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sexta-feira, 2 de outubro de 2026
Vamos às Urnas
A ideia que passa pelas cabeças dos brasileiros conscientes é de que o conceito de democracia, nos Tribunais Superiores da Republica, difere muito do que a Historia consagrou. O episodio de ontem que resultou no cancelamento do tradicional debate, avidamente esperado, na Rede de TV Globo, reflete essa ideia. Uma decisão monocrática provocou esse desfecho preocupante. Não bastassem os recentes contratempos no STF, eis que o Superior Tribunal Eleitoral (STE) dá sua “contribuição” pouco republicana, às vésperas de uma eleição majoritária, repleta de embates, dúvidas e incertezas. São essas trapalhadas do Judiciário que resulta na revolta e na decisão de muitos não irem às urnas. Principalmente aqueles com mais de 70 anos ou mesmo outros muitos que aproveitam o domingo para curtir o sol do verão que já brilha antecipadamente nos céus do Brasil. Conheço vários que pensam num desses modos. Ou seja, a eleição tem sido banalizada por milhares dos nossos eleitores. Esquecem que, apesar de ser uma rotina, é um dos momentos mais importantes de uma democracia. Não lembram ou nunca pensaram que diante da urna, todos somos iguais. O voto de cada cidadão tem o mesmo valor, independentemente de sua condição econômica, profissão, posição social ou grau de instrução. Isso, por si só, deveria nos fazer refletir sobre a importância desse gesto. Votar não deveria ser apenas cumprir uma obrigação legal. Votar é exercer um direito e, sobretudo, participar da definição dos rumos do país. É verdade que nem sempre encontramos nas urnas aquilo que gostaríamos. Podemos ter dúvidas, decepções e até falta de entusiasmo diante das alternativas existentes. Contudo, isso faz parte da democracia. Por isso, considero preocupante quando ouço alguém dizer: “Meu voto não faz diferença” ou “não adianta votar”. A política continuará existindo, quer participemos dela ou não. Governos serão eleitos, parlamentares ocuparão seus cargos e decisões serão tomadas. A questão é saber se queremos participar dessas escolhas ou simplesmente deixar que outros decidam por nós. Por outro lado, é bom lembrar que a responsabilidade do cidadão não termina quando ele deixa a cabine de votação. O voto escolhe representantes. Mas, não lhes entrega um cheque em branco. Depois da eleição, cabe ao eleitor acompanhar, cobrar, fiscalizar e exigir que aqueles que receberam seu voto cumpram suas responsabilidades e entreguem suas promessas. Isto sim é Democracia. Ela não acontece somente no dia da eleição. Mas é na eleição que o cidadão exerce, de maneira direta, uma das suas principais formas de participação política. Pensando assim, acredito que valha a pena ter consciência do seu papel de cidadão com bastante atenção no próximo Domingo, 4 de Outubro. Antes de votar, conhecer os candidatos, suas propostas e suas trajetórias. Procurar informações confiáveis. Não se deixar levar apenas por slogans, redes sociais ou opiniões de terceiros. Precisamos transformar o voto em consciência. Votar é escolher. E escolher, numa democracia, é também assumir responsabilidade pelo futuro coletivo, sob pena de compor as fileiras no enxovalhamento do estado Democrático. Vamos às urnas conscientes e confiantes na escolha que se faça. O Brasil precisa dos seus votos. NOTA: A ilustração foi colhida no Google Imagens.
sexta-feira, 25 de setembro de 2026
Chegando para Ficar
Cansei de acompanhar as “futricas” politicas. Dei um tempo, inclusive, de postar meus artigos deste gênero. Um desgosto sem limites. Contudo, tenho estado atento para outro tema que vem sendo amplamente discutido e repercutido por todo lado. Aqui e alhures. Refiro-me à onda avassaladora da Inteligência Artificial (AI). Notei, inclusive, que foi destaque da pauta da reunião inaugural da Assembleia Geral da ONU, realizada quarta-feira (23), em Nova York. Já não se trata de uma promessa futurista. É a realidade, anunciando que o futuro chegou. E chegou pra ficar. Estamos diante de uma desafiante revolução tecnológica que já tomou conta das atividades humanas de forma invasiva e, ao mesmo tempo, indispensável. Chega ser assustador em certos aspectos. Analisando a miúde, muitas são as vantagens da sua utilização, assim como muitos são os riscos que decorrem do seu uso inescrupuloso. Uma pergunta me ocorre, de cara: até onde a inteligência artificial pode chegar?
