaram-se antigos, obsoletos e espectrais” e, mais adiante, reza que: “desde as primeiras horas do sábado, houve uma obscenidade súbita, nunca vista, e que contaminou toda a cidade”. O povo resolveu comemorar a vida da forma mais liberal e exacerbada possível.
Carlos Heitor Cony, num dos seus escritos, considera que, nesse carnaval de 1919, houve uma rápida mudança de padrões de relacionamento social, comprovado pelo record número de defloramentos registrados nas delegacias de policia. Sim, naquela época era caso de policia! Somente na Rua Santo Amaro (região do Catete e Glória) foram registrados cerca de 2 mil casos.Tantos que os que ocasionaram gravidez deram origem à expressão “filhos da gripe”.
Pelo visto, a turma gostou tanto daquela gandaia que nunca mais abandonou o costume. E, ao longo dos carnavais subseqüentes, trataram de aperfeiçoar os figurinos. Noventa anos depois, as alegorias do samba e os camarotes não dispensam a nudez e gandaia domina o espírito da festa. Já teve até Presidente da República, acompanhado por uma sem calcinha!
E agora a coisa é muito mais fácil. Defloramento é coisa elementar e primária. É uma necessidade na cabeça de qualquer mocinha. Virgindade é falta de higiene. Ninguém corre o risco de sofrer um inquérito policial, até porque, com as oficiais camisinha e pílula do dia seguinte, a coisa fica extremamente mais estimulante. Não tem filho da gripe, nem do carnaval! A ordem é curtir.
O costume se espalhou pelo resto do país, ainda que com menor intensidade. Mas, se espalhou. Onde tiver carnaval, tem sexo exacerbado.
Não! Não sou puritano! Mas, acho que um pouco de comedimento faria um enorme bem a este País.
NOTAS:
1 - Quer saber mais sobre este estudo da Fiocruz? C lique em:
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-59702006000100008&lng=en&nrm=iso Vale à pena.
2 – Meus agradecimentos à amiga Profa. Rosa Carneiro (UFPE), que provocou e me ajudou na pesquisa deste tema.

3 - Foto obtida no Google Imagens

6 comentários:

Cássio disse...

Caro Girley,

É por isso que este país é visto lá fora como do futebol, do carnaval e das bundas. E parece que os governos "atiçam" mais isto, fazendo campanhas "use a camisinha" ou coisa do gênero. Sim, tem de ser usada, claro. Mas a forma que eles passam, é como se o carnaval fosse um momento de orgia fora do comum. Enfim, não sei como era antigamente, mas como falaste no post anterior, não havia tamanha banalização como há hoje. Lamentável e deprimente.
Por fim, gostaria de parabenizá-lo por mais um texto estimulante.

Abração!

Cássio Reis
www.britishpoint.blogspot.com

Susana González disse...

Mi querido Girley:

Crees en verdad que se necesita un Carnaval para que se de el libertinaje?

Pues no creo, que se preste a eso por tradición, es probable. Porque que me dices de la juventud norteamericana, la europea o la de nuestros pises, sin Carnaval, la vida ha cambiado mucho. La educación y los pensamientos son diferentes, más extremos. Sin embargo, creo que los principios siguen siendo los mismos y como principio me refiero especialmente, a respetar a los demás, pero sobre todo respetarse así mismo. Seguramente con límites diferentes, pero por siempre el que quiere vivir en paz, debe sentirse bien consigo mismo.

Por todo esto, creo que no es el Carnaval quien ha cambiado la vida, sino que tal vez, la vida se asemeja más al Carnaval, por que lo hemos permitido.

Por otro lado, aunque no creas, hay muchisimas cosas por las que se admira el Brasil y los brasileños, además de su fútbol y mira que soy futbolera, o del Carnaval. Podemos destacar su música, la cual trasmite tantas cosas y por eso es tan famosa, así como sus bellísimas ciudades , que me dices de Río de Janeiro o Recife, sus playas, su actual desarrollo sobre toda latinoamérica, pero lo más importante es su gente, ustedes, esa filosofía de vida que tienen, la forma de entregarse, de acoger a la gente, el calor que trasmiten, creeme los distingue del resto del mundo y por muchas cosas más.

Me encantan tus escritos.

