domingo, 28 de junho de 2026

Um país Destruido

A notícia do duplo terremoto que atingiu a Venezuela, no último dia 24, de 7,5 na escala Richter, despertou-me um sentimento diferente daquele experimentado pela maioria das pessoas que acompanharam o fato apenas pelos noticiários. Ao ver as imagens das cidades destruidas, não enxerguei apenas edifícios, ruas e praças. Vi lugares que conheci, pessoas com quem convivi e um país que marcou uma etapa importante da minha vida profissional. Tive o privilégio de trabalhar na Venezuela, em duas oportunidades, a primeira como consultor internacional da OEA e Itamaraty, numa fundação de desenvolvimento regional, em Barquisimeto (estado Lara) e como consultor empresarial. A primeira por dois meses, no ano de 1987. E a segunda no ano 2000, já no Governo de Hugo Chávez, numa comitiva empresarial de Pernambuco liderada pelo Presidente da Federação das Industrias de Pernambuco – Fiepe, à época o Dr.Armando Monteiro Neto. Em 1987 tive tempo suficiente para conhecer um pouco mais da realidade venezuelana, muito além dos roteiros habituais de quem faz uma viagem rápida. Conheci profissionais competentes, trabalhadores dedicados e cidadãos orgulhosos de sua cultura e de sua história. A Fundación de Desarollo de la Región Centro-Occidental de Venezuela – FUDECO, onde ofereci meus conhecimentos profissionais é (ou era) uma entidade moldada ao formato da SUNENE, onde exerci a maior parte da minha vida profissional, razão pela qual fui convocado. Hoje, não me canso de acompanhar as reportagens do recente duplo-terremoto e concluo que toda tragédia natural possui uma característica singular: ela nos lembra da nossa condição comum de seres humanos. Não distingue fronteiras, ideologias, religiões ou posições políticas. A força da natureza simplesmente nos mostra de forma dura e inequívoca que somos todos vulneráveis. Recordo que a Venezuela já vinha enfrentando, há muitos anos, enormes desafios econômicos, sociais e políticos. Milhões de pessoas tiveram suas vidas profundamente afetadas por essa realidade. Um terremoto da magnitude do ocorrido representa mais um expressivo obstáculo para uma população que há muito convive com dificuldades.
Chocado com as imagens reportadas, lembro-me de um país de paisagens exuberantes, de gente cordial e de cidades dinâmicas. Guardo na memória, de modo inesquecível, o profissionalismo das pessoas com quem trabalhei, a gentileza no convívio diário e o orgulho que muitos demonstravam ao falar de sua terra. São essas lembranças que me vêm à mente quando vejo as notícias sobre o recente desastre. Em momentos assim, vale a pena deixar de lado os debates políticos, que certamente têm seu espaço e sua importância. Antes de qualquer julgamento sobre governos ou modelos econômicos, existem famílias traumatizadas com as perdas de entes queridos, pessoas que perderam seus bens e comunidades inteiras mobilizadas para superar mais essa adversidade. Dados recentes dão contas de que 1.430 mortes já foram registradas. Além dessas perdas dolorosas, conta-se com 3.238 feridos, além de milhares desalojados. Como as equipes de resgates não param de trabalhar, esses números podem crescer. Ao recordar minhas passagens pela Venezuela, percebo que as lembranças mais valiosas não são dos prédios ou das avenidas, mas das pessoas. São elas que dão sentido às cidades e que, mais uma vez, precisarão demonstrar coragem para reconstruir o que a natureza reduziu a pó. Meu profundo desejo é de que o povo venezuelano encontre forças para superar mais este momento difícil. Que os trabalhos de resgate e reconstrução sejam bem-sucedidos e que prevaleçam a solidariedade, a esperança e a cooperação. Quando a terra treme, as construções podem ruir. Mas as lembranças, a amizade entre os povos e a esperança de dias melhores permanecem firmes. São elas que sustentam a reconstrução, não apenas das cidades, mas também da confiança no futuro. NOTA: Foto ilustração obtida no Google Imagens.