Ligado no tema procurei levantar, entre muitas opiniões publicadas, quais os mais importantes benefícios oferecidos pela ferramenta e consegui listar coisas concretas que, abertamente, fazem parte corriqueira das atividades humanas. Vejamos: a) funciona como fabuloso apoio ao diagnóstico e à pesquisa médica, além da descoberta de novos medicamentos; b) automação de tarefas repetitivas; c) tradução e comunicação entre idiomas; d) análise de grandes volumes de informações; e) decisivo apoio à ciência e à inovação; f) facilitação do acesso ao conhecimento, entre muitos outros. Tudo isso, de fato, é de inegável contribuição. Contudo, uma ressalva me ocorre registrar: ganho de produtividade nessa velocidade significa imediato ganho de bem-estar social? Quem se beneficia desses ganhos? Eis aí uma das mais desafiantes questões politicas. Afinal, mandará mais quem mais dominar a AI. Eis aí uma questão complexa para esse mundo de disputas acirradas pela liderança geopolítica mundial. Ao mesmo tempo em que levantei os benefícios, apressei-me em listar opiniões a respeitos dos possíveis riscos que se corre em viver num mundo aonde a AI chega a invadir camadas sociais das mais diferentes matizes. Pois bem. Vi de pronto que é aí onde a situação se mostra mais desafiadora. De forma concreta podem ocorrer, de imediato, coisas do tipo: a) substituição ou transformação de profissões; b) concentração de poder tecnológico nas mãos de poucas empresas ou poucos países; c) utilização da ferramenta para manipulação e desinformação; d) produção de imagens, vídeos e textos falsos cada vez mais convincentes; e) perda de privacidade; f) utilização de algoritmos em decisões que afetam diretamente pessoas; g) dependência excessiva da tecnologia; h) possibilidade de erros cometidos por sistemas apresentados como se fossem infalíveis, entre muitos outros tipos de riscos. Para completar, considero que um risco que se mostra deveras preocupante é o da terceirização do pensamento. Imagine se o individuo passa a perguntar à maquina o que deve ler, pensar, ouvir, escrever, escolher e, sei lá, decidir. Meu Deus! O cara pode até ganhar eficiência, mas, perde, paradoxalmente, sua capacidade intelectual. É uma situação preocupante. A humanidade criou uma ferramenta extraordinariamente poderosa. O desafio agora é impedir que a busca por eficiência, lucro ou poder faça com que a sociedade entregue à máquina decisões que deveriam continuar submetidas ao julgamento humano. Sinceramente, tenho medo. O mundo está cheio de maldades. Por exemplo, a IA pode diagnosticar uma doença, mas quem responde pela decisão médica? Pode produzir uma notícia, mas quem garante que ela é verdadeira? Pode auxiliar um juiz, um governante ou uma empresa, mas quem será responsável quando a máquina errar? Eis ai o que temos pela frente. NOTA: A ilustração foi obtida no Google Imagens.
