terça-feira, 8 de março de 2022
O Inesperado Acontece
Impossível me livrar do tema mais atual, isto é, a Guerra da Ucrânia, na edição de um post para esta semana. Até que eu gostaria. Esperei para ver no que daria e já se vão mais de dez dias. Refletindo melhor sobre a relutância de postar algo, cheguei à curiosa conclusão que, subconscientemente, esperei que, a peleja bélica deflagrada pela Rússia contra a Ucrânia, não duraria mais do que três ou quatro dias e que, um pacto de paz, seria logo celebrado. Infelizmente, enganei-me. Minha vontade teria sido de louvar o imaginado entendimento e, então, dar um “pitaco” sobre o que teria resultado da contenda.
Confesso meu pesar por testemunhar tempo tão sombrio, como este que a humanidade sofre neste inicio de século. Tudo muito inimaginável. Nenhuma guerra é justificável e o inesperado esta acontecendo. É abominável. Não bastasse a grande crise sanitária, seguida de duríssima debaque econômica, de dimensão mundial, provocada pela Pandemia da Covid 19, eis que surge um impertinente líder russo, autocrata anacrônico, desejando se impor num mundo totalmente diverso dos seus mestres e ancestrais políticos, pondo em risco a paz mundial. Inacreditável. Recordo que a Segunda Grande Guerra (1939-45) resultou numa configuração geopolítica mundial que prometia tudo, menos o que hoje assistimos. Para tanto, um encontro de nações, saturadas dos sofrimentos e perdas irreparáveis pelas quais passaram, trataram de se organizar, preventivamente, em instâncias internacionais globais, capazes de por fim, pela raiz, tremores políticos internacionais e, sobretudo, conflagrações de caráteres coletivas. A Organização das Nações Unidas – ONU, o Banco Mundial, os Tribunais Internacionais, blocos de mercados comuns, como a União Europeia, a OTAN - Organização do Tratado do Atlântico Norte podem ser lembrados como exemplos concretos desses esforços. Verdade, contudo, que nunca deixamos de ouvir falar de conflitos localizados, particularmente os fraticidas nos Extremo e Médio Oriente.
A coisa de agora, porém, assume riscos de proporções mais temerosas, na medida em que põe em confronto indiscutíveis forças potentes e radicais, com arrasadores armamentos – inclusive nucleares – e que remetem à luta pelo poder mundial entre a extinta União Soviética e os Estados Unidos, durante a época da chamada Guerra Fria. A situação, portanto, deixa de ser fria e passa a ser quentíssima ao evidenciar, de cara, a luta/temor da Rússia contra o avanço do cerco da OTAN. Putin, o autocrata anacrônico russo, expõe razões outras, de caráter politico, como politico é seu temor, mas, burlando todas as convenções internacionais, determinou que suas forças militares invadissem uma nação soberana e democrática. Tive a curiosidade, esses dias, de ler um pouco sobre a História secular daquele país e percebi o quanto o povo ucraniano já lutou (até contra os Hunos) pela defesa do seu chão. Contra a Russia, inclusive. Pelo visto, se trata e de uma Historia mal resolvida. O Putin está forçando uma barra por motivos políticos, mas, também econômicos: a Ucrânia tem as terras mais férteis da Europa Central, celeiro de meio mundo, e é rica em recursos minerais nobres. Para completar, deseja entrar na União Europeia e na OTAN. Aí fez tremer as bases do Kremlin. O resultado está aí, ao vivo e a cores. Lamentável.
