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segunda-feira, 25 de agosto de 2025
Salve o negro brasileiro
Meu último post foi portador da minha confissão de impaciência e perplexidade com o quadro politico nacional nesses tempos recentes. A coisa, como pode facilmente ser constatada, saiu do controle e de forma inusitada. A sociedade está desencantada e cansada da bagunça instalada. Ninguém suporta mais a inútil polarização politica, a insegurança pública, bem como a jurídica, a sempre viva inflação e tudo mais que negue a tranquilidade nacional. Pior, ainda mais, é assistir as influências externas que estamos sofrendo no nosso dia-a-dia como poucas vezes ocorreu, ameaçando a soberania nacional e destruindo a tradicional e respeitada diplomacia forjada por Rio Branco. Mesmo considerando que o mundo “encolheu” deitado numa rede mundial de relacionamentos formais, fico pasmo com tantas guerras, desentendimentos entre povos e nações, apontando para um futuro sombrio aqui e acolá. De nada valeu, e recordo por oportuno, a esperança que reinou, no pós Segunda Grande Guerra, quando criada a Organização das Nações Unidas, hoje levada a trote e com prestigio limitadíssimo. Tempos estranhos e difíceis, no qual os aspirantes ao papel de conciliador são enxotados pelos que se aproveitam das efêmeras vantagens de passageiros dos bondes chamados de Poder. Mas, paciência... Este não é tema de pauta de hoje. Seria até redundante continuar nesta conversa. Como o desestimulo que venho enfrentando também tem limites não resisti à provocação desta semana. Estou pasmo com o recente “pronunciamento politico” do cidadão que, a maioria do eleitorado brasileiro colocou, mandando e desmandando, no Palácio do Planalto, em 2022. O dito político experiente e “pai dos pobres”, na sua “fluência arrebatadora” largou uma das suas pérolas que costumam brotar dos seus reais sentimentos (Sorocaba, interior de São Paulo, 21/08/2025), consagrando uma das suas verdadeiras visões de povo. Inacreditável. Contudo, real. “Como pode um desdentado e, ainda mais, negro compor um material publicitário do Governo Brasileiro?” Foi a dolorosa questão do Presidente da Republica tendo às suas mãos um exemplar do material, num evento politico, destinado a promover feitos do seu Governo. Mandou destruir, na hora. Manda quem pode e obedece quem tem juízo. Na declaração, o presidente chegou a perguntar a membros do governo se achavam bonito colocar um homem negro sem dentes em um material publicitário governamental.
Podia nem ser bonito mesmo, mas, não precisava frisar que era um negro. Um homem desdentado e pronto! Foi demais. Contudo, foi oportuno porque, afinal ninguém consegue enganar um povo, por todo tempo. Negar a existência de indivíduos negros no Brasil é negar às raízes da cultura nacional e ferir sem dó tantos valores intelectuais que contribuíram para a grandeza desta Nação. É negar aos milhões de eleitores que confiaram, e acreditam até hoje, num “líder” que posa de Salvador da Pátria. Ah, não! Paciência tem limites. Tomo as dores de um povo que nos trouxe e preservam, depois de séculos, valores culturais inestimáveis, não obstante pressões como esta em tela, desde suas crenças religiosas e espiritualidade criando religiões afro-brasileiras como o Candomblé e a Umbanda transformadas em legítimos sustentáculos da diversidade religiosa nacional, além de passar pela música, pela literatura, ciências e culinária. Negar a matriz cultural africana brasileira é o maior testemunho de ignorância de um individuo que não vive sem ritmos como o samba, o maracatu e a capoeira. Que não dispensa as iguarias culinárias que invadiram as mesas dos brancos, vindas das oprimidas senzalas. Chega de preconceitos! Salvemos os negros brasileiros que zelam, resistentemente, pelas suas identidades e seu orgulho de brasilidade. Foi doloroso Seu Lula!