quarta-feira, 16 de setembro de 2026
Supremo Desalento
Acordei cedo neste 15 de setembro de 2026, alimentado uma das maiores esperanças dos últimos tempos para meu Brasil: a sessão extraordinária do Supremo Tribunal Federal (STF) na qual seria discutida a possibilidade de julgamento de um dos seus membros, apontado como cumplice e integrante de uma quadrilha de corruptos sob o comando do ex-banqueiro Daniel Vorcaro (ex- Banco Master). A revolta exposta no post da semana passada era meu combustível. Postei-me diante da TV e acompanhei a sessão que, aos poucos, revelou-se como uma farsa indecente e vergonhosa, em se tratando da mais alta Corte de Justiça do país. Decepcionado, confesso que terminei o dia com um sentimento difícil de esconder: indignação. Não pela existência de divergências entre ministros. Até porque divergir é próprio de uma Corte. Não pela existência de votos diferentes. Afinal o contraditório é indispensável à Justiça. O que me incomodou profundamente foi outra coisa: a maneira como algumas divergências foram colocadas. Ora, ora, o Supremo Tribunal Federal não é um palco qualquer. É a mais alta Corte de Justiça do país. Uma coisa básica e aparentemente esquecida por aqueles senhores e senhora togados naquele recinto. Na minha cabeça e de meio mundo, são pessoas que ocupam posições que exigem, além de conhecimento jurídico, uma responsabilidade institucional extraordinária. Espera-se deles serenidade, equilíbrio, respeito recíproco e, sobretudo, decoro. Justamente o que, a meu ver, pareceu faltar em determinados momentos daquela sessão, vista e transmitida para o povo brasileiro, ávido por um desfecho moralmente correto e republicano no seu próprio conteúdo. Curiosos de como o próprio presidente da Corte, ministro Edson Fachin, ao abrir os trabalhos, fez um apelo por “sensatez, decoro e serenidade”. Não poderia haver advertência mais significativa. Porém, por que se lembrar de decoro, que na base da civilidade é obvio e desnecessário ser sublinhado? Previa ou já se preparava para tantas “pedradas” prometidas? Pobre Presidente. Não deu outra. Mostrou-se um fraquíssimo líder. No decorrer da sessão o que veio foi um plenário marcado por interrupções descabíeis, acusações e confrontos pessoais entre integrantes, de modo escancarado e acredito que inédito. Como cidadão cumpridor dos meus deveres e obrigações sócio-políticas logo conclui que estávamos diante de uma ensaiada “ópera bufa” tentando transformar a plateia - o povo brasileiro - numa nação de alienados. Alto lá! Senhoras e Senhores, o cidadão comum pode até não compreender todos os detalhes jurídicos de uma petição de uma investigação ou de uma questão de ordem. Mas compreende perfeitamente quando pessoas investidas de enorme poder começam a se tratar publicamente de maneira incompatível com a dignidade do cargo que ocupam. È nisto que está, para mim, o ponto central. Quando ministros do Supremo entram em confronto diante de milhões de brasileiros, o problema deixa de ser apenas deles. Atinge a imagem da Corte. E quando a imagem da Corte se deteriora, deteriora-se também algo muito mais importante: a confiança da sociedade nas instituições. Não estou dizendo que ministros não possam ser criticados. Ao contrário. Ninguém está acima da crítica — muito menos aqueles que exercem uma parcela tão extraordinária do poder do Estado. Mas justamente por isso é preciso cobrar deles aquilo que se cobra de qualquer instituição que pretenda ser respeitada: limites, equilíbrio, responsabilidade e respeito. O mais lamentável é que o Brasil já vive uma época de profunda divisão política e institucional. O cidadão está cansado de conflitos permanentes, de acusações cruzadas e de disputas pelo poder. Precisávamos que o Supremo fosse uma referência de equilíbrio. Precisávamos olhar para aquela Corte e pensar: ali estão homens e mulheres capazes de discordar profundamente sem transformar a divergência em confronto pessoal. Infelizmente vi justamente ao contrário naquela sessão histórica. É muito preocupante! Um país não se perde apenas quando suas instituições deixam de funcionar. Ele também começa a se perder quando as instituições continuam funcionando formalmente, mas deixam de inspirar confiança. O que assisti, ontem, foi degradante. Afundei no meu sofá e perguntei aos meus botões: Quem julga os julgadores quando eles próprios deixam de oferecer à sociedade o exemplo de equilíbrio que dela exigem?. Aquilo ali, não pode continuar como está. Precisa ser refeito! A sociedade brasileira brada, aos quatro ventos, por um Supremo supremo e não mais aceita uma Corte do faz de conta, onde cada membro cuida do seu quinhão e esquece os compromissos dos quais foram investidos. Vergonhoso.NOTA: Foto ilustração obtida no Goole Imagens
sexta-feira, 4 de setembro de 2026
Impossível Calar
Confesso que ando me esquivando de postar algo mais contundente sobre assuntos políticos. Particularmente nesses tempos de campanha eleitoral. Mas, impossível calar, nesta semana. Estou indignado. E talvez seja importante começar dizendo isso sem rodeios: estou indignado como cidadão brasileiro.