A verdade, nua e crua, é que o mundo está de prontidão diante das barbáries cometidas, pela Rússia, contra um bravo e destemido povo que se mantem fiel às origens históricas. Bom, como guerra é guerra, o ucraniano está indo à luta com braços fortes e resistindo ao ponto de surpreender o mundo, inclusive os russos que, aparentemente, esperavam mais facilidades nos campos de batalhas. O Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky (foto acima), tem liderado uma campanha de modo corajoso e inesperado. Ao mesmo tempo, o Mundo Ocidental, liderado pelos países da OTAN – que não entram na luta campal, por razões regimentais do Tratado – além de ajudar a Ucrânia com armamentos pesados e missões humanitárias, vem impondo a moderna estratégia de sufoco politico-comercial à Rússia, ao cortar todos os links criados pela Era Digital da globalização econômica com a nação de Putin. É a moderníssima forma de guerrear entrando em cena, conforme vaticinou o cientista israelense, Yuval Harari, sobre uma moderna guerra travada no campo cibernético. Suponho que Putin não imaginava ou, então, desconhece o poder desta arma. Corre o risco de perder a guerra e arruinar a economia do seu país.
No mais, dói muito assistir pela TV e ao vivo o desenrolar dos ataques e das batalhas travadas. Coisa parecida com os filmes de Hollywood sobre guerras passadas. Insuportável, porém, constatar que se trata de uma dura realidade de hoje. Doloroso ver o sofrer de uma gente inocente fugindo do horror dos bombardeios e clamando pela paz. Velhos, crianças e mães em meio ao desespero sem fim e atônitos com o que assistem. Depoimentos estarrecedores. Tristeza sem limites. Jovens cheios de planos e homens que abandonam suas famílias para ir aos fronts de guerra. Inaceitável!
E, ao redor do planeta, os protestos contra os invasores e pedidos de paz rolam sem parar. Surpreendente como que, na própria Rússia, multidões vão às ruas protestar e condenar o louco governante. São reprimidos e presos mas, não se calam diante da estupidez. A propósito e para concluir, faço uma pergunta aos meus botões: estariam esses soldados invasores dispostos e comprometidos, de fato, com essa insólita guerra? Serão fiéis ao Putin ou blefarão? Como o inesperado acontece... Fica a provocação.
terça-feira, 22 de fevereiro de 2022
Tragédia Anunciada
Impossível passar esta semana sem comentar a tragédia que arrasou a cidade de Petrópolis, no estado do Rio de Janeiro, deixando centenas de mortos, desaparecidos e flagelados. Indiscutivelmente, uma tragédia anunciada e mais uma dor de tamanho nacional. Petrópolis, a cidade imperial, sofre historicamente episódios dessa monta e tem sido tema recorrente, inclusive neste espaço, com o agravante de que, a cada ocasião, os relatos se tornam mais dantescos. O desta semana vem sendo considerado como o mais dramático pelas proporções descomunais.
Na verdade, como já referido, não se trata de uma novidade para a população da região serrana daquele estado fluminense. O Museu do Império, instalado na mesma Petrópolis, guarda registros do diário do Imperador Pedro II narrando, de modo apreensivo, ocorrências de alagamentos e severas enchentes na cidade, como quem anunciava o que se testemunha nestes tempos recentes. Isto, por volta de 1850! Pelo retrovisor ainda se enxergam fortes marcas de grandes tragédias, como as de 1971, 1979, 1988, entre outras, que ao longo dos tempos vem destruindo a tradicional e aprazível cidade serrana. Aliás, sem esquecer que, não apenas Petrópolis é castigada pelas intempéries severas da estação das chuvas, mas, também, por situações, não raras, semelhantes passam as belas cidades de Teresópolis e Nova Friburgo, no mesmo estado.
Sem ater-me aos dolorosos números da tragédia desta semana, porque isto os meios de comunicações não param de mostrar, a cores e ao vivo, prefiro arriscar comentários sobre essa condição desafiante que vem sendo o viver no Brasil do século 21.