terça-feira, 9 de agosto de 2022
Salve o Negro Brasileiro
Sempre me dei muito bem convivendo com pessoas de cor negra. Acredito que tudo começou na minha infância quando meus pais decidiram matricular-me, aos sete anos, numa escola particular, muito comum à época, onde uma família de negras professoras se dedicavam ao ensino primário. Mudaram-me de um colégio de freiras, no qual pouco progredi embora haja aprendido a rezar muito e onde fiz primeira comunhão. As professoras afrodescendentes, do Externato Santos Cosme e Damião, eram enérgicas e competentes no ensino do “be-a-bá” exigido àquela época. Aluno sempre aplicado fui logo cercado de afetos, admiração e afagos por Dona D´Lourdes, minha mestra, por quase quatro anos. Aquela negra, embora sempre circunspecta, me encantava e me fez perceber os mistérios de um mundo, no qual eu vivia, em que ter pele negra transformava o individuo em cidadão de classe inferior. Quanta dignidade havia naquela família de negras professoras comandando classes cheias de alunos predominantemente de raça branca e com condições financeiras para remunerar a escola que mantinham. Belos aprendizados recebi: formal e cívico
Estas reminiscências de hoje são provocadas por lastimáveis episódios que, com frequência, ainda testemunhamos, neste inicio de século 21. Nos dias recentes, aqui no Brasil, dois fatos tomaram conta da mídia e jogaram luzes sobre o renitente preconceito de cor que se vive no chamado estado democrático brasileiro. O primeiro foi o da “mulher da casa abandonada”, numa zona nobre e tradicional da cidade de São Paulo. Virou atração turística. Todo mundo queria saber quem era aquela misteriosa mulher, depois identificada como sendo uma tal de Margarida Bonetti, foragida da justiça norte-americana por manter em regime de escravidão, por 20 anos, uma empegada doméstica. A sujeita não chegou a ser julgada pela justiça americana, não foi presa e, mais do que isso, conseguiu fugir para o Brasil no ano 2000, onde se trancou até hoje no casarão que herdou. Descendente de uma família rica e poderosa da pauliceia exercia a habitual exploração de serviçais negras, tratadas historicamente como um bem de capital. A negra vitima dessa atrocidade vive ainda nos Estados Unidos gozando de cidadania e direitos civis, muito embora as restrições sociais que, como todos sabemos, ainda perduram na Terra de Tio Sam.
O outro caso que ganhou espaço no noticiário e correu o mundo foi o da senhora portuguesa que tratou de modo pejorativo e desprezível os dois filhos, adotivos e negros, dos atores brasileiros Bruno Gagliasso e Giovanna Ewbank, num restaurante de uma praia nos arredores de Lisboa, onde passam temporada. O caldo engrossou por lá e a atriz Ewbank, desempenhando seu inesperado papel de mãe vigilante e furiosa, enfrentou a agressora de modo direto e, segundo relatos, desferiu um belo tapa na agressora! A portuguesa preconceituosa foi chamada à responsabilidade e está embalada em maus lençóis.
Bom, foram dois fatos ocorridos lá fora, embora que corriqueiros no Brasil de agora.
Para fechar minha semana, e esta edição do Blog, fui parar no lançamento do terceiro volume da trilogia Escravidão do jornalista escritor Laurentino Gomes. Eis aí uma obra que recomendo ser lida por todos os brasileiros. O autor dedicou-se por anos a uma profunda pesquisa sobre o tema escravidão nas Américas e terminou produzindo três volumes de formidáveis relatos sobre o assombroso regime escravista nas Américas e que arrastou o Brasil ao último país a proclamar o fim da escravidão no chamado Novo Mundo, em 1888, ao contrário de países como México, Chile e Bolívia já o haviam proclamado entre 1818 e 1840. Essa tardia passagem histórica e sua difícil assimilação pela aristocracia escravista prevalecente, à época, num império de “rabo preso” a essas elites resultou na formação de uma sociedade preconceituosa e de tal forma arraigada que, até hoje, em pleno século 21, produz cenas de insanidade, desumanidade e pouco democráticas contra sua imensa população negra.