Não porque tenha sido revelado mais um episódio da interminável disputa política brasileira. Não porque eu seja contra um ministro ou simpatizante de outro.
Estou indignado porque aquilo que veio a público, esta semana, envolve justamente a instituição que deveria representar, para todos nós, o último refúgio da Justiça.
E quando a confiança na Justiça começa a desaparecer, o problema deixa de ser de um ministro. Passa a ser de todos nós.
O relatório da Polícia Federal tornado público pelo ministro André Mendonça trouxe à luz mensagens e informações que apontam para uma relação muito chegada entre o ministro Alexandre de Moraes e o mafioso, ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master. Entre os elementos divulgados estão contatos – pouco republicanos – entre os dois e referências a questões relacionadas às investigações que atingiam o banqueiro. Há também informações sobre contratos de elevado valor envolvendo o escritório da esposa e filhos de Moraes. Repugnante.
Eu não preciso — e nem pretendo — afirmar que isso constitui crime. Não me cabe considerar. Mas me cabe perguntar: o que significa tudo isso?
Por que um ministro do Supremo mantinha uma relação dessa natureza com um banqueiro que posteriormente se tornou alvo de uma investigação que resultou no maior escândalo de corrupção que se tem conhecimento, no Brasil? Isso é normal?
Se é, que sejam explicados. Se não é, que se investigue.
O que não considero aceitável é que se espere do cidadão brasileiro que simplesmente feche os olhos e diga: “não aconteceu nada”. No mínimo, aconteceu uma grave crise de confiança. E talvez seja justamente aí que esteja a maior importância da atitude de André Mendonça.
Ao retirar o sigilo do relatório e defender que o assunto seja levado ao plenário do Supremo, Mendonça colocou uma palavra que parece estar se tornando rara na vida pública brasileira: transparência.
Não desejo salvadores da Pátria. Mas, sim, instituições corretas e capazes de sustentar a tão decantada Democracia.
Depois do pipoco inicial, que assustou o Brasil é inacreditável que venha ser travada l uma uta vergonhosa de um ministro contra outro. Que vergonha.
Desejo, sim, o Supremo contra qualquer suspeita que possa atingir a sua própria credibilidade.
Quero que todos sejam tratados com o mesmo rigor até porque ninguém pode estar acima da lei. Nem mesmo quem tem a responsabilidade de interpretá-la.
Bom recordar que, nós brasileiros fomos ensinados a respeitar as instituições nacionais. Precisamos continuar respeitando-as
Mas respeitar uma instituição não significa ser obrigado a aceitar tudo o que seus integrantes fazem. Ministros não são santos. Toga não é imunidade moral. E o Supremo Tribunal Federal (STF) é uma instituição fundamental da República. Como calar diante de tanta corrupção. Por que deveria ser diferente com um ministro do Supremo? E não me venham dizer que questionar um ministro significa atacar o STF. Pelo contrário, é defender a Nação. Afinal, questionar, investigar e esclarecer aquilo que possa comprometer a imagem de um ministro é uma forma de proteger o Supremo. E que não haja nenhum tipo de vergonhosa solidariedade corporativa destinada a proteger seus próprios integrantes. Seria vergonhoso mais uma vez.
A proposito do desmantelo, o próprio presidente do STF, Edson Fachin, reconheceu que os indícios exigem encaminhamento institucional e afirmou que a autoridade do cargo não confere privilégios, mas impõe deveres, limites e responsabilidades.