Tragédias como esta recente e outras mais, tão difíceis quanto, são a resultante de um país cujos governos, nos três níveis administrativos, pouco se preocupam, salvo raríssimas exceções, em adotar politicas sociais e de infraestrutura eficazes em apoio à sociedade como um todo e, em particular, a grande parcela dos menos favorecidos, através de ações diretas e fundamentalmente básicas. Curioso, porém, é notar que na ocasião de cada tragédia, belas ideias e ajudas financeiras aos vitimados se multiplicam, erros são constatados e promessas animadoras rolam. Tudo com verve politica e manipulação eloquente, logo esquecidas à medida que a situação se acalma, isto é, os mortos são sepultados, as casas são limpas e recuperadas, o comércio reabre e a cidade volta a se movimentar. Tudo é passado! As propostas corretivas são esquecidas e por “sorte” coincide com uma eleição de novos gestores e a memória coletiva cai na velha e carcomida vidinha utópica. O manso brasileiro alimenta sempre uma boa esperança.
Bom, neste inicio de século, as grandes cidades brasileiras estão abarrotadas de pobres em condições de vida subnormal, consideravelmente agravadas em face da crise gerada pela Pandemia do novo Coronavírus. O processo de urbanização, iniciado na segunda metade do século passado, continua intenso e tende a se elevar. Conforme o IBGE, na PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) realizada em 2015, a maior parte da população brasileira - 84,72% - vive nas áreas urbanas. O restante, 15,28%, vive nas áreas rurais. Tem sido difícil fixar o homem no campo devido a uma serie de fatores bem evidentes, dos quais destaco três dos mais expressivos: a) intensificação das correntes migratórias incrementadas pelos modernos meios de transportes, pelas vias de circulação abertas, interligando regiões e o advento das modernas formas de comunicação e facilmente disponíveis; b) jovens que decidem não mais viver aos moldes roceiros dos seus ancestrais e, sem tardar, procuram viver aonde amenidades, formação e progresso profissional, além de vida mais lúdica prometem ser melhor, e c) o progresso acelerado do agronegócio e a mecanização intensa das lavouras afugentando a grande parcela da população economicamente ativa que, juntando o útil ao agradável, procuram soluções nas grandes metrópoles e cidades de porte médio.
Petrópolis é um exemplo concreto desse movimento e não está isenta deste processo socioeconômico transformador. O mesmo pode ser dito sobre muitas outras cidades bem localizadas no território nacional e que ofereçam oportunidades de viver ou, ao menos, sobreviver. O resultado é que cidades sem condições infraestruturais são literalmente invadidas por levas de migrantes que se viram, ao modo que podem, correndo os riscos da chamada urbanização selvagem, caracterizada por habitações subnormais, comumente em íngremes e frouxas encostas e sem autorizações devidas. Naturalmente que nunca será tarde para lembrar que, como pano de fundo, falta educação básica e noção de civismo dessa população (incluindo a classe politica) que vive de forma renitente anunciando tragédias.
sábado, 12 de fevereiro de 2022
O Negócio da Guerra
O mundo se encontra em estado de alerta diante da possibilidade de um grande conflito bélico envolvendo as mais poderosas nações do Planeta, em terras da Europa. É, indiscutivelmente, inaceitável ouvir falar de guerra, neste inicio de século 21. E já era, há pouco mais de cem anos, quando eclodiu a I Guerra Mundial e muitos acreditavam que aquele seria o último conflito dos tempos e que trataria de “arrumar” o mundo num formato definitivo. Ora, a História mostra que este pensamento não passou de uma doce quimera dos cientistas político-sociais da época. Tanto foi que, vinte e poucos anos depois, veio um conflito de maiores dimensões logo denominado de II Grande Guerra, tanto pelas suas dimensões, quanto o resultado arrasador que gerou. E nem assim os “donos do mundo” se contentaram. De lá pra cá, encarou-se a Guerra Fria, várias outras guerrinhas pontuais e a cultura de guerrear parece não ter fim. Fazer guerra parece ser um viés de caráter dos povos, sempre às voltas de ganâncias econômicas e poderios políticos, doméstico ou mundial. A guerra como um bom negócio. A União das Repúblicas Socialistas Soviéticas - URSS foi dissolvida em dezembro de 1991, mas parece que nunca deixou de ser um caso “mal resolvido”.