Estima-se que algo próximo a 5 Milhões de homens, mulheres e crianças foram trazidos da África para o Brasil, como escravos, entre os séculos 16 e 19. Ora meu Deus, impossível pensar que essa população não se reproduzisse e formasse essa multidão, inclusive miscigenada, que provoca tantas controvérsias sociais no atualmente. Laurentino Gomes descreve na sua trilogia uma História apaixonante, dolorosa em certos capítulos, mas, vibrante em termos de registro. Para ele, “a Historia é um instrumento para construção de uma identidade e formação de cidadania”. Concordo. A formação da cidadania brasileira deve aos afrodescendentes suas mais sólidas bases e coloridas nuances. Respeitemos e honremos essa herança. Salve o Negro Brasileiro!
quinta-feira, 26 de novembro de 2020
Consciência Negra
Nos dias recentes foram muitos os temas que caíram na pauta do Blog. Tudo muito do domínio publico através da mídia aberta e que por isso mesmo fugindo do escopo que procuro manter nesse papo semanal. As eleições e seus resultados quase sem surpresas, a apuração entremeada de obstáculos técnicos do Superior Tribunal Eleitoral, as campanhas despudoradas de segundos turnos e, como se tudo isso fosse pouco, o avanço do fantasma de uma segunda onda da Covid-19.
Contudo, o que mais chamou a atenção do país, e com forte repercussão internacional, foi o recrudescimento da questão do preconceito racial que corrói a sociedade brasileira devido ao cruel assassinato do cidadão negro, João Alberto (Beto) Freitas, numa loja do supermercado Carrefour, de Porto Alegre, capital do estado do Rio Grande do Sul, aos modos do assassinato de George Floyd, Minnesota USA, (25/05), por motivos ate agora pouco claros. Seguranças brancos e mal capacitados magoaram de graça uma ferida aberta no seio da vida social brasileira e levantaram a revolta nacional, sempre pendente, das hostes que lutam pela igualdade racial em Pindorama. História velha e de profundas raízes plantadas nos tempos coloniais e imposta pelos brancos europeus. É, indiscutivelmente, um traço cultural que sempre requer muitas mudanças no pensamento coletivo das gerações porvir, tanto entre os brancos, como nos meios dos negros.
O prestigio dos negros vem sendo historicamente relegado ao segundo plano no Brasil e são casos relativamente reduzidos àqueles que, de fato, brilharam socialmente. Imagine que tamanho era o desprezo e desprestigio político-social no passado que, segundo alguns pesquisadores, fotografias de antigos presidentes da Republica eram retocadas para branquear suas peles escuras. Nilo Peçanha, Campos Sales, Rodrigues Alves e Washington Luís foram quatro presidentes brasileiros que fizeram questão de esconder seus ancestrais africanos. Depois disso, imagine o que paira sobre o domínio popular.
Com minha experiência de vida, percebo que, em princípio, os próprios negros alimentam o preconceito renitente quando negam, com frequência, a própria cor. Tenho dois casos bem comuns: duas empregadas domésticas na minha casa. Dois tipos de legítimas negras, tipo angolanas, negando a própria raça ao insistirem que eram morenas. Uma delas saiu arrumada e perfumada, num sábado de carnaval, para assistir ao desfile do Galo da Madrugada. Na volta perguntei se havia arranjado um namorado e, como resposta, ouvi algo surpreendente: “só me apareceu um negão arrastando asa pra cima d´eu. Eu lá gosto de nego.” Falava com desembaraço a la Marilyn Monroe.
O caso do assassinato de Beto, em Porto Alegre, coincidiu, por ironia, na véspera das comemorações do Dia Nacional da Consciência Negra, 20 de Novembro (instituído no Brasil desde 2003) com vistas ao combate do preconceito racial no país. Essa chaga social tem se rebatido no ambiente coletivo de modo exacerbado e institutos de pesquisas apontam as disparidades estatísticas entre brancos e negros nos domínios do trabalho, da educação e das paginas de ocorrências policiais. Segundo o IBGE, em 2018, 55,8% da população se declarou preta ou parda (a soma das duas raças resulta nos negros). Por outro lado e no mesmo ano, no estrato dos 10% com maior rendimento per capita, os brancos representavam 70,6%, enquanto os negros eram 27,7%. Entre os 10% de menor rendimento, isso se inverte: 75,2% são negros, e 23,7%, brancos. Além disso, na classe de rendimento mais elevado, apenas 11,9% das pessoas ocupadas em cargos gerenciais eram pretas ou pardas. Entre os brancos esse percentual era de 85,9%.