sábado, 20 de junho de 2026

Um Gigante Incompetente

Diante da TV, acompanho a Copa Mundial de Futebol que rola nos gramados da América do Norte, o movimento no tabuleiro de xadrez da geopolítica se intensificando (Moscou foi bombardeada por drones ucranianos) e, aqui por perto, Brasília que segue se derretendo ao calor das continuas ondas de corrupção. Cansado e até impaciente, mudo de canal e procuro noticias melhores. Inútil. Talvez, mesmo, pior. De cara fico sabendo que o Brasil caiu mais no ranking de competitividade entre 70 países pesquisados. O International Institute for Management Developement (IMD), da Suiça, realiza anualmente um monitoramento de 70 países, incluindo o Brasil, comparando os desempenhos, medidos a partir de quatro referencias: desempenho econômico, eficiência do governo, eficiência empresarial e infraestrutura. No Brasil, a Fundação Dom Cabral é responsável pelo levantamento dos dados. Pois bem. Na recente pesquisa, ano 2026, o Brasil recuou sete posições, entre os 70 países trabalhados, ocupando a 65ª. posição, junto com Turquia, Nigéria, Namíbia, Venezuela e Paquistão. “Bem” acompanhado... Logo pensei que, por pouco, não ocupou a lanterna. Pelo retrovisor, vi que em 2025 o Brasil estava na 58ª. posição.
Embora não fosse surpresa, confesso que senti tristeza ao tomar conhecimento desse resultado. O que mais chama atenção dos analistas brasileiros é o fato de que o Brasil está caindo de posicionamento, muito embora seja uma das maiores economias do mundo em tamanho, riqueza natural e PIB. Só que o ranking em tela não mede riqueza acumulada e sim, a capacidade de um país transformar recursos disponíveis, instituições, educação, infraestrutura e eficiência econômica em prosperidade sustentável. Tanto é que no topo da lista se posicionam: Singapura, Hong Kong, Suiça, Dinamarca, Emirados Árabes, Taiwan, Irlanda, Suécia e Catar. Diante desse resultado, o que costuma impressionar os analistas é que países pequenos como Singapura, Suíça e Dinamarca aparecem no topo do ranking, enquanto economias muito maiores podem figurar na faixa intermediária ou nas últimas posições. (os Estados Unidos figura em decima posição). Isso reforça a ideia de que competitividade está mais ligada à qualidade das instituições e da gestão do que ao tamanho do território ou da população. No caso brasileiro, muitas são as razões apontadas, entre as quais se destacam: baixa produtividade, deficiências educacionais, burocracia excessiva, insegurança publica, infraestrutura insuficiente e insegurança jurídica e fiscal. Resultado é que, no dia-a-dia do brasileiro, se convive com produtos mais caros; menor crescimento econômico; baixas oportunidades para os jovens e dificuldade de financiar políticas sociais e previdenciárias. Em suma, o desafio brasileiro não é apenas crescer, mas crescer com eficiência. Até mesmo porque competitividade pode não ser um objetivo básico. Mais do que isto deve ser um instrumento para melhorar a vida das pessoas. Por isso, considero que se fala de um Gigante Incompetente. NOTA: Foto ilustração obtida no Google Imagens.

domingo, 14 de junho de 2026

Totens às suas Ordens

Há dez anos me surpreendi com a automação dos serviços aeroportuários em Sydney (Austrália) quando me preparando para embarcar num voo de volta ao Brasil. Tudo às ordens, sim senhor, mas através de totens inteligentes, espalhados pela estação de passageiros. Sabedor dessas modernidades mundo afora, ainda tive dúvidas diante da máquina e principalmente no tocante ao despacho da minha bagagem. Busquei um auxiliar da empresa aérea transportadora e foi o canto mais limpo. Necas de atendente. “Conversei” com calma com a máquina, fui em frente e entreguei a Deus. Tirei minha ficha de embarque e despachei minhas malas. Tudo correu bonitinho, mas, só descansei de verdade, quando vi minha bagagem aparecendo nas esteiras de Guarulhos. Hoje já vejo essas coisas por este meio mundo de cá com mais tranquilidade e hábito. Esta semana, contudo, recebi uma charge (vide foto ilustrativa, a seguir) que me chamou atenção para um fato real e preocupante. Milhões de casos que devem suceder no Brasil moderno.
Ocorre que, à medida que o tempo passa, a tecnologia avança e boa parte da população envelhece, instala-se um verdadeiro caos numa parcela, hoje representativa, dos brasileiros despreparados para viver as tais modernidades. Aeroportos, bancos, laboratórios médicos, clinicas, entidades governamentais, entre muitos outros, já se valem dessas máquinas inteligentes e que muitas vezes espantam o freguês. Por curiosidade fui conferir alguns números publicados pelo IBGE e tive a surpresa de conhecer números que muita gente desconhece, inclusive quem lida com politica social. Imagine que em 2025, o Brasil já contava com cerca de 35,2 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, um crescimento de quase 60% em relação a 2012, quando esse contingente era de 22,2 milhões. Noutro dado, que considero o mais impressionante, vi que o IBGE projeta que a população brasileira atingirá seu pico por volta de 2041 e depois começará a diminuir. Baseado nisto, pela primeira vez em sua história, o Brasil caminhará simultaneamente para o envelhecimento e para a redução do número de habitantes. Ai, meus amigos e amigas, a coisa se complica porque o desafio do Brasil na segunda metade do século XXI já não é administrar uma população básica e historicamente por jovens em rápido crescimento, mas preparar-se para uma sociedade mais madura, mais longeva e, futuramente, menos numerosa. Bom, pensando bem e como a fila anda, nessa época serão os atuais jovens que mandarão. E os longevos de hoje que se virem enquanto vida tiverem. NOTA: A ilustração foi obtida no Google Imagens.