A Rússia, sobretudo sob o comando Vlademir Putin, que se alterna nos cargos de Presidente e Primeiro Ministro, ao longo desses últimos vinte anos, tem dado provas disto. Estrategista politico, ex-Agente da KGB (a inteligência secreta russa), chefe dos serviços secretos do país, se julga dono do pedaço e visivelmente não pretende ceder espaço nos âmbitos local e internacional. A Ucrânia não sai da sua mira. Vide mapa acima. Já investiu e anexou a Crimeia (2014) e agora quer anexar o restante do país. Trata-se de um “filé” que Putin quer porque quer abocanhar. Ele tem lá suas justificativas, mas, o mundo europeu de hoje não comporta mais essas espúrias manobras. A Ucrânia é um país organizado institucionalmente, apesar da crise politica em 2014, quando teve um presidente cassado, mas, se reorganizou. Aliás, a Rússia se aproveitou da fragilidade politica de 2014 e investiu na operação da Crimeia, se aproveitando das forças pró-russos, da ocasião. Agora a briga é com a OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), que reúne as nações da Europa Ocidental, mais os Estados Unidos e o Canadá. Admite-se, e Putin antevêe isto, que a Ucrânia seria uma candidata a fazer parte do Tratado. Eis o nó político da questão. Putin não quer nem pensar nessa vizinhança.
Apesar da preocupação com a possível aproximação da OTAN na sua fronteira, há quem opine que as raízes da crise da Ucrânia podem haver sido geradas pelo recente desempenho ruim da economia russa. Segundo Justin Fox, articulista da Harvard Business Review, a permanência de Putin no poder é graças a um período longo de crescimento econômico do país. “Como a coisa tem engasgado é possível argumentar que Putin precisa de uma distração”. Fox considera que a distração a que se refere é uma maneira de avivar o patriotismo da população, que, de modo geral, ocorre quando do envolvimento do país num conflito armado. Seria assim, uma forma de distrair a população de uma crise econômica e fortalecer sua popularidade. A proposito da ideia, é curioso como o articulista pinçou alguns conflitos do passado recente que se coadunam a esta tese. Por exemplo, o governo militar argentino, diante da derrocada econômica e da rejeição popular, resolveu investir uma guerra suicida, em 1982, ao invadir as Ilhas Malvinas. Inflamou os brios dos argentinos logrou pontos positivos, logo perdidos com o final do processo. Outro caso apontado, como exemplo, foi a luta de George W. Bush contra o terror. A tomada do Iraque pode ter recuperado sua aprovação a níveis elevados, bem como haver garantido sua eleição de 2004.
A verdade é que não deve ser fácil investir numa guerra. A Rússia poderá sofrer incalculáveis prejuízos nessa investida ucraniana. E Biden não terá dúvidas em reunir forças da OTAN para sufocar um Putin com visíveis problemas de sustentação. A História vai registrar.
Começar uma guerra nunca foi um bom negócio, mas, ainda há loucos dispostos a "surfar nessa onda" pensando num bom negócio.
domingo, 6 de fevereiro de 2022
Sonho Interrompido
A semana que passou, excetuadas as futricas politicas intermináveis, o que marcou, de fato, a vida brasileira foi o bárbaro assassinato do congolês Moïse Mugenyi Kabagambe, na praia da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. Mais uma vez o abominável preconceito racial e suas nefastas consequências ganha as páginas policiais dos meios de comunicações brasileiros, com sérios rebatimentos no cenário internacional.
A vítima chegou ao Brasil, junto com sua família, fugindo de uma sangrenta instabilidade politica vigente na Republica Democrática do Congo (RDC), após a guerra civil que ocorreu naquele país entre 1996 e 2003. Foi o conflito mais letal que o mundo assistiu, depois da segunda guerra mundial. O Congo é um país rico em recursos minerais e, ao mesmo tempo, paupérrimo socialmente falando. Tem um dos piores IDH registrados entre centenas de países. A origem dessa dramática história tem origem na época da colonização belga, que, ao desistir da colônia, deixou a população entregue ao abandono, sem mínimos meios de sustentação. Até hoje conflitos entre grupos armados e forças de segurança espalham o terror na população que sofre todo tipo de perseguição e atrocidades. Em jogo está sempre a busca pelo poder e do tesouro mineral do país. Entre 2000 e 2003 morreram cerca de 3,8 milhões de pessoas, a maioria de inanição e doenças endêmicas. A malária é o maior problema de saúde do país. A alternativa que resta para muitos congoleses é fugir para países vizinhos ou pedir asilo humanitário a outras nações. Este foi o caso de Moïse Kabagambe e sua família ao buscar asilo no Brasil.