Não sei se será nos meus tempos, mas vivo a espera de uma sociedade tolerante, justa e solidária entre seus cidadãos, independente da cor da pele. Desde criança tenho apreço às pessoas de cor negra que devo ao fato de haver tido uma excelente professora negra a quem devo minha visão antirracista.
NOTA: Ilustração obtida no Google Imagens.
sábado, 6 de junho de 2020
Uma Semana Negra
Malgrado o estrago da pandemia mundo afora, esta semana que termina pode ser por
várias razões considerada como uma semana negra. Nas ultimas vinte quatro horas (hoje
é 05/06/2020) morreram pouco mais de mil pessoas, somente, no Brasil. Com este número calamitoso lá se foram mais de 35,0 mil vidas ceifadas entre os 646,0 mil casos diagnosticados, no país. São números alarmantes e que apontam para um panorama
deveras distante do estado desejado. De todo modo, embora não seja ainda um dado confortável, 289,6 mil pessoas já se recuperaram. Para tornar ainda mais negro o quadro nacional, manifestantes promoveram, no domingo, um enfrentamento de caráter politico nas avenidas de São Paulo provocando consternação nacional dada a desobediência à ordem de distanciamento social com vistas à prevenção da Covid19.
Mas, na
verdade, o que me levou a definir o tema desta postagem foram dois episódios sociais marcantes. O primeiro foram os movimentos
registrados, a partir dos Estados Unidos, com o recrudescimento das manifestações
antirracistas motivadas pelo assassinato de um negro, George Floyd, na cidade
de Minneapolis (Minnesota) pelo policial branco Derek Chauvin. A cidade de
Minneapolis é considerada como sendo uma das cidades mais hostis à população de
raça negra daquele país. Somente o fato de estar situada ao ianque norte do país
não precisa dizer mais nada. Os brancos nortenhos nunca aderiram de verdade à
igualdade racial inaugurada na década de 60 e Floyd não foi o único a ser morto,
traiçoeiramente, na semana passada. Foi apenas o ultimo. Jamar Clark (2015) e
Thruman Blevis (2018) são outros nomes listados entre os trucidados pelos
policiais brancos de Minnesota. Comenta-se que a história do preconceito racial naquele estado
norte-americano – não muito diferente da maioria dos demais – é entremeada
de episódios sempre hediondos. Imagine que, até bem poucos anos, adotava-se rotineiramente uma cláusula nos contratos de compra e venda de imóveis proibindo fechamento
de negócios com negros em determinadas áreas da cidade. Na prática, esta população vivia confinada em bairros exclusivos para os coloreds.
![]() |
| Manifestação em memória de Floyd e antirracista. |
O cruel assassinato, por asfixia, de Floyd, parece ter
sido a “gota d´água” que faltava para precipitar essa avalanche de movimentos
antirracistas que se espalharam pelas grandes cidades da Terra do Tio Sam,
muitos dos quais de características mais eloquentes, chamando atenção da sociedade
internacional e pondo em risco a segurança pública do país. Não foi à toa que o
Presidente Trump ameaçou entrar com a Força Federal Militar para conter as
manifestações de protestos. Bom, a coisa ficou mais calamitosa quando grupos de delinquentes
infiltraram-se nas passeatas pacificas e se aproveitaram para atacar e
saquear as propriedades privadas. Centros comerciais e muitos pequenos negócios
foram atingidos e um pânico geral se instalou, agravando a situação já
periclitante devido à crise sanitária imposta pela Covid 19. Note-se que os
Estados Unidos vêm sofrendo situação consideravelmente grave nesse quadro. Por lá
já foram registrados 1,85 Milhão de casos e 107,0 mil mortos (dados da Universidade
Johns Hopkins, em 04/06/20). Finalmente, numa flagrante prova de reprovação à situação
norte-americana, o povo foi às ruas para protestar em vários países e grandes
capitais do planeta lançando luzes sobre o problema endêmico do racismo
internacional e fazendo referencia icônica ao Floyd.