sexta-feira, 5 de junho de 2026

Tretas Prejudiciais

É desanimador acompanhar as tretas políticas brasileiras que se desenrolam a partir de Brasília, com sérios rebatimentos nas unidades da Federação. A inquietação é indiscutível. Pior ainda quando as coisas ultrapassam as fronteiras nacionais e mancha a soberania nacional. Desde meu ponto da observador, uma das coisas que mais me impressionam é constatar essa preocupante tendência de que os rumos do país dependam, em alguma medida, das preferencias, estratégias ou disputas politicas dos Estados Unidos. O retorno de Donald Trump à Casa Branca reacendeu esse fenômeno e trouxe novamente para o centro da política nacional uma espécie de dependência ideológica que pouco contribui para os interesses concretos do Brasil. Será que nossos políticos sintam-se, de fato, obrigados a “beijar as mãos” de Trump? Bom, não se trata de negar a importância dos Estados Unidos na economia mundial ou na trepidante geopolítica dos nossos tempos. Trata-se de questionar por que nossos principais protagonistas políticos insistem em importar discursos, conflitos e agendas produzidos em Washington, como se fossem respostas automáticas para os desafios brasileiros. E, não precisa ser dito, o Senhor Trump parece se divertir com o contexto. A cada dia surgem novidades nesse ambiente que, via de regra, aponta para desequilíbrio da balança dos relacionamentos internacionais brasileiros. Dias recentes, por exemplo, a ameaça Trumpista de uma nova onda de tarifaços extorsivos contra produtos brasileiros abalou meio mundo dos negócios nacionais. Na sequencia assistimos a disputa para descobrir o culpado politico dessa reação ianque que ultrapassou os limites da paciência de qualquer mente equilibrada. Para completar, Washington acaba de indicar um novo embaixador no Brasil, sem cumprir as formalidades diplomáticas vigentes de consulta previa, ampliando a sucessão de desencontros. Comenta-se, no Itamaraty, que o indicado, Daniel Pérez, (Deputado da Flórida), filho de imigrantes cubanos e com 38 anos de idade, é “peixe reluzente do aquário” de Marco Rubio, Secretário de Estado do Governo de Trump e que, em varias oportunidades mostrou sua má vontade com o Brasil. E isso, meu Deus, é verdadeira “pedra no sapato” de Lula que, com esse novo embaixador conta como certa uma intervenção direitista nas eleições presidenciais deste ano. Em meio a essa loucura, desnecessário frisar que o Brasil enfrenta problemas próprios e urgentes, tais como: crescimento econômico insuficiente, desigualdade social persistente, deficiências educacionais, violência urbana, dificuldades fiscais e a necessidade de aumentar sua competitividade internacional. Nenhuma dessas questões será resolvida via alinhamentos automáticos com qualquer governo estrangeiro. Por isso que, nas eleições presidenciais deste ano é fundamental que os brasileiros avaliem candidatos, propostas e projetos de país com base nos interesses nacionais. O eleitor não escolherá um representante dos Estados Unidos, nem decidirá os rumos da política norte-americana. O que está em jogo é o futuro do Brasil. Além do que, a soberania de uma nação não se mede apenas pela defesa de suas fronteiras. Ela também se expressa na capacidade de formular políticas independentes, definir prioridades próprias e resistir à tentação de transformar disputas externas em guerras culturais domésticas. O Brasil é grande demais para agir como satélite político de qualquer potência. Sua tradição diplomática sempre valorizou o pragmatismo, a autonomia e a busca de relações equilibradas com diferentes parceiros internacionais. Esse patrimônio não deve ser abandonado em nome de paixões ideológicas, sobremodo as importadas. A democracia brasileira será mais forte quanto menos depender de líderes estrangeiros como referência para suas escolhas. O desafio das eleições não é decidir quem está mais próximo de Trump ou de seus adversários. O verdadeiro desafio é escolher quem está mais preparado para enfrentar os problemas brasileiros. Resumindo a ópera, o Brasil só encontrará seu caminho de sucesso e prosperidade quando compreender que seu destino deve ser decidido em Brasília, nas capitais estaduais e nos municípios do país — jamais em Washington. NOTA: Ilustração colhida no Google Imagens.

Além da bola e dos gramados

Dizer que não sofri com a derrota da seleção seria mentira. Faz parte de um jogo articulado globalmente e, sendo filho de Deus, não consigo ...