É exatamente isso que eu espero. limites
Precisamos lutar por um Supremo respeitado. Não calemos!
sábado, 22 de agosto de 2026
Salvemos a Imperatriz
Não é comum que eu escreva sobre questões tão específicas da vida urbana brasileira, embora seja bem interessante. Minha pauta, como sabem os leitores deste Blog, costuma transitar por temas mais macros, sobretudo aqueles relacionados à política, à sociedade e aos caminhos que estamos construindo para o nosso país. Mas, desta vez, abri uma exceção ao ser convidado por amigos para participar de uma manifestação empresarial em defesa da recuperação da Rua da Imperatriz, no centro do Recife. O convite me fez refletir. E aceitei porque acredito que o abandono daquela importante artéria da nossa cidade não é apenas um problema dos comerciantes que ainda resistem por ali. É uma questão que diz respeito a todos nós recifenses. Quem, como eu, conheceu a Rua da Imperatriz em outros tempos certamente guarda alguma lembrança. Durante décadas, ela foi uma referência do comércio recifense, um lugar de passagem, de compras, de encontros e de convivência. Tinha movimento, lojas, pessoas e vida. Hoje, infelizmente, a realidade é outra. A degradação física, o enfraquecimento do comércio, a insegurança e a redução da circulação de pessoas criaram um ambiente que pouco lembra a rua que tantos recifenses conheceram. E quando uma área tradicional de uma cidade chega a esse estágio, não estamos diante apenas de uma dificuldade econômica. Estamos diante de uma perda urbana. Uma rua não é somente um conjunto de imóveis, calçadas e estabelecimentos comerciais. Ruas também guardam histórias. São testemunhas silenciosas das transformações de uma cidade. Por elas passaram gerações de pessoas, comerciantes, trabalhadores, estudantes e famílias. Algumas fazem parte da própria memória afetiva de uma população. Por isso, recuperar a Rua da Imperatriz deveria ser muito mais do que reabrir lojas ou aumentar o faturamento do comércio local. É preciso devolver-lhe vida. E devolver vida a uma área degradada não é tarefa simples, nem responsabilidade exclusiva de um único segmento. O poder público tem, evidentemente, um papel fundamental. Cabe-lhe garantir segurança, limpeza, iluminação, conservação dos espaços públicos, mobilidade e condições mínimas para que moradores, trabalhadores e consumidores possam voltar a frequentar aquela região. Mas também não podemos imaginar que o poder público, sozinho, resolverá tudo. Os empresários e comerciantes precisam participar desse processo. Proprietários de imóveis também têm responsabilidades. A sociedade, por sua vez, precisa voltar a olhar para o centro da cidade não como uma região a ser evitada, mas como um espaço que merece ser recuperado e ocupado. Há, portanto, uma palavra que considero essencial nesse debate: parceria. Precisamos superar a velha lógica de que, diante de um problema urbano, cada lado procura imediatamente apontar o culpado. O empresário culpa o poder público. O poder público responsabiliza o comércio. O cidadão reclama de todos. E, enquanto isso, a degradação avança. Não é disso que o Recife precisa. Precisamos de um projeto de recuperação do centro que tenha continuidade, planejamento e participação. Um projeto que não se limite a uma intervenção pontual ou a uma ação de ocasião. A Rua da Imperatriz poderia ser, inclusive, um bom ponto de partida. Sei que estudos vêm sendo realizados para avaliar as possibilidades de revitalização daquela área. Considero importante que a Universidade Federal de Pernambuco/SUDENE e outras instituições participem desse esforço. Uma intervenção urbana dessa natureza não pode ser feita sem