Segundo o Comitê Nacional de Refugiados (Conare), o Brasil já recebeu mais de 850 refugiados do Congo que optam por viver em São Paulo e Rio de Janeiro, locais tidos como hospitaleiros e de grandes oportunidades. Nem por isso, esses refugiados – na ocasião gritante do assassinato de Kabagambee – deixaram de relatar fatos de preconceito racial aos quais vivem sendo sujeitos. As oportunidades com as quais sonhavam se resumem a serviços de faxineira, emprego doméstico, varredor, ou similares, mesmo para aqueles portadores de diploma superior e falar dois ou três idiomas. Todos recebem uma auxilio do governo que mal paga um humilde aluguel.
Ao jovem Moïse coube uma “oportunidade” de trabalho numa barraca de praia, no Rio de Janeiro. Após trabalhar dois dias cobrou do “patrão” sua remuneração e, como pagamento, foi morto a pauladas. Pobre congolês!
Coincidentemente terminei de ler o segundo volume da trilogia “Escravidão”, da autoria de Laurentino Gomes, onde o escritor, numa linguagem leve no estilo e duro nas narrativas, historia a situação do cidadão negro na formação da sociedade brasileira. Gomes fez um dos trabalhos mais completos que se tem conhecimento. Viajou pelo mundo afora, sobretudo pela África, colhendo dados e documentos para compor sua obra. Se no primeiro volume tive contrações estomacais e náuseas em certos trechos, neste segundo volume, que abrange o período da época da corrida do ouro em Minas Gerias até a chegada da Corte Portuguesa ao Brasil, pude me dar conta das infames raízes do preconceito racial neste Brasil. Recomendo a leitura da obra que já vai no segundo volume.
É doloroso perceber que este estigma social nunca se apaga e que a sociedade pouco faz no sentido de exterminá-lo. A começar por muitos dos negros espalhados pelo país que, inexplicavelmente se diz moreno e nunca negro, como se isso fosse uma desonra.
O assassinato desse congolês desponta como mais uma ponta de iceberg, numa sociedade corroída de preconceitos centenários que se perpetuam por gerações inconscientes e malvadas. As vozes que se levantam em denúncias parecem ser algo corriqueiro e sem relevância, tal como uma nuvem de fumaça escondendo uma realidade doentia e perversa.
O sonho de Moïse Mabagambe, interrompido na flor da sua idade, deve ser sempre lembrado porque muitos sonham de modo igual. Seus algozes devem ser julgados e condenados, como uma lição a essa nação inconsciente e alheia aos grandes problemas sociais.