O segundo episódio abalou o Brasil e particularmente Pernambuco pelas mesmas características racistas: a morte do pequeno Miguel
(Miguel Otávio Santana da Silva), 5 anos, filho de uma negra, Mirtes Renata de
Souza, empregada doméstica num condomínio de luxo, frente ao mar do Recife.
Miguel acompanhava a mãe, devido ao fechamento da sua creche, nos afazeres
do dia-a-dia na casa de um político, prefeito de uma cidade do interior
pernambucano. Delegada pela patroa, com o raro nome de Sarí Côrte Real - uma “dandoca enjoada” - Mirtes teve que descer com a
cadela de estimação da família para uma voltinha nos arredores do condomínio, confiando
o pequeno Miguel aos cuidados da patroa. Esta, contudo, concentrada nos cuidados que
estava recebendo de uma manicure, perde a paciência e despacha o garoto num elevador do prédio para que fosse ao
encontro da mãe no térreo. Ocorre que o inocente Miguel foi parar no 9º. Andar da
Torre e, desorientado na busca da mãe, se atirou para a fatal queda. A patroa (ir)responsável foi
autuada por assassinato doloso, mas, se encontra em liberdade mediante uma multa de R$ 20,0 mil. Que mundo
é este, meu Deus? Pobre Miguel. Infeliz Mirtes!
O caso virou
manchetes de jornais locais e de outras localidades, classificado com um
perfeito caso de desprezo ao ser humano, quando negro. Mirtes Renata é negra,
empregada doméstica, com um filho menor e sem condições estruturais para viver
com dignidade. A patroa branca deve ser dessas que confere maior importância ao pet
do que ao caviloso filho de uma negra serviçal. Jamais imaginaria o tamanho do crime que cometeu e a dor social que provocou ao mundo
em que a rodeia. Uma pergunta não cala: onde residem a solidariedade e o trato humano de uma sociedade
que tem um elemento maligno como essa patroa desalmada?
Triste
semana negra, em meio aos protestos internacionais de Vidas Negras Importam.
NOTAS: Fotos obtidas no Google Imagens e reprodução do Diário de Pernambuco.
segunda-feira, 25 de novembro de 2019
Chaga Social
Na semana que
findou permeada, como sempre, de altos e baixos políticos, um assunto abriu espaço e ocupou
as diversas mídias celebrando o que denominam de Dia Consciência
Negra e jogando luzes num assunto mal resolvido neste país: o preconceito racial. Na verdade, uma verdadeira chaga social que se
arrasta por séculos. O Brasil foi o último lugar nas Américas a abolir o
sistema de escravatura, em 1888.
Nesses 130 anos de abolição, a escravidão ainda rege muitas relações sociais, particularmente, nos grotões afastados do vasto território nacional. Alimentado pela tradicional sociedade hipócrita, bem como por razões comportamentais dos próprios indivíduos de raça negra. Um exemplo que não sai da minha lembrança foi o caso da babá de um dos meus filhos, negra retinta de traços angolanos, que foi ao Bloco do Galo da Madrugada e voltou se maldizendo porque o único paquera que se meteu "arrastando asas" pra ela era um negão beiçudo. "Gosto lá de nego", disse cheia de nojo, quando voltou da folia. Foi o bastante para confirmar minha ideia de que os próprios negros magoam a chaga que os condenam. Aliás, todo viu que Michael Jackson nasceu negro e morreu branco...