conhecimento técnico, planejamento e visão de futuro. Mas há algo que também precisa ser levado em consideração: a experiência de quem vive diariamente a realidade da rua. Proprietários de imóveis e comerciantes defendem, entre outras medidas, a possibilidade de reabrir a Rua da Imperatriz ao tráfego de veículos leves. Representante da Prefeitura do Recife, presente no encontro em tela, assim prometeu. Muitos acreditam que a circulação de automóveis poderia facilitar o acesso dos consumidores, aumentar o movimento e contribuir para devolver vitalidade ao comércio. Confesso que não tenho conhecimento técnico para afirmar que essa seja a solução. Mas tenho uma convicção: ela não pode ser simplesmente descartada. Se aqueles que trabalham e investem na rua há anos percebem uma relação entre a atual configuração da via (um grande calçadão) e o esvaziamento do comércio, essa percepção precisa fazer parte da discussão. Ao mesmo tempo, não me parece correto transformar essa questão em uma disputa entre automóveis e pedestres. O objetivo não deve ser escolher um lado. O objetivo deve ser descobrir qual modelo de circulação e ocupação pode efetivamente devolver vida à Rua da Imperatriz. A recuperação da Rua da Imperatriz poderia integrar uma iniciativa mais ampla de revitalização do velho centro do Recife, estimulando a ocupação dos imóveis, a recuperação das fachadas, a instalação de novos negócios, a valorização do patrimônio histórico e, principalmente, a presença permanente das pessoas. Porque cidade viva é cidade ocupada. É preciso segurança para que haja circulação. É preciso circulação para que haja comércio. É preciso comércio para gerar empregos e atrair pessoas. E é preciso preservar a história para que a modernização não transforme o centro em um lugar sem identidade. É justamente aí que vejo a importância da mobilização empresarial à qual fui convidado. Ela pode representar algo maior do que uma reivindicação de comerciantes. Pode ser um alerta para toda a cidade. O Recife não pode se acostumar com a decadência de seus espaços tradicionais. Não podemos considerar natural que ruas que já foram importantes centros de convivência e de atividade econômica sejam progressivamente abandonadas. Não podemos assistir passivamente à deterioração de imóveis históricos, à perda de atividades comerciais e ao afastamento das pessoas. Vide foto a seguir.
Uma cidade que abandona seu centro corre o risco de abandonar também parte da sua própria memória. E não estou defendendo um retorno ao passado. O Recife não precisa voltar a ser a cidade de décadas atrás. Precisa, isto sim, construir um futuro melhor aproveitando aquilo que o passado lhe deixou. Talvez seja esse o maior desafio que temos diante da Rua da Imperatriz. Não se trata apenas de recuperar uma rua. Trata-se de recuperar a possibilidade de que aquele espaço volte a ser um lugar de encontro, de trabalho, de comércio e de convivência. Um lugar onde o recifense possa caminhar, comprar, conversar, trabalhar e sentir que aquela rua pertence novamente à cidade. A Rua da Imperatriz é apenas uma parte de um problema muito maior. Muitas outras artérias estão largadas ao abandono, mas pode também ser parte de uma solução. Se conseguirmos unir poder público, iniciativa privada, universidade e sociedade em torno de um objetivo comum, talvez possamos começar a mudar essa história. Não devemos esperar que a Rua da Imperatriz desapareça para depois lamentar a perda. Ainda há tempo de recuperá-la. E, ao fazê-lo, estaremos recuperando muito mais do que o comércio de uma rua. Estaremos recuperando um pedaço da memória, da dignidade e da própria alma do Recife. Foto do Blogueiro.