segunda-feira, 31 de janeiro de 2022
Rasgando Dinheiro
Uma das coisas mais estupidas do momento politico brasileiro foi a aprovação do chamado Fundo Eleitoral destinado a cobrir os custos das campanhas eleitorais dos partidos políticos na disputa do pleito de outubro vindouro. Trata-se de uma solução oficial para substituir as doações de pessoas jurídicas que rolavam durante as campanhas até então ocorridas. Na prática havia uma espécie de “uma mão lava a outra” entre os candidatos e empresários financiadores. O sujeito era eleito, mas, já assumia de “rabo preso” vendo-se obrigado a retribuir de modo generoso ao empresário ou grupo empresarial que lhe deu o suporte decisivo para vencer nas urnas. Rolaram sempre bilhões de reais, bem como benefícios legislativos indecentes. Era um costume também conhecido como lei de São Francisco, isto é, “é dando que se recebe”. Após muitos debates, “lavação de roupas sujas”, inquéritos, escândalos nos legislativo e executivo, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu, em 2015, pela proibição de doações de pessoas jurídicas. Aí, a coisa danou-se. Sem essa fonte de custeio “preciosa” o Congresso Nacional se mobilizou e criou, em 2017, o tal do Fundo Eleitoral (Leis 13.487 e 13.488). Recursos tirados dos bolsos do contribuinte. Simples e tranquilamente. Se antes era um desatino, agora é um desmando. A cada oportunidade de um pleito eleitoral trava-se uma luta vergonhosa, entre legislativo e executivo, por um fundo cada vez mais volumoso. Sem falar que existe outro fundo, mais antigo, de 1995 (Lei 9.096), denominado de Fundo Partidário, também com recursos públicos, que é dividido entre os partidos, conforme critérios de desempenho destes, destinado a custear atividades e rotina, incluindo pagamentos de água, luz, telefone, passagens aéreas entre outras “bijouterias”. Resumindo: o pobre contribuinte é quem termina pagando a conta. Povinho caro esses nossos representantes em Brasília.
O mais estupido, agora, é saber que o Fundo Eleitoral aprovado para custear o próximo pleito de 2022 é de R$ 4,9 Bilhões. É assustador, para quem tem juízo no lugar, lembrando que na eleição de 2018 o montante tirado do Tesouro Nacional foi de R$ 1,7 Bilhão, já considerado, àquela época, como escandaloso. Francamente.
Segundo pesquisa realizada pela Agencia CNN, a previsão para este ano corresponde a sete vezes o montante pago pelo Governo Federal, em 2021, à Agencia Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) encarregada de exercer um papel central no combate à pandemia do Coronavirus. A Agência recebeu apenas R$ 663,5 Milhões. Ora, mesmo guardando as proporções de despesas, vamos e venhamos é uma covardia.
Comparando o que o Governo aplicou na área da Educação, no ano passado, e este fundão eleitoral aprovado, a situação é desalentadora: três vezes menor. Entre janeiro e dezembro de 2021, o Portal da Transparência registra o montante de apenas R$ 1,6 bilhão para dar sustento do Programa Dinheiro Direto na Escola (PDDE) sendo este o modo pelo qual as escolas se sustentam para as mais diversas despesas de melhorias de infraestrutura e pedagógica.
Mas, a situação se repete em varias outras frentes de atividades governamentais e de interesse coletivo, o que, a cada ponto, o Fundão se revela como uma concreta calamidade pública. O programa da Força Nacional de Segurança Pública, coisa de absoluta prioridade, como outro exemplo é 54 vezes menor do que o Fundo Eleitoral. Já o Sistema de Proteção a Amazônia – SIPAM recebeu, em 2021, mil vezes menos. Francamente.
Outro dado destacado pela CNN foi a miséria de recursos que se destinou, em 2021, para investimentos na reestruturação e modernização dos hospitais universitários federais do país, pouco menos de R$ 340,0 Milhões, ou seja, 14 vezes menos do que esse extravagante Fundo Eleitoral. O descalabro se repete em diversas outras áreas sociais, como habitação popular e saúde publica. A proposito, para concluir, o Programa de Saneamento Básico, recebeu apenas R$ 415,0 Milhões. Doze vezes menos do que esses quase R$ 5,0 Bilhões que serão “rasgados” numa Campanha Eleitoral que promete ser ranheta, preocupante e cheia de emoções desnecessárias ao pobre povo brasileiro.