Segundo Laurentino Gomes, nossos ancestrais, afinal todo brasileiro tem um pé na senzala, eram apanhados como gado nos confins africanos, sendo apartados da sua gente, familiares e cultura. Obrigados a longas caminhadas, acorrentados pelo pescoço, em duplas e sob sol causticante, até o litoral do continente, onde armazenados e fortemente vigiados aguardavam serem embarcados nos muitos navios negreiros com destino aos portos das Américas e Caribe. Muitos morriam nas longas caminhadas ou nos trajetos marítimos. Conta-se que tubarões já acompanhavam as embarcações a espera voraz dos frequentes arremessos de cadáveres ao mar. Antes da partida eram batizados, mudavam de nome e marcados com ferro em brasa, no peito direito, tal como se marca um animal hoje em dia. Pior, com as vênia e bênção da Santa Igreja Católica que, em nome de Deus, juravam estar salvando as almas perdidas dos negros. Em terra eram leiloados como bem de capital da época, tanto quanto é hoje um trator, um arado, uma colheitadeira ou outro instrumento agrário qualquer. Era, portanto um ativo descartável, logo que perdesse sua capacidade de produção. Quanto mais jovem e bem entroncado, mais valor. As mulheres eram exploradas sexualmente pelos comandantes, imediatos e marujos das naus negreiras durante o percurso e quando leiloadas, em terra, se tornavam usadas como objeto sexual e empregadas em diversos afazeres leves ou pesados. Muitas serviam como domésticas (mucamas) nas casas dos seus proprietários.
Nesses 130 anos de abolição, a escravidão ainda rege muitas relações sociais, particularmente, nos grotões afastados do vasto território nacional. Alimentado pela tradicional sociedade hipócrita, bem como por razões comportamentais dos próprios indivíduos de raça negra. Um exemplo que não sai da minha lembrança foi o caso da babá de um dos meus filhos, negra retinta de traços angolanos, que foi ao Bloco do Galo da Madrugada e voltou se maldizendo porque o único paquera que se meteu "arrastando asas" pra ela era um negão beiçudo. "Gosto lá de nego", disse cheia de nojo, quando voltou da folia. Foi o bastante para confirmar minha ideia de que os próprios negros magoam a chaga que os condenam. Aliás, todo viu que Michael Jackson nasceu negro e morreu branco...
Outra lembrança viva que tenho foi que,
na minha infância, tive uma professora negra, Dona D´Lourdes, que soube ter dignidade, autoridade
e competência para transmitir conhecimentos básicos de matérias elementares,
além de respeito ao próximo, civismo e muita educação social. Foi uma pessoa
marcante na minha vida, sobretudo porque me fez entender, na tenra idade, que
negro é gente igual a qualquer outro ser humano, independente de cor da pele. Diante desses episódios que vivi, sou daqueles que discordam da denominação que se deu no Brasil de Dia
da Consciência Negra (Lei 12519 de 10/11/2011). Melhor seria Dia da Consciência
Humana. Questão de marketing.
Políticas governamentais especificas, campanhas educacionais, condenações diretas, entre outras medidas, não têm sido suficientes para liquidar este estigma tão arraigado no ambiente popular da nossa gente.
Por
coincidência e bom para que minhas reflexões sejam mais bem aprofundadas, estou
acabando de ler a obra recém-publicada, Escravidão,
Vol I, de Laurentino Gomes – que muito recomendo – onde encontrei minuciosos
relatos sobre o tema, frutos de pesquisas do próprio autor e de estudiosos
antigos e contemporâneos. São relatos muitas vezes aterradores e indignos.
Atitudes que terminaram forjando essa aberração social, sobretudo nas Américas.
O caso norte-americano é bem conhecido e se tornou emblemático. E no Brasil,
muito embora se use cinicamente uma máscara de convivência pacifica e sem
preconceitos, o negro é sempre tratado como gente de segunda classe. Em tudo e
por tudo. Raríssimos se salvam do estigma. Políticas governamentais especificas, campanhas educacionais, condenações diretas, entre outras medidas, não têm sido suficientes para liquidar este estigma tão arraigado no ambiente popular da nossa gente.