sexta-feira, 14 de agosto de 2026
Reféns da Polarizção
Após muitas idas e vindas, dúvidas e desencontros, tensões e rangeres de dentes, as campanhas eleitorais começam, prá valer, neste domingo,16 de agosto. Por tudo quanto assistimos, nesses dias de pré-campanha, emoções muito maiores irão rolar e a luta ferrenha pelo poder mostrará suas garras, seus perrengues e as gravidades que o processo poderá revelar ao longo da jornada. Serão, aproximadamente, sessenta dias nos quais milhões de brasileiros conviverão com um ambiente de estresse e questionamentos, pavimentando seus caminhos às urnas para escolher seus representantes na cúpula alta do Poder.Como qualquer brasileiro responsável, considero que será um momento importante para que a Democracia Nacional se confirme, bem como uma preciosa oportunidade para que a Nação reflita sobre um fenômeno que, há alguns anos, vem contaminando a vida pública nacional: a polarização política. Não sou ingênuo e sei que, naturalmente, a divergência de ideias é saudável. A História revela que, em toda sociedade democrática, existem diferentes visões sobre as dimensões sócio-políticas, sobremaneira as da economia, saúde, educação, segurança publica, política externa. E no Brasil não podia ser diferente. Contudo, no nosso caso, o problema tronou-se extremamente complexo porquanto as divergências deixaram de ser fatores que visem ao aperfeiçoamento das decisões coletivas e benéficas à Nação e passaram a ser uma luta ferrenha pelo Poder. O país está dividido em dois campos que se enxergam com crescentes desconfianças e eivados de princípios ideológicos, nem sempre bem interpretados. O debate de ideias, a rigor, desapareceu, sendo substituído por ataques, inclusive pessoais, produzindo um ambiente perverso, jogando o interesse nacional para um plano inferior e muitas vezes esquecido. Em suma, estamos reféns de uma polarização danosa e irresponsável. É desesperador notar que projetos importantes deixam de avançar simplesmente porque foram propostos pelo “outro lado”. O mérito da proposta torna-se menos importante do que a identidade de quem a apresentou.
Ora, minha gente, nenhuma democracia madura prospera dessa maneira. As grandes nações conseguem avançar justamente porque, apesar das diferenças ideológicas, preservam alguns consensos fundamentais: o respeito às instituições, à Constituição, à alternância de poder e, sobretudo, ao diálogo. Há um bom tempo, nada disso vem ocorrendo por aqui. É evidente que eleições despertam paixões. Sempre foi assim e continuará sendo. O voto envolve convicções profundas, expectativas e sonhos. Contudo, a paixão política não pode eliminar a capacidade de ouvir quem pensa diferente. O politico brasileiro precisa entender isto. A polarização que hoje se verifica no Brasil tem levado ao desperdício de oportunidades preciosas. O país não avança. A sociedade tende a empobrecer cada vez mais, a indústria definha, o dinâmico agronegócio vem perdendo competitividade, a insegurança campeia de norte a sul, a infraestrutura se deprecia e assim por diante. Não vou mostrar dados. Eles estão abertos a toda hora pelos meios de comunicação. Bem observados é fácil constatar que os índices recentes têm revelado níveis nada apreciáveis. O mais lamentável é que o Brasil possui desafios suficientemente grandes para que desperdicemos tempo alimentando antagonismos permanentes. Este país precisa de governos competentes, mas também de uma oposição responsável. Que surjam líderes capazes de convencer, e não apenas de vencer. Precisamos, sobretudo, de cidadãos dispostos a colocar o futuro do país acima das preferências partidárias. Neste início de campanha eleitoral, talvez valha a pena recordar que adversários políticos não são inimigos da Pátria. O eleitor tem o direito — e o dever — de escolher o candidato que considere mais preparado. Mas também tem a responsabilidade de rejeitar o discurso do ódio, da intolerância e da desumanização daqueles que fazem escolhas diferentes. As eleições passam. Os governantes mudam. Os partidos se renovam. A Nação, porém, permanece. E ela somente será mais forte se conseguir recuperar uma virtude que parece cada vez mais rara na vida pública brasileira: a capacidade de discordar sem destruir, debater sem ofender e construir sem dividir. Que esta campanha seja uma oportunidade para elevar o nível da discussão política. NOTA: Ilustração obtida no Google Imagens.