segunda-feira, 24 de janeiro de 2022
Voz do Milênio
Acompanhei nos últimos dias o noticiário sobre a morte, velório e sepultamento da cantora Elza Soares, de quem nunca fui fã ardoroso. Os obituários que rolaram, porém, apontaram detalhes da vida da cantora que terminaram me provocando uma admiração tardia. Acredito que alimentei preconceitos tolos, devidos ao seu estilo extravagante e sua maneira pouco formal na cena artística. A provocação levou-me a mudar a pauta semanal do Blog, focando nessa consagrada interprete do samba brasileiro, considerada, numa votação promovida pela BBC de Londres, em 1999, como a “voz do milênio”, detalhe que somente agora tomei conhecimento. Por outro lado, recordo que já fiz postagens sobre cantoras, estrangeiras por sinal, que me fizeram falta por serem convocadas à eternidade. Entre essas, destaco a sul-africana Miriam Makeba (1932-2008)(interprete de Pata-Pata) e a argentina Mercedes Soza (1935-2009)(interprete de Gracias a la Vida) e que seria, portando, injusto não me referir a essa brasileira guerreira e defensora das mulheres e de negros.
Que me recorde, assisti Elza Soares ao vivo, uma vez apenas, num dos programas Pixinguinha ou Seis e Meia, no Teatro João Caetano, do Rio de Janeiro. A Funarte levava às plateias das grandes cidades brasileiras os grandes nomes da MPB a preços populares, nas décadas de 70, 80 e 90. Nem sei o que restou desses excelentes projetos. Naquela ocasião assisti uma Elza cheia de “fogo” levando o público à loucura interpretando paginas das mais conhecidas do seu vasto repertório. Saí admirado da sua energia e seu carisma, mas nem assim tornei-me fã incondicional. Desses de catar seus discos ou acompanhá-la pela TV.
Como não acompanhei, à miúde, a trajetória dessa mulher, confesso que fiquei sensibilizado com tudo quanto ouvi falar nesses obituários que vêm sendo publicados. Incrível saber que foi obrigada, pelo pai, a casar com 13 anos de idade por haver engravidado. Naquela época era assim, “casava na policia”. Perdeu dois filhos recém-nascidos devido à fome que passava. Com pouco tempo enviuvou ficando com um filho nos braços. Cansada de sofrer com essas perdas, percebeu que tinha voz, gostava de cantar e resolveu se inscrever num programa de calouros comandado por Ary Barroso, na Radio Tupi do Rio de Janeiro. O objetivo principal era ganhar algum dinheiro, sobretudo, para alimentar o filho que restava dessa relação imatura. Pois bem. Depois de uma recepção pouco amistosa do Ary e até, mesmo, pejorativa, Elza não levou o gongo e ganhou o prêmio. Mais do que isto, ouviu do seu “algoz” o elogio que se tornou o passaporte para o sucesso que teve pela frente. Aplaudindo-a Barroso foi categórico: “senhoras e senhores acaba de nascer uma estrela”. Aquilo era taxativo, à época, para o mundo da musica popular. A mocinha, saída da favela de Padre Miguel, desengonçada, franzina, mal vestida, com um arranjo de roupa da mãe, que vestia um manequim o dobro do dela, ajustado com alfinetes saiu vitoriosa e se jogou de corpo e alma no mundo concorrido das vozes do samba. Isto foi no final da década de 50. Numa das suas entrevistas, ela disse que “para dar sorte me apresento sempre com um alfinete na roupa”. Nos últimos 70 anos o mundo viu e aplaudiu a cantora, a ativista politica social, defensora das mulheres, dos negros e dos pobres. Fez muito pela gente pobre da sua favela de origem. Uma das passagens mais famosas da vida pessoal de Elza foi, indiscutivelmente, sua relação amorosa com Mané Garrincha, astro da Seleção Brasileira, campeão do mundo, após a vitória do bicampeonato mundial, no Chile, em 1962. Garrincha, casado e com dez filhos, largou tudo e se agarrou numa louca paixão com a já consagrada sambista. Foi o maior auê daqueles tempos. (Vide foto abaixo). O casamento não chegou a ser um mar de rosas, segundo relatam. Foi tumultuado, sobretudo por conta do alcoolismo do jogador. “Mané era uma figura doce e querida, mas a bebida estragou tudo” e “Todo mundo dizia que eu havia sido o motivo da decadência dele como jogador, mas o que o derrotou foi joelho doente”. São frases de Elza quando no trato do assunto. E arrematava com uma declaração saudosa ao afirmar: “mas, foi um amor como nunca eu havia sentido. E ele, também!”