Segundo Laurentino Gomes, nossos ancestrais, afinal todo brasileiro tem um pé na senzala, eram apanhados como gado nos confins africanos, sendo apartados da sua gente, familiares e cultura. Obrigados a longas caminhadas, acorrentados pelo pescoço, em duplas e sob sol causticante, até o litoral do continente, onde armazenados e fortemente vigiados aguardavam serem embarcados nos muitos navios negreiros com destino aos portos das Américas e Caribe. Muitos morriam nas longas caminhadas ou nos trajetos marítimos. Conta-se que tubarões já acompanhavam as embarcações a espera voraz dos frequentes arremessos de cadáveres ao mar. Antes da partida eram batizados, mudavam de nome e marcados com ferro em brasa, no peito direito, tal como se marca um animal hoje em dia. Pior, com as vênia e bênção da Santa Igreja Católica que, em nome de Deus, juravam estar salvando as almas perdidas dos negros. Em terra eram leiloados como bem de capital da época, tanto quanto é hoje um trator, um arado, uma colheitadeira ou outro instrumento agrário qualquer. Era, portanto um ativo descartável, logo que perdesse sua capacidade de produção. Quanto mais jovem e bem entroncado, mais valor. As mulheres eram exploradas sexualmente pelos comandantes, imediatos e marujos das naus negreiras durante o percurso e quando leiloadas, em terra, se tornavam usadas como objeto sexual e empregadas em diversos afazeres leves ou pesados. Muitas serviam como domésticas (mucamas) nas casas dos seus proprietários.
Portugueses e brasileiros foram os mais ferozes e cruéis traficantes de escravos tirados sobretudo da atual Angola e da
Guiné para as terras do novo mundo. Seguramente que, sem a força de trabalho escrava, as culturas de açúcar, algodão e
outros cultivos menores do Nordeste, centrados em Pernambuco, não teriam
alcançado progresso que alcançaram, a ponto de sustentarem a Coroa portuguesa por séculos. Se os produtos acima citados fizeram a propulsão do
comercio entre a Colônia do Brasil e a Europa, muito também tem do que se registrar sobre o
comercio de escravos realizado por ingleses e holandeses. Eric Williams (in Escravidão I, de GOMES, L.), professor da
Universidade de Oxford, falecido em 1981, garantia que o comércio de escravos
no Caribe teria sido suficiente para financiar a Revolução Industrial
inglesa no final do século XVIII. Pode ter sido um exagero, mas, pode dar uma
ideia do fabuloso negócio que se fazia naqueles tempos.
Um registro curioso é que, apesar das tentativas de impor ordens e dura legislação ao tráfico, somadas à alta carga tributária que a Coroa Portuguesa determinava aos que realizavam o comércio de escravos, já ocorria imensa corrupção no meio desses negócios. Senhores de engenhos de açúcar, por exemplo, encomendavam bons escravos e improvisavam portos clandestinos para recebê-los livres de impostos. Contrabando. Mangaratiba, no Estado do Rio, e Porto de Galinhas, em Pernambuco, são lembrados como pontos desses desembarques clandestinos. Ou seja, nossos corruptos de hoje trazem, certamente, do berço esses "edificantes hábitos".
Falta muito
e muitas gerações para que essa chaga social se dissipe e tenhamos uma
sociedade mais humana e mais digna. O Brasil ainda deve muito a esses bravos irmãos afro-descendentes. Dívida difícil de ser paga. Um registro curioso é que, apesar das tentativas de impor ordens e dura legislação ao tráfico, somadas à alta carga tributária que a Coroa Portuguesa determinava aos que realizavam o comércio de escravos, já ocorria imensa corrupção no meio desses negócios. Senhores de engenhos de açúcar, por exemplo, encomendavam bons escravos e improvisavam portos clandestinos para recebê-los livres de impostos. Contrabando. Mangaratiba, no Estado do Rio, e Porto de Galinhas, em Pernambuco, são lembrados como pontos desses desembarques clandestinos. Ou seja, nossos corruptos de hoje trazem, certamente, do berço esses "edificantes hábitos".
NOTA: Ilustração obtida no Google Imagens.
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