domingo, 2 de agosto de 2026
Tropeços Diplomáticos
Por razões profissionais tive boas oportunidades de vivenciar e interagir com o meio diplomático brasileiro, bem como de outros países com os quais o Brasil se relaciona. Foram experiências formidáveis e enriquecedoras na construção da minha carreira como Economista, tanto no serviço publico, como no meio empresarial, onde, por bom tempo, atuei como Consultor. No Serviço Público contribuí, no fim de carreira, como Coordenador de Cooperação Internacional da SUDENE e, após isto, prestando consultorias no setor privado, até bem recente. Certamente que estes antecedentes despertaram-me grande interesse pelos recentes tropeços diplomáticos envolvendo o Brasil com a Argentina e o Paraguai. Apreensivo, conferi que foram situações vexatórias e desafiadoras para os tempos que vivemos. Considerei como deplorável ver o presidente argentino, Javier Milei, sem cerimonia e respeito, desferir tantas “indelicadezas politicas” ao Presidente brasileiro e a um magistrado da Suprema Corte do Brasil. Por mais razões que possam ser narradas, nunca se espera de um mandatário estrangeiro - em visita ao país vizinho e amigo – dar aquele quase histérico de pronunciamento. Por outro lado e como se isto fosse pouco, nosso Presidente também teve seu momento de tropeço ao se referir de modo sem fundamento histórico ao vizinho Paraguai, num dos seus discursos semanais. Ambos os casos apontam para ausência total de um alinhamento politico-diplomático nas assessorias dos dois presidentes. Vá lá que eles não se liguem com acurados cuidados e se confiem nos seus improvisos, mas, a coisa não sai barata. Presidentes de Nações devem ter mínimos conhecimentos históricos do país que comanda e sempre respeitá-los. Aliás, vale refletir que é justamente nesses momentos que estadistas se distinguem de meros administradores de crises geradas por polarizações políticas. Enquanto estes respondem pelo presente, aqueles procuram preservar a Historia e o futuro. Esta tensão diplomática entre Brasil e Paraguai despertou, rapidamente, a atenção da opinião pública dos dois países. As manchetes destacaram declarações, protestos, consultas de embaixadores e manifestações oficiais. Ora, meu Deus, é natural que episódios dessa natureza provoquem inquietação, sobretudo envolvendo dois países vizinhos, ligados por uma extensa fronteira e por históricos interesses político-econômicos comuns. Brasil e Paraguai possuem uma convivência marcada por episódios dramáticos e, ao mesmo tempo, por extraordinários exemplos de cooperação. A Guerra da Tríplice Aliança, travada no século XIX, deixou cicatrizes profundas que jamais desapareceram completamente da memória coletiva dos paraguaios. Seria ingenuidade imaginar que um conflito daquela dimensão pudesse ser apagado pelo simples passar do tempo. A propósito disso, recordo de um episódio que vivi, num Seminário sobre (Sub)Desenvolvimento Regional, em Tóquio (Japão), quando , de certo modo. fui verbalmente agredido pelo representante paraguaio, criticando a presença de um representante do Brasil, país visto por ele como explorador e suficientemente desenvolvido. Ao mesmo tempo, contudo, seria igualmente injusto ignorar que, ao longo das últimas décadas, os dois países construíram uma relação baseada na integração econômica, na cooperação energética, Itaipu é um marco (Foto a seguir) dessa integração, no comércio, no combate aos crimes transnacionais e no fortalecimento do Mercosul.
A própria usina hidrelétrica de Itaipu simboliza essa realidade. Onde antes houve guerra, ergueu-se uma das maiores demonstrações de que antigos adversários podem substituir conflitos em desenvolvimento compartilhado. A energia produzida por Itaipu ilumina cidades, movimenta indústrias e demonstra que a cooperação costuma produzir resultados muito mais duradouros do que a confrontação. É inegável que Brasil e Paraguai possuem inúmeras razões para manter um relacionamento sólido. O comércio bilateral movimenta bilhões de dólares; milhares de famílias vivem nas regiões de fronteira; empresas, trabalhadores e estudantes transitam diariamente entre os dois países pela famosa Ponte da Amizade.Foto a seguir.
Creio que esses vínculos são mais fortes do que qualquer crise passageira ou tropeço de qualquer Chefe de Estado de plantão. Episódios como o recente devem servir menos para alimentar paixões e mais para recordar o verdadeiro sentido que é sustentado por um bom Corpo Diplomático. A Diplomacia existe justamente para administrar divergências antes que elas se transformem em conflitos maiores. A ela cabe, de modo atento, mostrar que as crises passam, a geografia permanece e a História continua. NOTA: Fotos ilustrativas obtidas no Google Imagens.
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