Há quem afirme que ela é insubstituível. Com certeza será sempre lembrada.
sábado, 15 de janeiro de 2022
SOTURNO
Após um período de recesso o Blog do GB está de volta. Ano novo, vida igual. O som que vem das ruas é como dantes, o vento que sopra nas vidraças é, tal qual, o dos ontens. Já a pandemia dá sinais de retorno com força e assusta todo mundo. E as contas? Ah! Essas continuam chegando. Até mais volumosas.
É curioso lembrar como o espirito de esperanças e de paz que permeiam os dias de festas no fim de ano, criando sempre expectativas de um bom tempo pela frente, se esvai “com o cair da ficha” e a mídia noticiosa, honesta ou desonesta, ecoar na minha sala e jogar, sem dó, a verdade do momento. Fico a procurar um adjetivo para qualificar o novo momento, o novo ano. Foi difícil. Contudo, numa mensagem de amigo apareceu-me um que coube justo nas minhas reflexões de ano novo: soturno. Adjetivo pouco usado. Mas, muito próprio para este ano que prometia uma trégua e vem, de cara, nos negando. Soturno quer dizer algo melancólico, tristonho, sombrio, grave...
Posso estar enganado, mas, este inicio de 2022 vem assustando ainda mais do que o ano passado. Pessimista? Não. Realista. Fujo das noticias calamitosas, mas, como não me compadecer da massa populacional que entrou o ano mergulhada nas avalanches de águas vertidas pelas comportas abertas dos céus baianos e mineiros? Casas destruídas, perdas materiais e vidas roubadas. Como não me sensibilizar e lamentar com aquele triste acidente na represa de Furnas (Capitólio/MG) (Foto abaixo)? Soturno demais.
Além dos desastres provocados pelas revoltas da Mãe Natureza, no Brasil, soturno é também a situação que, segundo as agencias de noticias, reina ao redor mundo. Europa, África, Américas, Ásia e Oceania ja foram atingidas pela cepa do momento - ômicron - da Covid-19. “Não vai escapar ninguém. Cem por cento da população contrairá o vírus!”. Li isto, nos primeiros dias do ano, num jornal europeu. Ainda bem que agregaram um paragrafo anunciando que, segundo especialistas, seria o fim da pandemia. O vírus passaria a ser endêmico. Entendi, portanto, que vamos conviver com esse “bandido” para sempre. Fora o fato de que, aqui no Brasil, ainda sola uma gripe (H3N2) que se junta à Covid-19 e ganha uma denominação prosaica de Flurona. Tempos difíceis.
No ambiente doméstico, como esperado, a briga renitente pelo poder da República entra o ano revelando novos e palpitantes lances e cruzando temas dos mais diversos, que se estendem de uma “briguinha de comadres” como a da administração de vacinas para população infantil à vergonhosa dotação de grana para as campanhas eleitorais. Ah! Há também a reprise das cansadas denúncias de corrupções. Fico soturno com essas coisas.
Ainda bem que nem tudo é soturno e, por isso, estou aplaudindo os cancelamentos dos carnavais, Brasil afora, em beneficio da saúde coletiva. Recordo que fiz um apelo por este Blog quando ainda estavam programando as festas de natal e réveillon. Estas, aliás, desnecessárias dadas às noticias que chegavam do outro lado do mundo. Não tenho dúvidas que prevalece, mais uma vez, a velha sabedoria popular: “brasileiro só fecha a porta depois que é roubado”.
Lamento emitir um post tão soturno, mas, não tive para onde correr. Na próxima semana vou relatar uma escapada que dei pelo interior do Brasil, numa ousadia, inclusive, de entrar num avião e aterrissar em Goiás. Até lá. Boa semana e cuidado com a Flurona! !
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