Besos

Susana González
México

Laurens disse...

Prezado Girley,
Entendo muito bem como você se sente quando fala que está “cansado de ser saudado, no exterior, como um cidadão vindo do reino do futebol, samba e mulata”. Infelizmente aqui eu sou saudado como um cidadão vindo do país ‘onde tudo pode’. Não, na Holanda não pode tudo, e eu mesmo culpo o Governo holandês de não se ‘vender’ de maneira melhor, melhorando essa imagem. Ao falar sobre temas polêmicos (drogas, aborto) e dizendo que sou holandês, as reações variam de “Affff, mas na Holanda...” até “Sim, mas na Holanda é zona total”. Infelizmente a maior parte desses comentários é feita por pessoas que nunca foram para Holanda. Igual a maior parte das pessoas que pensam no Brasil como o país de futebol, samba e mulata nunca vieram ao Brasil. Por isso vamos ter que ouvir esses comentários ainda muito mais. Eu mesmo às vezes tenho que controlar-me para não dizer: “Pois é, é um caos completo lá, não presta mesmo!”, só para evitar a discussão, mas isso também não ajuda a nada. Enfim, respirar, fazer sua parte, explicando qual o verdadeiro Holanda ou Brasil, e seguir pra frente...
Grande abraço,
Laurens

Rosa Maria disse...

Caro Girley
Parabens pela matéria. Queria apenas fazer uma pequena correção: a gripe e a peste são duas doenças distintas. Enquanto a gripe é uma doença viral - neste início de século houve uma grande chance de haver uma nova pandemia, grave como a espanhola (todos lembram a recente epizootia de gripe aviária, controlada graças a um gigantesmo esquema de vigilância montado no mundo todo, com foco nos pontos de pouso de aves migratórias). Quanto à peste negra é uma doença bacteriana de roedores transmitida ao homem por pulgas. No Brasil tem alguns focos endêmicos da variedade bubônica, com um caso recente no Ceará. O artigo do Ricardo Augusto faz referencia a gripe espanhola, epidemia que parece ter encerrado a I guerra mundial e a epidemia de peste na Europa no final do século XIX e as mudanças de comportamento social ocorridas após as mesmas.

Dulcinha disse...

Vem cá: O senhor é daqueles que acredita que através da mulher que o pecado entrou no mundo?

A sua postagem foi marcada por forte machismo e sexismo. O senhor atribui toda a “culpa” da erotização do carnaval às mulheres. E esquece que elas estão dentro de um contexto. No carnaval também há um numero maior de violências diversas cometidas por homens... mas, parece que isso não o incomoda muito, pois não foi sequer citado no seu blog. Pois, para mim isso é um problema menor. O problema de nossa imagem lá fora passa por diversos fatores inclusive o fato de sermos “terceiro mundo”. Em muitos paises da Europa as mulheres se bronzeiam praticamente nuas em parques e praias, por que só nós temos que ser recatados? O problema da prostituição no Brasil não é moral, meu senhor, é político, ou melhor, é falta de políticas públicas eficientes de estimulo à economia, políticas públicas na área de educação, de geração de renda, etc, etc... No dia que a indústria do turismo no Brasil for uma indústria de verdade o turismo sexual não será mais o principal motivo de visitas ao nosso pais.

Não meu senhor, Não é vestindo uma burca nas nossas mulheres que vamos resolver nossos problemas de baixa auto-estima. Resolvendo nossos problemas sociais sim.

Eloine Nascimento disse...

Ola Girley:
Realmente a erotização no cotidiano das pessoas...nos faz enfrentar perigos como os estrupos dentre outros.
Concordo com você em tudo. Também não sou puritana, mas o carnaval é um interstício em que os papéis sociais são
invertidos em determinados momentos bem como a liberdade na interação sociais entre as pessoas nas ruas. Em tempos antigos,
como no Egito, a erotização era fálica. Aliás, acho que o mundo está muito fálico, e a erotização do carnaval exarceba essa característica. Em algumas culturas o fálico é religioso, extremamente cultural, aqui faz parte da cultura da erotização popular. O erótico pode ser muito belo, saudável, enfim pode ser tudo de bom...mas na nossa realidade ainda nos abre portas para muitos perigos.
um forte abraço
Eloine Nascimento